16/02/15

INTUIÇÃO X FANTASIA

Intuição é uma percepção que parece com uma fantasia mas, diferentemente desta, traz um vislumbre do que vai ser. Para saber distinguir uma da outra é preciso ter o próprio ego sob controle. E aqui é que está a dificuldade.

Ao desejar tencionamos nossos pensamentos e sentimentos na direção do almejado, e desta forma “poluimos” o olhar interior. Criamos verdeiras fantasias baseadas no desejo e, pior, tudo isso já vem imbutido de uma velada censura que bloqueia tudo o que não combina com o quadro que queremos enxergar.

Esta atitude é claramente visível nas relações sentimentais, pelo menos para quem olha de fora. A escolha de uma pessoa está imbuída por motivos e sonhos de vária natureza. A cegueira nasce as fantasias são mais fortes do que os próprios sentimentos. São muitos os casamentos baseados em fantasias. Por que? Porque uma fantasia é um prato cheio de satisfações, preenche um vazio grande pois apresenta um quadro completo de elementos. Quando fantasiamos nós visualizamos como que um filme, uma história com começo, meio e fim. Isso nos alivia, dá um sentido ao que vivemos e ainda por cima agradável. Por que precisamos de um sentido? Porque tudo na vida se faz suportável, decente, viável se estiver alinhavado dentro de uma história. Uma história é um conjunto de elementos interligados de forma lógica e sensata. Nós humanos precisamos de histórias para encontrar nosso lugar e um lugar para nossas dificuldades e sofrimentos. Por este motivo a fantasia vence sobre a realidade, inclusive a sentimental. Quando ainda por cima estamos precisando de gratificação a fantasia ganha domínio absoluto!

Agora, a intuição fala de realidades. Pode ser uma realidade presente ou um desenvolvimento futuro – mas fala do real. E este real nem sempre é o que queremos enxergar. Por este motivo para ter intuições precisamos segurar o ego e suas vontades. Diferentemente da fantasia, a intuição não tem dono e não responde a donos.

A intuição capta acontecimentos não visíveis “a olho nu” ou seja pelo pensamento corriqueiro do cotidiano. Para conseguir enxergá-los é preciso ter o horizonte livre dos desejos do ego, seja eles a favor ou contra. A intuição é um fenômeno livre. Da mesma forma que um raciocínio lógico não pode ser dobrado conforme interesses pessoais, assim a intuição precisa de ar puro para operar.

Quando não temos clareza do que de fato sentimos, se torna complicado distinguir fantasias de intuição. Com mais frequência do que se imagina, há pessoas que percebem algo por entre as névoas, mas evitam focar. Têm  medo. Ao nos cegarmos intencionalmente, é claro que afastamos futuras intuições. Enfim, quando a intuição é usada no trabalho (desde cartomantes a psicólogos) é preciso prestar ainda mais atenção ao nosso ego, pois não só a personalidade de cada profissional como seus interesses profissionais podem atrapalhar o caminho. Para se ter boas intenções é preciso se desprender dos resultados (dinheiro, poder, medo, etc.).

Quem já teve uma intuição deve ter notado que ela chega num momento de “distração”. Na fronteira entre o que é e o que ainda não existe, no espaço livre das pegajosas exigências do ego, lá a intuição pode viver.
Concluindo: a fantasia é a representação de um desejo pessoal; a intuição a ‘foto’ não-racional de uma realidade que precisa ser decifrada para que seja útil para a nossa vida.

Adriana Tanese Nogueira
Psicanalista
adrianatnogueira@uol.com.br

10/02/15

PAIS E MÃES PÉSSIMOS


Convenhamos: há pais e mães ruins. Ninguém gostaria de tê-los, pouquíssimos adimitem tê-los, mas é a realidade. O fato de gerar uma criatura não nos torna automaticamente pessoas melhores. É preciso lembrar que pais e mães são pessoas, exatamente como seu vizinho, seu colega de trabalho e seu inimigo. Pessoas.

É do ser humano a tendência a evoluir, a individuar-se e conscientizar-se. Mas é também do humano uma certa “preguiça” para encarar todo esse “trabalho”. Evoluir custa esforço, significa às vezes quebrar a cara, questionar-se, arriscar-se, sentir-se inseguro... É das pessoas menos conscientes evitarem o “desconforto” que o auto-conhecimento gera e fugir do “exame de consciência” indispensável para evoluir. Além disso e infelizmente, é também das pessoas se aproveitarem dos lugares de poder de que gozam: quanto menos são vistas mais o ladinho malandro, egoísta e mesquinho predomina. Menos consciência = mais malandragem, é uma regra infalível.

É fácil encantar-se com um bebê. Ele é pequeno e fofo, e sorri como um anjo. Mas ele também berra e dá muito trabalho. Uma mãe pode se apaixonar pelo bebê-boneca e encontrar nisso uma fonte de sentido para a vida, pelo menos momentaneamente. Entre os homens, muitos são ainda os que não conseguem se vincular a uma criança tão pequena e sentem, inclusive, ciúmes da atenção que ela exige da mãe. 

Então,a fase bebê passa e essas crianças revelam-se pessoas, novas pessoas com as quais é preciso aprender a lidar. Como todas as relações, esta também demanda dedicação, atenção, tempo, disponibilidade e questionamento. Por isso, quantas vezes não é mais fácil mandar calar a boca? Dar um brinquedo? Ignorar? Manipular a conversa, inventar desculpas, desconversar? 

Não existem pais e mães perfeitos, mas existem pais e mães ruins. São aquelas pessoas que não são capazes ou não querem se abrir, se envolver, se dedicar. Não sabem amar. São pessoas que se perderam em seus próprios labirintos e não tiveram a capacidade de olhar para o outro, seu filho.

Sabem de uma coisa? Paciência. Já era, já passou. Tem como superar isso, uma boa terapia resolve. É preciso libertar-se da mística da maternidade e da paternidade. Há pessoas na vida que nos fazem melhor do que nossos próprios pais. E amém.

Ao invés disso, há mães e pais que inventam mil e uma artimanha para esconder a falha escancarada do outro genitor e “proteger” os filhos da verdade. Para quê? Quem ganha com isso? Sinceramente, quantas pessoas cada um conhece que passa décadas tentando se libertar de algum trauma ou complexo relacionado ao pai ou à mãe? 

Vivemos no sentimentalismo mítico e totalmente inverídico do pai e da mãe como se fossem o Papai e a Mamãe do Céu: perfeitos, bonzinhos e generosos. Mentira. Se é verdade que pai e mãe representam algo maiores do que eles (os arquétipos do Pai e da Mãe presentes na psique e que têm importante funções), logo temos mais uma razão para não tentar identificar à força um ideal com a pessoa concreta: desta forma, fechamos o caminho para encontrar os modelos interiores positivos. O resultado é que as relações pais-filhos muitas vezes são as mais neuróticas e doloridas que uma pessoa tem na vida, e acabam sendo reproduzidas no seio de sua própria família. Novamente escondendo e escondendo-se da verdade.

Qualquer animal pode ser pai e mãe, é do corpo, não precisa de intenção nem de consciência. Outra coisa, e muito mais complicada, é ser mãe e pai de verdade, adultos responsáveis. Para isso é preciso ter a matéria prima: pessoas dispostas a crescer, se trabalhar e mudar. Pessoas disponíveis à consciência.


Adriana Tanese Nogueira, Psicanalista, filósofa, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto. adrianatnogueira@uol.com.br