19/03/2017

CRIANÇAS E TAREFAS DOMÉSTICAS

Descobri que as crianças podiam fazer tarefas domésticas quando tinha cerca de 10 anos. Morava na Itália, em Milão, e nossos vizinhos de apartamento, num bairro de classe média-baixa, tinham dois filhos, uma menina de 7 anos e seu irmão de 5. Lembro do dia em que estava na varanda, ao lado da delas e devo ter visto ou ouvido alguma coisa. Foi uma revelação! Refleti, admirada, sobre o fato que ambos faziam sua cama, ambos, incluindo o menino de 5 anos! Aquilo ficou gravado na minha mente.

Naquela época eu não fazia nada em casa, e muito menos meus irmãos de um e três anos mais novos. Repensando hoje acho triste. Mas entendo o porque daquilo. Minha mãe nasceu no sul da Itália, numa família pobre e por isso rigidíssima em termos de trabalho: era labuta cotidiana, sem piar. Acredito que ela não quisesse o mesmo para nós, afinal ela foi quase uma escrava, trabalhando sem folga pelo simples objetivo de contribuir para a existência e manutenção da família. Meu pai vinha de uma família de bens, do interior de São Paulo, onde casa e comida estavam sob os cuidados de uma empregada, como é esperado numa família “de classe”.

Ambos representam um quadro realista da atualidade brasileira. Há os pais que tiveram de menos na infância e que tendem a dar demais aos filhos; e há os que sempre tiveram uma mulher (empregada ou mãe) que fez por eles e que portanto acham que ser servidos é o jeito normal de viver. E há os que tiveram vida difícil e poupam os filhos das dificuldades. Todos estragam seus filhos.

Vivemos num tempo de enorme alienação da vida real, da vida ao vivo. As crianças não sabem mais que ovos vêm de galinhas e que galinhas são bichos com bico e penas que um tempo eram vivos antes de se tornarem nuggets. Crianças afogam seus neurônios em vídeo-games e são incapazes de enfrentar o mundo, conquistar seu espaço, saber lidar com a realidade do jeito que ela é. Crianças estão sempre mais gordas, mais preguiçosas, mais prepotentes, mais insensíveis. Vivem num mundo irreal envolto em fantasias e desejos, seus, de seus pais, da mídia de massa. Crianças estão desconectadas de si próprias, com os sentidos embotados sofrem e são medicadas perdendo a esperança de se encontrar novamente e serem um dia felizes.

Precisamos todos voltar ao básico da vída. Precisamos todos de mais simplicidade e humildade. Começa-se com as atividades domésticas. Sim, porque elas representam o pão de cada dia em termos de moradia. Todos precisamos de um teto, todos precisamos de um lar limpo, organizado, arrumado e por isso gostoso de se ficar. Todos começamos nossa vida num grupo. A família é a nossa primeira sociedade. Sentir-se parte ativa dela é motivo de orgulho para uma criança, lhe dá chão e ajuda a desenvolver maturidade. Lhe permite se situar, lhe ensina “como se faz”, a faz sentir parte do mundo de seus amados pais. Cuidar da vida material tem seu lado chato porque é repetitivo, mas isso é estar encarnados. Temos um corpo e precisamos comer, nos proteger, etc.

A boa pedagoga italiana, Maria Montessori, pensou numa educação que começa botando as mãos na massa, se sujando mesmo, aprendendo o básico e indispensável da vida. Não estamos num vídeo-game e não existem pais superpoderosos que podem providenciar ao infinito mimos e mordomias. Se queremos adultos conscientes, responsáveis e gentis, vamos começar a introduzi-los à realidade da vida, com amor mas também com sem dó. Lavar os pratos não é coisa de coitado, é coisa de gente independente e autônoma. Gente GRANDE.


Adriana Tanese Nogueira

Terapeuta Transpessoal, Psicanalista, Life Coach, Educadora Perinatal, Orientação Pais, Terapeuta Floral, Consultora, Palestrante e Autora. Atendimento adulto, criança, casal e adolescente. Consultoria em empresas e serviços de saúde. Presencial, Skype, WhatsApp, telefone. Boca Raton, FL +15613055321.  www.adrianatanesenogueira.org.

