27/07/15

CRIANÇAS: DROGÁ-LAS OU AMÁ-LAS?

Adriana Tanese Nogueira

Antigamente se batia nas crianças com a intenção de educá-la (e também para desabafar as próprias frustrações, segundo a lógica do bullying: quem é mais forte domina). Hoje todos fogem horrorizados do levantar a mão contra uma criança, há até uma lei que proíbe isso. Como no mundo há de tudo, temos ainda indivíduos que espancam os indefesos e portanto uma lei que protege as crianças é necessária. Mas não estamos com o problema resolvido, muito pelo contrário. Vemos hoje, pais querendo ser “bons” mas na verdade sendo fracos e pais querendo evitar de por as mãos numa criança e na verdade sendo abusivos. Há palavras e tons de voz que são mais violentos do que o tapa em si.

Falta muito ainda para sabermos lidar com as crianças – ou seja, com nós mesmos? Vamos começar com compreender uma coisa: as crianças não têm noção dos problemas dos adultos. Vivem numa outra dimensão - dimensão que nós adultos muitas vezes lhes invejamos mas que ao mesmo tempo lhe negamos! Qual é essa “dimensão”?

Em primeiro lugar, se trata de uma dimensão não racional mas composta de pulsões internas (“impulsos”), vontades, desejos, necessidades, ansiedades – enfim, sentimentos e emoções muitas vezes pouco claros a elas mesmas. As crianças sentem, são guiadas/manipuladas pelo que vêem, pelo que são expostas a gostar ou achar bonito, pelo que lhes pulsa dentro. Mas por baixo das modas e das disneys da vida, as crianças têm reais necessidades que, quando não nomeadas e atendidas, são transferidas para o brinquedinho e a “manhã”.

Cabe ao adulto decifrá-las. Isso é ser mães e pais. Cabe ao adulto orientá-las para os valores essenciais, reconhecer o que está incomodando de verdade, atender as necessidades reais. Assim como cabe ao adulto dar os limites.

Como é difícil essa parte. Limites! Afogados em seus problemas e no sentimento de culpa diante da sutil consciência de que não se está cuidando bem dos filhos, eis que os adultos são fracos diante das demandas (“tortas”) de seus filhos e lhes dão o que não precisam, continuando a omitir-lhes o que precisam. Desta forma, incentivam o “vício” ou seja a fixação num objeto e situação que não são de fato significativos para substituir o que de fato é importante mas negado ou calado.

Comida é um vício, vídeo-game é um vício, amigos demais ou ficar fora de casa demais é um vício, disney é um vício, televisão é um vício, notas ruins é um vício. Todos e outros tantos são comportamentos compensatórios diante de algo essencial que falta e que com o tempo se esquece até do que se trata, mas continua faltando. Um buraco que produz angústia. Angústia que precisa ser acalmada com determinado comportamento, pensamento e companhias.
Não nos queixemos de nossos filhos a menos que não estejamos dispostos a pôr a mão na nossa consciência e a fazer uma séria análise da situação nos colocando em discussão. A menos que não estejamos prontos a encarar as questões que carregamos dentro e que transferimos para eles, poluindo seu crescimento e sua serenidade e carregando-os de mais fardo daquele que lhes cabe, não nos lamentemos deles.

A família deve ser vista como um sistema único. Nela, cada um desenvolve um papel e nesse papel cada um está preso. Papeis aqui não quer dizer somente as funções (ele é o calmo, ela é a briguenta, o outro é o ponderado e a quarta é a histérica). Há nós, laços, problemas mais profundos do que esses que os sustentam, os quais precisam ser desatados, compreendidos e clareados para que haja uma verdadeira transformação positiva de toda a família.

Na ausência dessa disponibilidade moral, intelectual e emocional dos pais se recorre à covardia de drogar as crianças com remédios e falsas interpretações de seus comportamentos para quem se calem e deixem de ser os espelho da personalidade oculta dos pais. Famílias crescem ou morrem juntas. São feitas para cada um ajudar o outro a evoluir. Cabe-nos escolher.

20/07/15

ORGANIZAÇÃO E DISCIPLINA

Adriana Tanese Nogueira

Toda empreitada requer organização e disciplina. Com a primeira criam-se as condições para a realizção de um projeto, com a segunda se matém o passo que leva ao resultado final. Alguns dizem que essas capacidades começam no berço e que uma vez perdida a oportunidade de aprendê-las, é muito difícil conseguir desentortar o que cresceu torto. Mas isso não é verdade. Existem abordagens efetivas para promover organização e disciplina. Nos negócios como na vida, não basta ter visão, precisa também saber implementar e levar adiante o que se idealizou e se sabe ser possível.

Organização e disciplina são como as duas pernas que permitem a caminhada rumo aos nossos objetivos. A organização começa pelas idéias: definir o que se quer, como se quer e o tempo que queremos ou dispomos para realizar o projeto. Sem objetivos claros não tem como traçar estratégias, as quais devem ser tanto mais precisas quanto queremos que sejam efetivas.

Estratégias são o marco de um projeto: elas representam a resposta à pergunta “Como vamos chegar lá?”. Para criar estratégias é preciso conhecer o ambiente no qual estamos realizando nosso projeto e a partir daí definir a melhor abordagem para alcançar nossos potenciais interlocutores.

