22/08/2017

ESSE AVIÃO NÃO VAI CAIR OU: SAIR DA ZONA DE CONFORTO

Você tem um trabalho sem graça, paga bem, mas não é o que você quer para sua vida, não tem nada a ver com você. Você não se identifica com aquilo que faz, nem com seu estilo de vida. Você devotou seus melhores anos para a família, afinal alguém tinha que segurar as pontas e uma mãe precisa de seu filho tanto quanto este precisa dela. Maternidade é vínculo de duas mãos, poderoso. Você trabalhou mesmo quando seu filho era pequeno demais para estar longe de você, isso lhe deixou profundas marcas. Você passou por depressão, é natural. Pós-parto é hormônios também, a fêmea em você queria exercer seu papel, você não a ouviu e ela emudeceu mas infeccionou. Seu marido é bacana, mas não enxerga o tamanho de seu sacrifício – mas será que você o enxerga?
Você acorda um dia e se dá conta de que a realidade mudou à sua volta e de forma irreparável. Não está ruim, mas não está bom. Você é do tipo de pessoa que precisa ter um motivo para deixar uma situação em busca de outra, não lhe basta simplesmente abraçar e assumir a sua verdade interior, que grita que aquilo não serve para você. Você precisa de razões externas porque não dá valor suficiente à sua voz interior, à necessidade íntima, intrínseca de seu ser que precisa evoluir.
Evoluir é florescer. É um risco, ninguém sabe a priori em que flor se tornará. Evoluir é entregar-se ao chamado interior. Nascemos para aprender, para crescer, nos desenvolver. Ficar na mesma situação por mais tempo do que necessário (para sua evolução) é o mesmo que ficar presos numa jaula. A depressão se faz inevitável e mesmo que você a cubra com mil e uma atividades (mesmo culturais), ela está lá. O agito serve justamente para se distrair do mal-estar que de dentro clama para ser ouvido.
Ouvir dói, mas ouvir liberta. É uma dor que, como a do parto, começa e termina, é saudável, não patológica. É a dor que prenuncia um novo nascimento: o seu. Entrega-se e acredite que este avião não vai cair. E não irá cair pelo simples fato de que é levado por um vento que vem das entranhas do universo, do âmago do ser que está há milhões de anos em seu gigantesco processo de desenvolvimento, que é um desabrochar e um conhecer-se a si mesmo. Você é parte dele. O ser só se conhece e evolui se você lhe der essa chance ao aceitar e abraçar e arcar com sua própria evolução.
Não se trata de ser uma “pessoa melhor”, se trata de ser uma “pessoa maior”. Maior em consciência, visão, coragem, perspectiva e conhecimento. Maior.
Passo-a-passo para o salto:
- Quando disser “sim” para qualquer um que seja, pergunte-se se é isso mesmo que quer dizer;
- Quando tiver vontade de dizer não, observe a tensão que emerge, a ansiedade, o sentimento de culpa. Aguente, não faça nada só observe;
- Quando conseguir dar seu não, observe as consequências dentro de você e continue, porém, fazendo o que queria fazer;
- Repita esse movimento até se tornar mais “normal” e você se tornar mais forte conseguindo sustentar a tensão;
- Dê seu voto de confiança ao que deseja fazer que vem lá do profundo de si: qual é o primeiro passo concreto?
- Seja honesto consigo próprio: cuidado com a auto-sabotagem. O lobo perde o pêlo mas não o vício, o que significa que sair da antiga zona de conforto é um processo que será testado muitas vezes.
- Respire fundo e continue adiante.

Adriana Tanese Nogueira

Psicanalista, filósofa, life coach, terapeuta transpessoal, inteprete de sonhos, terapeuta Florais de Bach, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto, do Instituto de ensino à distância Ser e Saber Consciente e do ConsciousnessBoca em Boca Raton, FL-USA. +1-561-3055321 www.adrianatanesenogueira.org

13/08/2017

A SÍNDROME DO INGRATO RANCOROSO. POR QUE FAZER O BEM NEM SEMPRE COMPENSA

Ajudar alguém é natural, já aconteceu a todos de oferecer o ombro para quem precisava desabafar ou de contribuir para resolver problemas grandes ou pequenos. Estas ações haveriam de ser a base das relações humanas. Ajudar por simples empatia, simpatia e generosidade. Fazer o bem é bom, infelizmente, porém, nem sempre o bem provoca uma reação positiva.

