07/02/16

BIANCA, A BEBÊ QUE NÃO ANDAVA

Bianca estava com tem sete meses e havia a pouco começado a ficar sentada sozinha. Aos oitos ela ainda não engatinhava. A mãe observava, um pouco preocupada, mas muita coisa estava acontecendo e, vendo Bianca alegre, considerou que tudo estava bem. Cada bebê com o seu tempo.

Um dia comprou um daqueles tapetes coloridos feito de peças para montar, como um quebracabeça, com os números e as letras do alfabeto. O armou na sala, na frente do sofá, e lá colocou a pequena Bianca, sentada com um pote de brinquedos coloridos para explorar. Enquanto fazia as atividades domésticas, mantinha um olho na filha. Bianca ficou entretida por um bom tempo, ocupou-se, divertiu-se, e observava a mãe – sem nunca sair dos limites do tapete.

A mãe de Bianca olhava sorrindo mas também um pouco perplexa. Deixou o tempo passar. Cada criança precisa ser olhada como uma peça única da humanidade e não comparada a ninguém mais, nem mesmo a si próprias, pois a mãe de Bianca havia começado a andar aos nove meses...

Bianca só foi andar com um ano e quatro meses, andar sozinha, de verdade, completamente autônoma. Sua mãe teve de exercer verdadeiro controle sobre sua própria ansiedade, mantendo as expectativas o mais longe possível da filha que tinha o sagrado direito de seguir seus rítmos internos.

Como explicar a grande diferença entre mãe e filha? Se olharmos somente para Bianca, as más línguas podem dizer: bebê preguiçosa ou fraca... No lugar dessa visão miope e reducionista, vamos ser mais fieis à realidade e ampliar o foco de visão.

Cada bebê tem sua personalidade que se mostra desde o início de sua vida. Mas esta personalidade vai expressar certas características ou não na relação com o ambiente. E por ambiente entendendo desde a vida intrauterina até o ambiente físico no qual um indivíduo nasce.

Dentro da barriga da mãe, Bianca presenciou às agressões do pai contra a mãe, ou seja, contra ela, pois nesse momento mãe-e-feto são uma coisa só. O pai de Bianca é alcoólatra, o que significa que ele está sujeito a ter ataques de agressividade e a estimular conflitos e brigas de forma periódica e constante, sem precisar de nenhum real motivo. Assim funciona com todo dependente de drogas. A mãe de Bianca nunca se submeteu aos atentados do marido mas o clima de tensão e de possíveis atritos tornaram a vida muito complicada e o estado emocional dela sempre no alerta. O nascimento de Bianca foi um dos poucos momentos de harmonia do casal, mas o depois voltou à condição de campo minado. Logo, o ambiente no qual Bianca nasceu não era seguro.

O que faz uma criatura viva diante de um ambiente inseguro? Foge se possível, mas se não for possível, para. É cautelosa e observa para entender o que é que está acontecendo. Somente quando tiver dados suficientes que permitam a segurança, ela se mexe. Num terreno minado precisa pelo menos ter uma intuição de para qual lado ir para evitar o pior, certo?

Tudo diferente do que viveu a mãe de Bianca que nasceu de um casal tranquilo e pacífico, sem brigas, sem conflitos e num lugar muito sossegado. Nada ameaçava sua paz. Logo, ela pôde se lançar mais cedo na exploração do mundo.

Bianca só foi andar solta e autônoma após seis meses que sua mãe se separou de seu pai, após se estabilizarem num lugar tranquilo na proximidade de poucas mas seguras companhias. Inclusive, o ambiente físico também mudou, da cidade caótica, barulhenta e poluída, foram para o interior, uma chácara verde com borboletas, gatos, cachorros, flores e passarinhos.


