14/12/14

CASAMENTO E (IN)DEPENDÊNCIA FEMININA


As relações sexuais na Grécia Antiga estavam inseridas num contexto de dominação (e será que isso terminou de fato, hoje?). Independentemente do parceiro ser homem ou mulher, quem penetra é o dominador, quem é penetrado é o dominado, o “feminino”. Condiz ao homem adulto e respeitado a condição de dominador, literalmente, de “quem está por cima”. Consequentemente, ceder aos encantos de Afrodite e da paixão sexual que ela evoca tem, como necessária consequência, assumir um lugar social na distribuição de poderes.

Entrentanto, se no caso de um jovem a posição de dominado pertence a um período curto de sua vida, ou seja até ele alcançar a idade adulta, para as mulheres esta é sua realidade “por natureza”. O homem, representante da razão, moderação e racionalidade, há de dominar a mulher, identificada com a natureza selvagem.

Prova dessa realidade é que uma das traduções para “esposa” é damar, que significa literalmente “mulher dominada, amansada”.  A idéia é que a jovem que casa (geralmente em seus 14 anos) é domesticada pelo marido, inserida nos limites do lar e lá permanence (mulheres não saem de casa) pelo resto de sua vida. É como domesticar um animal selvagem.

Não surpreende que este quadro não tenha sido e não seja agradável para muitas mulheres, no passado como no presente. Ártemis é a deusa que representa a rebeldia contra este sistema, o “não” contra a autoridade masculina absoluta. Como deusa das selvas, Ártemis é alérgica a qualquer forma de limitação, sobretudo aquela que a insere numa relação de domínio.

É interessante observar que após três mil anos esta situação ainda não mudou radicalmente, ou talvez, ainda não se extinguiu. As aparências enganam, a “harmonia” também. Frequentemente, o que mantém as coisas “no lugar” é a docilidade feminina, que às vezes é física (ela faz tudo com ele ou só aquilo que ele aprova), emocional (ela acompanha os humores dele, “ajeita” a situação, se acomoda às necessidades emocionais dele) e intelectual (ela se alinha ao pensamento dele). Fora isso, há naturalmente os cuidados da casa e dos filhos que recaem sobre os ombros dela como responsável número um. Será que vale exumar a deusa e criar um templo para Ártemis? Sua presença é ainda necessária.



Adriana Tanese Nogueira, Psicanalista, filósofa, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto. www.adrianatanesenogueira.org

A "MULHERZINHA" QUE TEM MEDO DE NÃO SER AMADA

Viviane M.*

Penso em Ártemis e em sua conexão com a natureza, os ciclos vitais, a simplicidade, força e vigor. Ártemis está naquilo que é necessário, daí sua dureza e determinação, colocando sua vida e sua sobrevivência em primeiro plano.

Ártemis ajudou-me a ver a necessidade que tenho de defender meu espaço vital. E me fez ver como ele está
invadido constantemente. Ainda não consegui ligar esta dificuldade ao meu corpo “físico”. Sinto que há uma questão psicológica envolvida: amar e ser amada, qual é a imagem que os outros tem de mim, e a culpa que sinto quando sou “egoísta”.

Percebo-me esta “mulherzinha” que tem medo de não ser amada, que tem que ser boa, paciente, generosa, sacrificar-se. Vejo-e nesta mulher submissa não consegue brigar, que tem medo de grito e de se machucar. O corpo também muitas vezes parece frágil.

Sou pequena, magra e leve. Gosto de ser assim. Sinto-me ágil, flexível, sedutora quando me interessa. E atualmente um pouco mais em paz com os seios “macios”, a flacidez entre as pernas, os olhos que amanhecem inchados e com olheiras. Ainda tenho olhos bonitos, poucas rugas, e aparento menos idade.

Gosto muito de fazer coisas com as mãos e creio que tenho algumas habilidades. Faço mil coisas o dia todo e me canso muito.

A leitura do texto Barbie me deixou preocupadíssima. Passei a observar também os desenhos na televisão e em todos as mulheres são apresentadas assim. O pior é que atualmente as meninas são representadas como heroínas que lutam, voam e têm poderes, mas também são magras, de unhas pintadas e sapatos altos. Ficamos apenas com o lado mais superficial e esteriotipado do feminino e incorporamos o masculino, ma também na sua dimensão mais superficial.

Sinto-me muito entristecida em pensar que sabemos de tudo isto e não conseguimos evitar que nossas filhas sejam vítimas deste massacre. Outra coisa que gostaria que discutíssemos é a posição dos homens e o quanto eles também estão reificados em seus corpos sarados. Vejo muitos jovens de hoje que, talvez em uma atitude de resistência, passam o dia alienados na frente da TV e jogando vídeo games. Será que talvez estejam encontrando uma maneira de serem homens, um lugar para si? Gostaria de publicizar esta discussão e de FAZER ALGO A RESPEITO.

* Ex aluna do curso A Tenda Vermelha