Acontece, mais frequentemente do que gostaríamos, que a pessoa que recebeu ajuda desenvolva em si um profundo rancor. Obviamente, esse sentimento permanece inconsciente, ninguém gosta de sentir isso, convenientemente se finge. Mas suas consequências se mostram à luz do dia.

O rancor diante do bom recebido nasce da inveja (ver meu post Fenomenologia da Inveja), não da inveja entendida como admiração para com alguém considerado superior, mas aquela chula, de quem anseia por ter o que o outro tem, e por meios sombrios visa tirar do outro.

O recebedor do bem tem consciência de ter recebido, mas não consegue ser agradecido pelo simples motivo que ele não sustenta o peso da dívida de reconhecimento para com o benfeitor que, portanto, passa a afastar. Eis o ingrato rancoroso. Além disso, para dar suporte à sua armação fantasiosa, inventa histórias com o intuito de caluniar e difamar seu benfeitor.

Esta é a “sindrome rancorosa do beneficiado” que pode se apresentar em quatro formatos, todos desagradáveis e envenenados.

1) O beneficiado vingativo. Assim que você lhe faz um favor, ele se volta contra você como se você fosse seu pior inimigo. Não somente você será eliminado de sua lista de amizades, como ele envolverá mais amigos em comum possível para torná-los cientes do fato ocorrido (contado do jeito dele, claro), criando alianças para diminuir o que você fez. As frases típicas do vingativo são: "Não lhe pedi nada!’’; "Se ele queria me fazer pesar era melhor que não fizesse nada.”

2) O beneficiado oportunista. Este irá ficar em cima de você até não obter tudo, mas realmente tudo, o que você tem a dar. Normalmente, nas primeiras fases demonstrará uma certa gratidão, que irá, porém, diminuindo virar a situação sobre o benfeitor ao contrário: ele vai fazer com que você ache que não está fazendo o suficiente. Esta é uma situação comum entre parceiros. Sua ingratidão consiste em fazer você se sentir culpado.

3) O beneficiado espertalhão. Este vai fazer com que você lhe faça favores  (inclusive grandes) como se nada fosse. Se, por exemplo, ele lhe pedir para lhe prestar $ 5,000.00, o fará com extrema tranquilidade e leveza: "Vai, o que são $ 5,000...". O beneficiado espertalhão é normalmente um grande manipulador. A sua ingratidão consiste em lhe diminuir. No final, você vai acreditar que $ 5,000 são realmente poucos e que você é sortudo em poder ajudar.

4) O beneficiado apaixonado. Esta é uma esfera delicada. O beneficiado apaixonado é um mendigo, mas de sentimentos. Ele precisa da sua aprovação e de suas atenções 24h por dia, sem pausa. Raramente saberá devolver, mas não espere muito: a sua ingratidão se manifesta na frustração que ele criará em você por nunca poderá preencher todo seu vazio, suas carências.

O que fazer diante de um ingrato desses? Uma vez que já fizemos o favor, se tiver sido uma experiência boa para nós, no sentido que aprendemos algo, que nossa alma está mais leve, fiquemos de bem conosco e esqueçamos o recebedor. Entretanto, precisamos também aprender uma lição de olho na responsabilidade que todos tempos na construção de um mundo melhor. Da próxima vez, agucemos a vista e os neurônios para saber quem merece a nossa ajuda, ou seja, quem vai devolver se não a nós, ao universo, o bem recebido.
   