15/03/2017

AMOR TROGLODITA OU A LOUCURA NO AMOR

Há pessoas que só conhecem o amor troglodita*. Elas podem ter doutorado e ser executivas, ser muito sociáveis e ter dinheiro no banco, mas isso nada tem a ver com a forma como amam. O amor troglodita é aquele que, entre outras tristezas, promove “brigas preventivas” e preenche os espaços da relação de fantasmas imaginários e argumentos ficíticios toda vez que uma potencial ameaça surge no horizonte.

No amor saudável se espera um relacionamento feito de afeto e carinho, com algumas brigas de vez em quando. Estas brigas variam de, digamos, civilizadas a irracionais, motivadas por ciúmes, insegurança, controle do outro, enfim uma série de fatores. Mas há mais.

O amor troglodita fomenta brigas por razões imaginárias. A pessoa, homem ou mulher, fantasia e ataca o outro. Quando este tenta explicar que aquilo é fantasia, a pessoa então muda a acusação. Ou seja, você desmascarar um argumento, a pessoa arranja outro, outra fantasia. Mudando o foco da briga, começa uma nova sequência de ataques. Quando a pessoa se vê sem saída, altera sua atitude, se faz de ofendida, magoada, “desrespeitada”. Ou seja, quer te faz sentir em culpa.

Enlouquecedor, não é? E totalmente real.

O amor troglodita é tão vítima de si mesmo quanto é carrasco. A pessoa em questão é extremamente hábil em manipular todas as suas relações. Ela tem raciocínio rápido e resposta pronta, os erros são dificilmente reconhecidos. É praticamente impossível discutir com uma pessoa dessas de forma lógica e racional.

O que fazer?

Primeiro, compreender. Tecnicamente, as características expostas acima refletem como acontece uma relação amorosa com um dependente químico, ou seja, alguém viciado em álcool ou drogas. Mas quem cresceu em meio a pais alcoólicos acaba do mesmo jeito. O vício é emocional.

A pessoa do amor troglodita é tomada por “algo” que a domina, e busca pretextos externos para explodir. Quando um não funciona passa para outro, não importando o conteúdo específico do problema levantado ou da situação apontada. O "manobrista" desse teatro está no inconsciente e a pessoa, convenientemente, evita tomar consciência. Toda desculpa é boa para desviar a atenção de si e colocá-la no outro. O dedo está sempre apontado para o outro, para atacá-lo ou para acusá-lo de estar atacando.

Há um marasmo de elementos que atuam e se perpetuam graças à manutenção da inconsciência. Este "manobrista" interior busca as brechas todas as vezes que acumula uma tensão interna que precisa descarregar. Projetando para fora de si os próprios fantasmas, os “gruda” no outro e assim se mantém cego de si mesmo. Estas válvulas de escape são periodicamente necessárias.

Segundo, agir. Quando a conversa democrática e racional não funciona, é preciso mudar de tática. A única possibilidade que se tem é de alguma forma tomar o touro pelos cornos ou, melhor seria dizer, pelos testículos. Desta forma o se imobiliza. Isto na prática significa agir de forma a solapar as bases da discussão assumindo atitudes concretas que coloquem a pessoa contra a parede. Com esse golpe visa-se espremer alguma verdade. Assim fazendo, estamos nós também encarando a nossa verdade.

Uma mudança é indispensável. Se a pessoa não está disposta a mudar, a procurar ajuda e terapia, se sua única forma de amor é a troglodita, então nos cabe nos perguntarmos se queremos permanecer no tempo das cavernas ou passar a um estágio mais avançado da evolução humana. E este passo é somente nosso - mesmo amando a outra pessoa e pelo seu bem.

O amor troglodita vive e prospera graças à conivência e cumplicidade de quem aceita baixa sua cabeça. Se essa não é a solução para você, então é você que precisa de ajuda.

Adriana Tanese Nogueira

Terapeuta Transpessoal, Psicanalista, Life Coach, Educadora Perinatal, Parenting Consultant, Mentor, Terapeuta Floral, Autora. Atendimento adulto, criança, casal e adolescente, individual e de grupo – Presencial, Skype, WhatsApp, telefone. Boca Raton, FL +15613055321.  www.adrianatanesenogueira.org.