Adriana Tanese Nogueira


Terapeuta Transpessoal, Psicanalista, Life Coach, Educadora Perinatal, Terapeuta Floral, Autora. Atendimento adulto, criança, casal e adolescente – Presencial, Skype, por telefone e por escrito. Boca Raton, FL +15613055321. www.adrianatanesenogueira.org

03/02/16

A LIÇÃO DA BOA EDUCAÇÃO

Somos todos educadores. Tudo que nós fazemos a cada dia é, querendo ou não, uma forma de educação. E infelizmente “educação” não quer dizer necessariamente educação para o bem, para o conhecimento, para os valores (do bem), para o melhor, para o conhecimento. É ingênuo pensar que educar seja simplesmente a conversinha sobre o certo e o errado que se faz aos filhos à noite antes de ir dormir, ou a aulinha de matemática e os deveres de casa de história.

Educar é TUDO o que fazemos, absolutamente tudo. A forma como nos portamos pelas ruas, como dirigimos, como conversamos com os vizinhos, os assuntos sobre escolhemos conversar, as pessoas que valorizamos, as regras que seguimos e aquelas que não seguimos... O que deixamos passar, o que elogiamos, o que criticamos, o que acatamos e o que rejeitamos, onde gastamos nosso dinheiro e tempo e o onde evitamos gastar nosso dinheiro e tempo. Observe onde gasta seu tempo e dinheiro e... saberá quem é, seus verdadeiros valores e interesses.

E com “valores” não quero dizer: o valor da amizade, da justiça, da ética.... Há o “valor” do oportunismo, da mentira, da preguiça, do conformismo, do comodismo. Valor, infelizmente, não equivale necessariamente a coisa boa. Valor é o que “vale”... para uma determinada pessoa e num determinado contexto social. Portanto, podemos educar para a estupidez, o medo, a ignorância, a violência, a omissão...

O pai que agrede o filho o está educando para a violência e para a insensibilidade.  O pai ausente está ensinando a rejeição. A mãe omissa está ensinando a omissão e com ela a mentira e a hipocrisia. O amigo traidor está educando para a desconfiança. O vizinho ladro também. A polícia violenta e abusiva para a injustiça. O governo corrupto para a impotência assim como os pais violentos e impunes. O sorriso gratuito educa para a gentileza. O gesto sincero para a ternura. O amor pelo conhecimento para o conhecimento e assim vai.

Nos cabe tomar consciência do que fazemos e assumir nossas escolhas. Intencionalmente ou não, todos exercemos um papel no ambiente no qual vivemos, todos somos educadores e oferecemos exemplo. Portanto, a pergunta que temos que nos colocar é: que ambiente queremos cirar e promover?

Isso começa na família. Relacionamentos não são fáceis. Outra gigantesca ingenuidade é achar que ter um relacionamento romântico é para nos fazer sentir bem, relaxados, felizes. Isso também, mas não só: relacionamentos dão trabalho. Todos eles, com o/a parceiro/a e com os filhos. Logo precisamos ter consciência e escolher os “sim” que damos e os “não” que utilizamos. O fato de você não topar ver certos programas na televisão é educação. Tomara que você esteja excluindo programas que fomentam a violência gratuita e a sexualidade barata. Mas, e se for o contrário?

Uma mulher que permite que seu marido a agrida o está educando para a impunidade e a si mesma para a submissão. Uma mãe que permite que o pai de seus filhos os agrida o está educando para a violência e está educando os filhos para uma normalidade abnormal, e para o medo e a infelicidade.

Mudar a realidade começa tomando consciência do poder das nossas ações, gestos, olhares, sims e nãos. Se você não gosta de uma forma de relação não se deixe encaixotar. Agora, claro, requer trabalho! O trabalho de mudar o próprio comportamento e sustentar a tensão que irá produzir. Educar conscientemente para o bem é empenhativo e é por isso que poucas pessoas o assumem, preferem seguir inconscientes, sem perceber que assim fazendo fortalecem a própria realidade da qual depois reclamam.