Adriana Tanese Nogueira
Psicanalista, filósofa, life coach, terapeuta transpessoal, inteprete de sonhos, terapeuta Florais de Bach, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto, do Instituto de ensino à distância Ser e Saber Consciente e do ConsciousnessBoca em Boca Raton, FL-USA. +1-561-3055321 www.adrianatanesenogueira.org

06/08/2017

FILHO, PATRÃO E CONSUMIDOR

A sociedade atual encarna uma cultura ainda fortemente marcada por traços patriarcais e machistas que infelizmente muitos homens assumem como próprios, projetando assim longas sombras doentias sobre seus casamentos.

No âmago dessa cultura, a mulher é vista essencialmente em três papeis: ela ou é mãe, ou é doméstica, ou é puta. Como mãe, ela acalenta, acolhe, está sempre disponível, dá atenção, é paciente e tolerante. Como doméstica, ela cuida de roupa, comida, bagunça; ela organiza e arruma. Como puta, ela está pronta para o sexo toda vez que ele desejar. Três papeis numa pessoa só. E de graça.

A tristeza dessa realidade é dupla. Por um lado, estrangula a mulher em papeis limitantes que anulam sua subjetividade: o que ela quer, sente, pensa? Quem quer saber? Quem a escuta? Ela é de fato mera apêndice, lua que é visível porque iluminada pelo seu sol, sem real autonomia e independência. Por outro, esses tipos de relação inibem o próprio desenvolvimento masculino porque para o homem significa que ele se posiciona diante de uma mulher somente na qualidade de filho, patrão e consumidor. Como filho ele é o filhinho da mamãe, que, porque é amado (e tem dinheiro), espera ser atendido, servido e obedecido (a mulher nunca deve estar cansada ou ter coisas mais importantes). Como patrão, ele se sente como o latifundiário que pegou a nega escrava na casa grande e, tendo-a salvo da rua, espera dela gratidão e servidão. Como consumidor, ele quer ser satisfeito nos termos e nos tempos que mais lhe agradam.

Na realidade atual dos casais encontramos uma gradação desses traços que vai do mais leve ao mais pesado. A cada geração há mais homens mutantes, mas ainda estamos mergulhados no sistema patriarcal. De fato, quanto mais poder social e econômico o homem tiver, o que geralmente se relaciona também ao poder de sua personalidade, mais ele estará identificado com o sistema (que lhe dá o poder) e mais próximo estará do modelo acima.

O homem filho desse sistema não sabe, portanto, o que é uma relação com uma mulher porque ele sequer sabe o que é uma mulher. Para isso, ele teria que valorizar o feminino independentemente de sua satisfação egoística.

Para valorizar o feminino, ele teria que tirar um pouco de valor de tudo aquilo ao qual dedicou sua vida: status e dinheiro. Significaria descer do pedestal e reconhecer algo difícil para qualquer um que tenha se dedicado só ao trabalho e ao poder (dinheiro e status): ou seja, que a vida é vazia sem relações, sem intimidade, sem companheirismo. Significaria reconhecer que filhos precisam de presença, tempo e atenção, que não basta dar dinheiro. Significaria aceitar que as emoções não se administram na base de álcool, carro, sexo e amigos. Haveria de ter a humildade de reconhecer que é preciso cuidar do corpo, dos afetos, dos outros, da terra, dos animais ou seja, que é preciso ouvir o coração e arcar com as consequências porque quando se ouve o coração se sente a dor que nele está. Esta é a dor da alma que calou sua verdade. Verdade que emerge quando se olha nos olhos quem se ama de verdade. O que leva a desnudar-se diante do outro este outro que é diferente, complementar e transgressivo: a Mulher. É transgressivo um homem se abrir de alma para uma mulher, para o outro, para o diferente, porque quando essa abertura ocorre de verdade ele descobre o Outro dentro de si, e então nunca mais será o mesmo.


Adriana Tanese Nogueira
Psicanalista, filósofa, life coach, terapeuta transpessoal, ínteprete de sonhos, terapeuta Florais de Bach, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto, do Instituto de ensino à distância Ser e Saber Consciente e do ConsciousnessBoca em Boca Raton, FL-USA. +1-561-3055321 www.adrianatanesenogueira.org