20/09/16

SABER AGUENTAR O TRANCO

Há várias maneiras de ser fortes. Se tivessem que representar a força muitos imaginariam um homem musculoso, alterofilista dedicado. Um cara assim poderia derrubar uma parede, quebrar obstáculos, avançar intrépido... É o que em psicanálise se chama de atitude fálica. Fálico é o sujeito que atua, fala, toma iniciativa, age, intervém. Atitude muitas vezes necessária, mas nem sempre. Quando se ficar só nela a pessa se torna chata, obsessiva, impositiva e dominadora.

Ainda por cima, esta força pode ser inútil em várias situações da vida. para começar, o poder de ação pode não ter nada a ver com a força moral. Ter músculos não quer dizer ser fortes por dentro, e deste tipo de força é o que mais precisamos.

A prova de força é quando é preciso aguentar o tranco. O poder que é exigido nesse momento não vem do físico, mas do poder interior do qual o falo é mero canal. Sacou? Ter verdadeira força é ter bolas. O que se manifesta em conseguir aguentar a tensão. Essa, que vou chamar de força moral, é o verdadeiro suporte para toda ação de sucesso.

Precisamos desse tipo de poder interior quando há uma tensão que é preciso aguentar, sujo resultado final depende de nossa capacidade de suportar, não como bois mudos que levam a carga, e sim como pessoas atentas que não se deixam anestesiar. É indispensável permanecer alertas e vivos, pois pode haver a qualquer momento uma brecha, uma chance das coisas mudarem e é preciso colher as oportunidades na hora. Aqui está a grande diferença entre o tipo que aguenta a barra, mas acaba adormecendo sua sensibilidade a fim de sobreviver e tomando medicamentos e drogas para levar a vida, e aquele que de fato tem aquela força moral para suportar a situação enquanto a transforma. Deixar-se estupidificar pelo estresse da vida não é a solução.

É do forte tirar as conclusões inevitáveis e aceitar as consequências, reconhecer a cruz e viver com ela, ou jogá-la fora e mudar de rumo. É da pessoa que sabe aguentar o tranco fazer o que é preciso mesmo que não é o que desejaria fazer. E, às vezes, não é falando e agindo que se mostra força, mas justamante o contrário, calando e continuando a andar, custe o que custar e dóa a quem doer (inclusive a nós mesmos). É essa uma das mais nobres qualidades do Masculino Positivo.

Aguentar o tranco é uma forma de ser um guerreiro da luz. Essa postura é indispensável quando, por exemplo, se está rompendo uma relação que dá trabalho, produz escândalos e sofrimento. Ou simplesmente dor. Mas a consciência do que é justo é maior do que o “coitadinho de mim, ou dele, ou dela”. É preciso dessa força moral quando se denunciam situações nocivas a si próprios e a outrem e se sofre represalia por causa disso, ou quando se é chantageados por tomar caminhos diferentes dos que os outros esperam de nós.

Enfim, é absolutamente indispensável saber aguentar o tranco quando se aposta em si mesmos.


Adriana Tanese Nogueira

Terapeuta Transpessoal, Psicanalista, Life Coach, Educadora Perinatal, Parenting Consultant, Mentor, Terapeuta Floral, Autora. Atendimento adulto, criança, casal e adolescente, individual e de grupo – Presencial, Skype, por telefone, Facebook. Boca Raton, FL +15613055321.  www.adrianatanesenogueira.org e www.atnhumanize.com

12/09/16

EDUCAR NO SEU SENTIDO ORIGINAL E MAIS BONITO

O método de ensino Montessori leva a sério o sentido da palavra EDUCAR. Verbo que vem do latim EDUCERE, composto pela partícula “e” significando “da, de, fora” e do verbo “ducare, ducere” para “conduzir, trazer para fora o que está dentro”. Assim, “educar” significa ajudar, com disciplina apropriada a por para atuar e desenvolver as boas inclinações do espírito e as potencialidades da mente. A educação então serve para apreender, expressar e desenvolver qualidades e competências (ainda) não expressas.

