10/12/2017

O MONSTRO INSIDIOSO E TRAIÇOEIRO DO ALCOOLISMO

Alcoolismo não é simplesmente a dependência de uma substância que leva a pessoa a precisar que ela chama de querer” – beber muito e constantemente.
Alcoolismo é uma problemática humana de caráter holístico. O ser inteiro da pessoa está doente, ou melhor, apresenta em grau elevadíssimo uma doença espalhada em graus diferentes em nossa sociedade.
Em primeiro lugar, o alcoólico, conforme Jack Trimpey, autor de The Rational Recovery (que podem encontrar em pdf aqui) afirma é governado pela busca incessante de prazer. Parece-me espelho de nossa sociedade. Infelizmente para ele, porém, o prazer está focado numa substância que, junto ao prazer, traz tamanhos desequilíbrios psicológicos, emocionais, relacionais e físicos que, para serem tolerados, requererem mais e mais álcool, num ciclo incessante e fatal de autodestruição.
Trimpey visualiza essa realidade interior do alcoólico naquilo que ele chama “The Beast”, a besta ou o monstro, que, diferentemente da Fera de “A Bela e a Fera”, não tem salvação. O monstro precisa ser totalmente subjugado. Mas como, se quem governa a vida do alcoólico é justamente esse monstro?
Segundo Trimpey, e segundo minha experiência clínica, existe junto ao monstro uma outra voz interior no alcoólico que busca saúde e que se dá perfeitamente conta do estrago que o alcoolismo provoca. Mas esta voz é fraca e a consciência do alcoólico não consegue ouvi-la ou se manter antenado nela. O monstro é forte demais.
E como funciona esse monstro?
Em primeiro lugar, na necessidade física de beber e por inúmeras razões: ora porque está feliz e “precisa” festejar, ora porque está deprimido e “precisa” se anestesiar, ora porque está entediado e “precisa” se distrair, ora enfim porque se está estressado e “precisa” relaxar.
Em segundo lugar, o monstro do alcoolismo se manifesta nos ataques violentos, nas reações exageradas e nas explosões a partir de detalhes que uma pessoa sã não consideraria dignos de tamanha ênfase,
Em terceiro lugar, o pior talvez, o monstro do alcoolismo altera a forma do alcoólico enxergar sua realidade e de se entender. As interpretações de fatos, sentimentos e situações são distorcidas num nível tão sutil e pérfido que é muito difícil de reconhecer.
É aqui que o monstro do alcoolismo mostra toda sua insidiosa e traiçoeira natureza. O alcoólico é mestre em transformar você em problema e se safar de qualquer responsabilidade. Ele tem uma enorme dificuldade em reconhecer seus erros, mesmo os pequenos. Mas como na vida estamos sujeitos a errar e nos desentender frequentemente e crescer depende de aprender conforme se vive, o alcoólico está preso a uma realidade estática que não pode ser questionado e, portanto, não pode evoluir. Na relação de casal, que é a mais problemática entre pessoas normais, imagem com um alcoólico, há inúmeras circunstâncias nas quais é preciso se rever e se entender com o outro. Mas o alcoólico não quer se enxergar e muito menos se rever. Viver com ele é como caminhar em terra minada. Qualquer que seja a situação, o alcoólico constrói um raciocínio perverso que tem como objetivo fazer de você a pessoa errada.
A dinâmica traiçoeira segue regularmente os critérios de:
1. Ocultar a responsabilidade do alcoólico em qualquer circunstância, mesmo que esta seria algo relativamente fácil de resolver.
2. Desviar o alvo da crítica de si para o outro da relação, geralmente, aliás, inevitavelmente, a esposa/o e, em segundo lugar, os filhos.
3. Manipular fatos, verdades, pensamentos e sentimentos de forma a enredar o outro ao ponto de fazê-lo duvidar de sua própria sanidade mental e verdade.
O nível de perfídia e enganação do qual o alcoólico é capaz está diretamente relacionado ao seu nível de inteligência. Quanto mais inteligente mais insidioso e traiçoeiro ele sabe ser – e ele será.