Adriana Tanese Nogueira

Terapeuta Transpessoal, Psicanalista, Life Coach, Educadora Perinatal, Terapeuta Floral, Autora. Atendimento adulto, criança, casal e adolescente – Presencial, Skype, por telefone e por escrito. Boca Raton, FL +15613055321. www.adrianatanesenogueira.org


25/01/16

SOFIA, A MENINA QUE QUERIA SAIR DE CASA

Sofia é uma menina de quatro anos, a filha mais velha de três, as outras duas são gêmeas de um ano e pouco. Sofia tem uma mãe muito paciente e amável, que teve as filhas de cesáreas por complicações que eram mais da ordem da desinformação e insegurança sua do que fisiológica. Hoje ela trabalha em função da humanização do aprto, do empoderamento da mulher, da promoção do aleitamento materno e de todas essas coisas bonitas.

Entretanto, a mãe de Sofia está casada com homem que está com dificuldades para se adaptar ao papel de homem adulto e de pai. Ele chega do trabalho nervoso e desconta sobre Sofia suas frustrações. Em particular, ele parecer querer retirar de Sofia o que para ele são “privilégios”, e que numa análise mais aprofundada vemos que se trata da vida alegre de criança tratada bem e amada por sua mãe. O pai de Sofia então é tão crítico e mal-humorado com a filha porque está, por trás das desculpas esfarrapadas, com ciúmes dela.

O pai que Sofia não é mau, mas é filho único de uma mãe que o considerou até a idade adulta como preciosidade, e ele estava costumado a ser bem tratado pela esposa, a qual é tão disponível e boa com as filhas quanto com o marido. Entretanto, com a chegada das meninas a administração dos afetos na casa precisou ser modificada e o novo equilíbrio desconcentrou o pai de Sofia. Ele parece espernear por não ser mais o “filho predileto”, o centro das atenções da esposa, e de se encontrar, ao invéz, no lugar de pai provedor, educador, paciente, generoso e cuidador.

Mas Sofia não sabe de nada disso, e não cabe a ela compreender o pai. Uma criança de quatro anos não tem essa obrigação. Cabe aos adultos a obrigação de compreender a criança e de se adaptar às necessidades dela. Portanto diante desse homem “grande” que vive colocando-a para baixo e espizinhando-a, Sofia um dia desses chega para mãe e diz: “Mãe, eu quero ir embora desta casa.” Em sua sabedoria, Sofia percebe que não tem perspectiva dela ser feliz e de crescer bem num ambiente como aquele. Sentindo-se ameaçada, lhe parece que a única solução é sair de casa.

Sofia está rejeitando o bulling do pai. Sua reação demonstra que ela é uma criança totalmente saudável, com sentidos em perfeito funcionamento, com boa autoestima e amor próprio e conhecimento do certo e do errado. Sofia merece nosso respeito. Damos os nossos parabéns a ela e a sua mãe, porque certamente sua mãe contribuiu para que Sofia preservasse sua saúde psicológica.

Mas tem um elemento não saudável na casa, o pai. O que fazer com ele?

É comum as crianças perceberem os limites do ambiente no qual “cairam de paraquedas”. Infelizmente, porém, não podem tomar as atitudes que seguiriam à sua clara percepção. Sofia não pode ir embora de casa. Nenhuma criança pode jogar sua mochilinha nas costas e dar tchau aos pais. Ela depende deles – ainda.


Crianças precisam de pelo menos um adulto responsável que assuma o lado delas, enxergando sua sabedoria e se dispondo a ajudá-las. Não é culpa de Sofia se ela tem somente quatro anos e se ela é uma menina feliz, inteligente e sensível. Cabe, neste caso, à mãe da Sofia tomar as providências e... proteger a filha da imaturidade emocional do marido ao mesmo tempo em que o educa para que ele se torne um homem adulto e responsável. Isso também é ser mãe. Isso é maternidade ativa. Isso é crescermos juntos.


Adriana Tanese Nogueira

Terapeuta Transpessoal, Psicanalista, Life Coach, Educadora Perinatal, Terapeuta Floral, Autora. Atendimento adulto, criança, casal e adolescente – Presencial, Skype, por telefone e por escrito. Boca Raton, FL +15613055321. www.adrianatanesenogueira.org