A disciplina entra em cena ao implementar o projeto. Assim como são precisos nove meses ou dez luas para gestar um filho, da mesma forma a idéia na cabeça para sair do mundo ideal e entrar naquele real necessita de tempo. Essa transição até a realização plena requer a disciplina, por exemplo, a continuidade dos hábitos saúdaveis para os nossos objetivos. Há coisas que precisam ser feitas com regularidade, todos os dias, às vezes até sempre no mesmo horário. Há iniciativas que precisam ser tomadas, há trabalho a ser feito que não pode esperar, mesmo que estejamos cansados ou que outras coisas apareçam no caminho. Disciplina é a força interior que agarra o timão do navio e o mantém na direção escolhida.

Uma vez que o projeto começa a ganhar asas, a organização é como o óleo do motor graças ao qual o carro anda suavemente. Assim como o óleo, a organização precisa de períodicos checkups: novos aspectos podem precisar ser acrescentados, deve-se  rever o que já existe, aprimorar e burilar para melhores resultados. Tudo muda, precisamos não só nos atualizar como atualizar a forma como trabalhamos, portanto afinar a organização. Naturalmente, é pela disciplina que esse processo constante de crescimento acontece. Aparentemente, a fé move montanhas, mas se você não se levantar da cadeira e for fazer uma série de atividades repetidas todos os santos dias, dando um passo atrás do outro sem parar, com certeza não chegará à montanha.

Concluindo, uma boa organização é o resultado de uma mente clara. Pode haver agitação em volta, muita coisa para fazer, mas há de haver um espaço mental onde se enxergam as coisas com tranquilidade para poder organizá-las, caso contrário se é atropelados por emergências e eventos de todo tipo. Disciplina é a consequência do caráter da pessoa que sabe se manter firme diante das mais variadas tentações e distrações.


Excesso de organização e disciplina porém são o fruto da mente neurótica. Colocar organização e disciplina acima de tudo é acaba por destruir o próprio sentido do projeto, a alma do mesmo. Se organização e disciplina são como as duas pernas que nos permitem avançar, não nos esqueçamos que também temos uma cabeça e um coração.

13/07/15

POR QUE ESQUECEMOS DA INFÂNCIA

Adriana Tanese Nogueira


Um dos motivos que, com certeza, provocam o apagamento de grandes partes da infância é o estresse vivido naquela época. No conto de fada que os adultos gostam de tecer a respeito das crianças consta que a delas seria uma época dourada, sem preocupações, contas para pagar, tensões, trânsito e relacionamentos difíceis. Balufas. As crianças sofrem e podem sofrer muito, e muitas delas têm uma vida do cão (estou falando de crianças "normais" vindas de famílias “normais”).

O fato delas não terem a consciência e o conhecimento de um adulto só piora as coisas, porque elas não podem dar nome ao que as machuca. Isto as confunde, as deixando ainda mais assustadas. Para pior as coisas e aumentar a perplexidade e confusão da criança há o fato dela experimentar que a mesma pessoa que lhe dá amor, ou no mínimo nutrimento e abrigo, pode ser aquela com a qual tomar mais cuidado, da qual se precaver.

Coloquemo-nos na posição de uma criança. Ela é impotente e dependente. Se é batida não pode revidar – coisa que geralmente um adulto faria, de uma forma ou de outra. Se é maltratada não pode ir embora – coisa que um adulto psicologicamente saudável faria. A criança vive à mercê dos adultos que dela cuidam. Pode ter a sorte de estar no meio de pessoas sensatas, honestas e conscientes… ou não. Neste caso, só lhe resta engolir e ir adiante. O que a norteia será seu instinto de sobrevivência, ela fará o que for preciso para manter-se viva e pertencer a alguma coisa. Adaptar-se-á a qualquer situação se assim for preciso, pode se tornar burra, sonsa, malandra, indiferente, insensível, raivosa, mentirosa… Sua psicologia irá se moldando à situação. É tudo o que tem, os pais são seu mundo. Não há outro.

Por que lembrar da dor? A tristeza da realidade, que o adulto acha que somente ele saboreia, é conhecida de muitas crianças. Que elas ainda saibam rir não é prova de que sejam felizes, mas da enorme força da vida que em seus pequenos corpos as sustentam. Chama-se resiliência, a capacidade de superar, refazer-se, ir adiante. Mas, o acumulo gradativo e constante da mesma meleca todos os santos dias não tem como não deixar suas marcas na alma infantil. E assim a criança esquece, e assim a criança é moldada no padrão mental e emocional que sua família lhe impõe.

Para lembrar dos fatos é preciso ter estado presente a si mesmos. Para estar presente a si mesmos é preciso ter tranquilidade de espírito, isto é: não se sentir em perigo, em estado de alerta e com medo. A tranquilidade de espírito não quer dizer ter dinheiro no banco, casa bonita, quarto de grife cheio de brinquedos. Se trata de um estado interior de serenidade e presença. É a verdadeira paz (mesmo quando há problemas). O estresse, como bem sabemos, é a reação ao perigo. Muitas crianças, perfeitamente conscientes de sua fragilidade física, chegam a sentir-se em perigo de vida. Elas não têm condições de entender a raiva de um adulto frustrado, não sabem lidar com isso. O que importa se este adulto se chama “mãe” ou “pai” quando são pessoas com comportamentos violentos, abruptos e irracionais? Ou simplesmente insensíveis? Ser crianças é muitas vezes viver sob imprevisíveis tiranos.


Nossos neurônios estão disponíveis para impregnar-se de informação quando a alma está sintonizada com o dentro e o fora, ao mesmo tempo. Isso é estar presentes. Se temos que calar o nosso interior é porque o que está fora requer um estado de alerta constante. Então, já deixamos de viver, estamos sobrevivendo. E isso, não vale ser lembrado.