Para Maria Montessori (1870-1952) então educar não é um episódio da vida, um momento no espaço e tempo, mas uma forma de se relacionar com a criança para orientá-la na muitas expressões que a vida requer. Nada a ver com mera “transmissão de cultura” (ou de regras!), mas com uma atenção e consideração pelo indivíduo, um olhar sensível e ajuizado sobre o outro no intuito de, levando em consideração sua realidade subjetiva, sua fase de desenvolvimento bio-psico-social e seu contexto, ajudá-lo a encontrar suas respostas para os desafios que a vida lhe oferece. Respostas estas responsáveis. Responsabilidade é uma maravilhosa e difícil palavra que significa: saber dar resposta apropriadas. Não toda ótima resposta é apropriada. Uma “resposta apropriada” significa saber discernir o que cabe, o que funciona, o que irá melhor expressar a solução que condiz com o real.

Quem não conhece o sabor da satisfação de ter dominado um desafio? Quem não conhece aquele sentimento íntimo de orgulho por ter conseguido?  Conseguido o quê, não importa. Para cada um um desafio é um desafio. Saber valorizar o individual e este aprendizado interno, este processo de auto-afirmação diante das dificuldades que a vida (ou melhor, nossa ignorância) coloca traz auto-estima, auto-confiança e positividade. Como dizia Montessori, “Um dos testes que define se o processo educacional está correto é a felicidade da criança.”

Quantas crianças hoje são felizes nas escolas?

Vejo crianças que são consideradas e se consideram “felizes” porque estão numa roda-viva de “diversão”, ou seja de distrações, de muitas atividades, de muitos amigos, de muitos estímulos – o que basicamente serve para “passar o tempo”, para ocupá-las (e desocupar os pais).  Funciona para tirá-las de dentro de si, afastá-las do que realmente sentem e precisam, e para oferecer a todos a ilusão de que “está tudo bem”. Mas não está. E a prova é que quando chega o momento de de fato aprender alguma coisa e de demonstrar o aprendizado (as boas maneiras, o respeito, a atenção), elas “não conseguem ficar paradas ou quietas”.

Por que será?

Elas não foram educadas, falta-lhes a experiência do que é estar consigo quebrando a cabeça em cima de um desafio, aprendendo consigo próprias – graças ao amparo do adulto preparado – a resolver problemas, o que significa a aprender, a descobrir as respostas apropriadas para cada situação. São crianças que não têm autonomia, que não foram instrumentalizadas a interagir de forma competente com o real, pois viveram num mundo de fantasia.

O método de ensino Montessori é uma luz nas trevas do ensino tradicional. Luz acolhedora, apaziguadora, criativa, centradora, promotora de crianças equilibradas, responsáveis, atentas, focadas, em paz consigo... Enfim, de bem.

Crianças de bem porque “se possuem”, aprendem a lidar consigo e com a realidade. As aulas Montessori abrangem todas as atividades da vida, desde lavar os pratos a aprender ciência, porque não só de mente (e video-games) somos feitos! Será um acaso que um método tão com os pés no chão, que promove a capacidade da criança de dominar o real para que ela possa como um ser total atingir metas elevadas, tenha sido criado por uma mulher?


Adriana Tanese Nogueira
Terapeuta Transpessoal, Psicanalista, Life Coach, Educadora Perinatal, Parenting Consultant, Mentor, Terapeuta Floral, Autora. Atendimento adulto, criança, casal e adolescente, individual e de grupo – Presencial, Skype, por telefone, Facebook. Boca Raton, FL +15613055321.  www.adrianatanesenogueira.org e www.atnhumanize.com

CRIANÇAS MIMADAS E PAIS HISTÉRICOS...

Esta reflexão está inspirada num trecho do livro “Vamos acabar com isso!” (“Facciamola finita!”, 2011) do pediatra e professor italiano Paolo Sarti, consultor da Região da Toscana para a educação e capacitador das professoras das creches públicas da cidade de Firenze.

Segundo ele, as próprias crianças com sua inquietação, nervosismo incontrolável, sono perturbado, falta de apetite ou gula histérica clamam por uma mudança radical na abordagem de seus pais.