* Este artigo foi elaborado a partir de uma troca de emails que tive com meu pai quando ele estava elaborando uma relação terminada. A expressão “amor troglodita” é de autoria dele. Achei-a genial.



13/03/2017

MULHER, LOUCURA É SUA REVOLUÇÃO

No jargão popular machista, quando uma mulher incomoda, recebe dois apelidos: “chata” e “louca”. Ela é “chata” quando “reclama” e “louca” quando se expressa.

Assim como a “manha” da criança, a “reclamação” da mulher nasce de um lugar muito mais profundo do que parece. Um lugar que quer ser ouvido, que precisa de legitimação. Mas a voz verdadeira não sai e o conteúdo interior não reconhecido incomoda e aproveita qualquer brecha para se manifestar, e aí sai como “manha” ou “reclamação”. Por outro lado, quando a mulher fala o que pensa e expressa o que sente é chamada de “louca”.

Dizia Silvia Montefoschi, psicanalista italiana (1926-2011), que os homens amam os homens e transam com as mulheres. Com essa frase paradoxal, ela apontava para o fato que o amor dos homens é pelo masculino, pelos valores, atividades, modo de pensar, de ser, de sentir masculinos. Em seu mundo, a mulher é um alienígena, objeto de desejo mas também ser incompreensível. Alguém que não se sabe como “administrar” e que também não se tem lá tanta vontade de entender porque isso levaria o homem a sair de sua zona de conforto.  E nós sabemos o quanto confortável é esse lugar! Ser homem é nascer com privilégios.

Até os homens não aprenderem a amar as mulheres – isto é, a amar o feminino, os valores femininos, as prioridades, o modo de sentir e de pensar femininos – elas continuarão a ser loucas e chatas. Mas como poderão os homens amar o feminino se as mulheres ainda não o fazem?

A sociedade está pautada sobre valores masculinos diante dos quais a mulher e sua vida são secundários, um empecilho até – como fica claro quando um jogo de futebol vale mais do que a morte (com esquartejamento) de uma mulher pelo goleador que é contratado  aplaudido assumir o homicídio.

Toda mulher, consciente ou inconscientemente, sabe que corre um risco ao se opor à vontade masculina. Seu medo é instintivo e baseado em milhares de gerações de mulheres antes dela. O preço da desobediência ao macho é sempre altíssimo. Teme pagá-lo ou inconsciente das consequências se omite e se faz cúmplice  para conseguir “um lugar ao sol”. Com isso vende sua alma ao diabo. O machismo se sustenta graças a uma ampla base feminina. Nesse 8 de março vamos ser honestas e dizermos que: algumas mulheres conquistarm direitos para todas. Não ganhamos mais porque não somos todas ainda.

Eis o sonho de uma mulher em seu caminho de individuação: “Há uma pedra que os homens precisam e que somente as mulheres podem lhes dar. Essa pedra é a criptonite, que é a pedra do Superman, a que lhe tira os superpoderes. Mas elas dizem que “eles não merecem”. A sonhadora, entretanto, consciente da necessidade de levar adiante essa missão, vai atrás da pedra e a consegue e descobre o quanto isso é difícil.”

As mulheres têm “dó” dos homens, dó de mostrar a eles que são humanos e não superheróis, dó de desmontar a fantasia do Superman. Mas é preciso fazer isso, fazer o herói cair do cavalo, como diz o sonho de um homem em análise: “Ele se vê tendo que carregar para cima e para baixo um boneco inflável do Superman. Sente-se exausto.”

As mulheres maternalmente protegem os homens de suas verdades e assim fazendo se supercarregam e se colocam para baixo. Para desmascarar o rei e mostrar que está nu, e que não é nenhum superhomem, é preciso da coragem que vem da consciência de que só elas podem parir um mundo novo. Um mundo onde ele se livra de seu complexo de superioridade e ela aquele de inferioridade.


Adriana Tanese Nogueira

Terapeuta Transpessoal, Psicanalista, Life Coach, Educadora Perinatal, Parenting Consultant, Mentor, Terapeuta Floral, Autora. Atendimento adulto, criança, casal e adolescente, individual e de grupo – Presencial, Skype, WhatsApp, telefone. Boca Raton, FL +15613055321.  www.adrianatanesenogueira.org.