Adriana Tanese Nogueira
Psicanalista, filósofa, life coach, terapeuta transpessoal, interprete de sonhos, terapeuta Florais de Bach, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto, do Instituto de ensino à distância Ser e Saber Consciente e do ConsciousnessBoca.com em Boca Raton, FL-USA. +1-561-3055321

05/12/2017

A DOR QUE NOS FAZ HUMANOS

Ninguém gosta de sofrer e todos evitamos ao máximo a dor. Entretanto, vemos a toda hora filmes que retratam dor e sofrimento, feridas, sangue, perdas, angústias, solidão, desespero. Por que será?
Porque precisamos nos ver com nossas dores, as muitas que silenciamos nos anos. Precisamos olhar para as lágrimas alheias para entrar em contato com aquelas que não derramamos. Precisamos ver a agonia fora representando a nossa, reprimida.
Não faz sentido nos perguntar: se desejamos tanto a felicidade, como é que a maioria dos nossos filmes retratam exatamente aquilo do qual fugimos?
A resposta é: porque aquilo que foi reprimido, mesmo em silêncio, nos pressiona para que o encaremos e resolvemos. Aquilo do qual se escapa clama seus direitos a fazer parte de nossa vida. Porque faz, não importando se for agradável ou não. Podemos virar a cara para o outro lado e fingir que não vemos e não sentimos, mas o que evitamos continuará lá, imperturbável até o final dos tempos. E, além do mais, continuará reaparecendo em nossas vidas em outras formas, de novas situações, em diferentes disfarces.
Ver projetado sobre a ela o que afogamos em algum canto da alma não vai resolver nosso estado, se assim fosse já estaríamos todos no paraíso dada a quantidade de filmes violentos e cheios de sofrimento que tem por aí.
Na tentativa de nos proteger da dor, até porque precisamos levar a vida adiante, nos endurecemos. Ao reprimir o sentimento de sofrimento, nos tornamos mais duro. Apesar disso ser às vezes necessário, fazendo parte do desenvolvimento saudável de um ser humano rumo à maturidade, quando é feito de forma inconsciente e automática não é nunca bom.
Existe um conto para crianças acerca de um menino que não queria sentir dor e pediu para alguma fada para que realizasse seu desejo. Um dia, o menino serrando uma madeira foi serrando junto a própria mão sem perceber!
Ao reprimir o sofrimento psicológico nós nos anestesiamos em geral. Repressão de sentimentos é de fato uma anestesia psicológica. Menos a gente sente, mais atordoados ficam nossos sentidos. Menos sentimos a nossa dor, menos sentimos a dos outros. Mais anestesiados estamos, mais insensíveis à dor e sofrimento dos outros estaremos. Menos sensíveis a nós mesmos, menos empatia teremos para com os outros.
Encontramos aqui a raiz da psicopatia. O psicopata vive em um mundo seu, abstraído tanto de sua própria humanidade tanto da dos outros. É por isso que consegue fazer tanto mal.
Assistir filmes que retratam nossa psicopatia não vai ajudar-nos a sarar da doença. Assistir cenas que jamais faríamos na vida real, que inflacionam nossas dores e revoltas, não nos permite superá-las. Ao contrário, nos afunda sempre mais no mesmo lodo.
A única forma possível de curarmo-nos do sofrimento humano que partilhamos todos é o de encará-lo. É essa dor que trazida à tona nos faz recuperarmos nossa humanidade, começando com nós mesmos.
Começando com aprendermos a sermos mais gentis conosco. Menos julgamento e mais olhar límpido e objetivo. Menos crítica e mais reflexão crítica. Menos vergonha e mais honestidade. Assim como o amor, a dor nos faz humanos e a dor refletida, compreendida, integrada nos leva à maturidade e à paz.


Adriana Tanese Nogueira

Psicanalista, filósofa, life coach, terapeuta transpessoal, interprete de sonhos, terapeuta Florais de Bach, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto, do Instituto de ensino à distância Ser e Saber Consciente e do ConsciousnessBoca.com em Boca Raton, FL-USA+1-561-3055321