Temos hoje crianças que crescem com uma raiva e arrogância relacional injustificadas e insustentáveis, capazes de desmoronar por causa de um insucesso escolar ou, o oposto, histericamente agressivas, desafiadoras e ameaçadoras, gesticulando exageradamente mesmo quando festejam um sucesso esportivo, geralmente obtido com tenácia obsessiva, muitas vezes sem regras ou respeito.

Tudo sem regras, limites e imposições, conforme uma pedagogia permissiva e liberal: tudo combinado, avaliado e decidido por elas, e a elas subordinado. Tudo define-se e estrutura-se à medida da criança, uma medida necessariamente estreita e miope sem a organização madura e a perspectiva do adulto. Um mundo-criança mimado, carregado de individualismo e de barulhento protagonismo exibido. Um mundo estático, todo baseado no hoje, onde ao adulto é concedido somente o lugar de espectador e, naturalmente, de servidor.

Vamos acabar com esta absurda e fracassasda pedagogia do mimo e do excesso de justificativas, que visa preservar a criança de todo esforço, empenho, luta ou frustração. Conseguimos fazer de nossos filhos crianças não somente incapazes, mas também insuportáveis e antipáticas.

Por outro lado, temos pais aniquilados numa pseudo-democracia decisória que vê as crianças decidirem por eles, crianças obrigadas a assumirem responsabilidades que seriam e deveriam ser do adulto. Nessa falsa democracia, descarregamos sobre as criança obrigações que são nossas, de adultos com conhecimento e visão. E o fazemos não porque respeitamos a criança mas porque temos medo de não saber sustentar a reação dela se a contrariarmos.

E é assim que são as crianças tomam decisões, que porém só sabem tomar com base no oportunismo e no presente (porque é assim que funciona o pensamento infantil). Portanto, inevitavelmente paguerão no futuro por aquilo que não lhes foi possível prever hoje. “Quer ir na vovó?”, “Quer esta roupinha?”, “Quer ir para a cama?” Pobres crianças, esmagadas pela carga decisória!

Os pais se tornaram tão frágeis e emotivos até serem incapazes de darem regras, de estabelecer com autoridade limites que permitam à criança se orientar na vida: tudo é logo, garantido, gratis, obsesssivamente simplificado.
Vamos acabar com essa história de não ser pais. Temos hoje uma geração de crianças em crise.

Ter abandonado seu papel educacional não tornou os pais mais livres e descansados, muito pelo contrário! Com frequência, hoje além de termos crianças estressadas e disobedientes, temos pais sempre mais histéticos, exaustos, arrependidos de ter tido filhos. Insatisfeitos e atormentados têm como objetivo fazer o tempo passar o mais rapidamente possível para que chegue logo o momento em que a criança terá superado sua “criancice” e terá chegado finalmente à fase adulta, acasalada e com um bom trabalho.

Mas o que acontece são filhos que, apesar de crescidos, prolongam o tempo da dependência, não se sentindo nunca prontos para abandonar seu status de filho, e continuam assim a se apoiar nos pais além de qualquer limite histórico conhecido.

Por seu lado, os pais assumem uma atitude dissociada: se quando os filhos eram pequenos desejavam que eles crescessem rapidamente (evitando administrar as difíceis e complexas questões relacionais daquelas fases), quando crescidos, fazem tudo para mantê-los ligados, vinculando-os com relações confortáveis, fáceis e superficiais nas quais estes são sempre “as crianças”, adultos que não cresceram, eternamente crianças, todos o papai e (sobretudo) a mamãe!

Adriana Tanese Nogueira
Terapeuta Transpessoal, Psicanalista, Life Coach, Educadora Perinatal, Parenting Consultant, Mentor, Terapeuta Floral, Autora. Atendimento adulto, criança, casal e adolescente, individual e de grupo – Presencial, Skype, por telefone, Facebook. Boca Raton, FL +15613055321.  www.adrianatanesenogueira.org e www.atnhumanize.com