26/02/2017

O KARMA FAMILIAR E NOSSO PAPEL

Na terapia de regressão elaborada por Roger Woolger (Deep Memory Process), após a morte a alma gravitará para o sistema energético que corresponde àquele no qual morreu. Vamos explicar: ao término de uma vida, os últimos momentos representam como que uma condensação de toda a vida, uma síntese energética do aprendizado e das questões não resolvidas. Com síntese energética quero dizer concretamente: emoções, pensamentos, sentimentos, sensações físicas (por exemplo, todos os tipos de desconforto físico que podem surgir no final da vida). Esses aspectos formam um “sistema energético”: vibrações, energia de uma certa qualidade.

Essa qualidade energética irá gravitar para o que lhe é parecido. Pessoas preocupadas com dinheiro e sobrevivência, comida, culpa, raiva, irão gravitar para um ambiente familiar que carregue padrões semelhantes. Isso tudo pode gerar aquela sensação que muitos têm na adolescência de se sentirem “sufocados” pela família, presos à ela, amarrados e impossibilitados a se expressar, ser e fazer seu caminho.

Como os mais velhos sabem, fugir da família aos 18 anos não resolve o problema, o reencontramos mais tarde na vida. Aquela família nos pertence e nós pertencemos a ela: todos partilhamos um padrão (entre vários e em meio às diferenças pessoais) que precisamos quebrar. Os padrões kármicos são mais de um, cada filho carrega um ou um aspecto de um, como se pode observar ao analisar a personalidade de cada filho e a realidade psico-emocional-espiritual dos pais no momento de sua concepção.

A tendência natural do ser é o desenvolvimento livre e pleno. Para conseguir isso, é preciso romper com o karma familiar que herdamos. E, repito, o herdamos porque tem a ver com nossa história de alma e não simplesmente porque nascemos daqueles pais. Temos que compreender esse processo como um grande aprendizado coletivo no qual ser pais ou filhos é simplesmente circunstancial. Cada um tem sua história de alma, com feridas e necessidades. Às vezes para realizar um talento é preciso antes quebrar um padrão repetitivo e é por isso que nascemos numa determinada família: para viver e enxergar de perto esse padrão a fim de rompê-lo e assim realizar o que temos a dar e a ser nesse mundo.

Como se quebra o padrão repetitivo? Pelo auto-conhecimento.

Precisamos nos entender no lugar de ficar batendo a cabeça contra as paredes até encontrar uma que quebre (antes de quebrarmos a cabeça!) e nos deixe passar. Não se aprende a usar um computador apertando todas as teclas até acontecer o que desejamos: temos que compreender seu funcionamento. 

Algumas perguntas de orientação: Qual é sua característica na família em que nasceu? O que dizem de você? Como é visto? Como se vê? Indague seu nascimento, quem eram seus pais naquela época? O que acontecia? Observe como sua família o faz sentir, como está sua autoestima? O que mais o prende? Do que tentou se libertar até hoje?

Em seguida, foque no que quer para si, onde quer chegar que não consegue ou está difícil? Como queria ser visto e reconhecido? Suas dores mais íntimas dizem respeito ao quê?

Enfim: Qual é seu mais íntimo desafio? O que está sendo chamado a superar?
Esta reflexão é muito importante para os pais, começando pelas mães que são geralmente as mais sensíveis e as que mais ficam com os filhos: é super essencial entender que o que nós não resolvemos o passamos adianteaos nossos amados filhos. Não tem escapatóia. 

Um karma é como uma repetição cega da mesma coisa, não tem consciência e intenção. É bestial, estúpida e poderosa. O único jeito de romper o círculo vicioso é pelo seu trabalho interior de libertação e transformação.

Adriana Tanese Nogueira
Terapeuta Transpessoal, Psicanalista, Life Coach, Educadora Perinatal, Parenting Consultant, Mentor, Terapeuta Floral, Autora. Atendimento adulto, criança, casal e adolescente, individual e de grupo – Presencial, Skype, WhatsApp, telefone. Boca Raton, FL +15613055321.  www.adrianatanesenogueira.org.