04/12/16

A MENINA COM RAIVA DA MÃE

Laura tem 5 anos, é a filha mais velha de Julia, e tem uma irmã mais nova, Sara, de 3 anos. Julia me procura porque Laura tem ataques de raiva, grita com a mãe, tenta bater nela e demonstra o que parece ser uma grande atitude de desprezo com a mãe. Mas não é sempre assim, Laura tem também momentos ótimos com a mãe, que é uma mulher jovem dedicada à família. Julia se preocupa em criar para as duas filhas o ambiente familiar saudável e organizado. É responsável e atenta às necessidades das meninas. Seu marido trabalha muito para dar à família um nível de vida bom, ele está já no topo de sua carreira e engajado em manter-se ativo e prosperar. Julia não entende o que está acontecendo com a filha, percebe nitidamente que ela está sofrendo. E procura ajuda.

O que será que acontece com Laura?

Quando se for tratar de problemas de criança é injusto e cruel crucificá-las como problemáticas sem atentar para a realidade familiar que hão de viver (pois uma criança não pode sair de casa certo?). Não só a realidade básica da família (nível de vida, se há violência doméstica e essas coisas) como também para o ambiente psicológico inconsciente no qual a criança está inserida. Não é só que se vê que importa mas também o que não se vê e pertence ao mundo dos conteúdos psíquicos inconscientes.

Os filhos mais velhos – no caso, as filhas mais velhas – vivem uma realidade especial com suas mães: vivem em simbiose. E isso é o normal. Na primeira infância, o estado simbiótico garante que “um não possa viver sem o outro”, e sobretudo que a mãe não possa viver sem seu filho, o que, do ponto de vista biológico é indispensável pela sobrevivência da espécie. Bebês sem mães morrem. “Mãe” é um ser indispensável, não precisa ser biológica, precisa ser “mãe”.

Mães, porém são também pessoas com sua história de vida. O nascimento e cuidado de um bebê traz à tona muitas outras coisas além do  famoso “amor incondicional”. Uma mulher que tem disponibilidade para acessar esses outros conteúdos que emergem com a maternidade tem a oportunidade de simplificar enormemente a relação com a criança, no sentido de torná-la mais fácil, suave e “fluida”. É claro que ela deve estar disposta a enfrentar questões dentro dela que não são fáceis. Entretanto, o resultado é gratificante. O contrário é aquele sentimento de frustração e impotência que vira no tempo uma bola de neve pois mais o filho cresce mais a problemática, visível ou invisivelmente, se desenvolve.

Inúmeras vezes, os filhos somatizam os problemas dos, sobretudo os da mãe. Certamente, eles têm também sua própria personalidade mas esta está “poluída” pelas questões não assumidas e não trabalhadas da mãe (e do pai nos anos seguintes). As crianças agem como campainhas de alarme. Não têm consciência do que estão fazendo, simplesmente sentem e sofrem de uma certa maneira. Gritam a dor e choram as lágrimas que não são necessariamente delas.

Assim que suas mães assumem para si o que lhes cabe, as crianças abandonam o comportamento problemático. E toda vez que suas mãee voltarem a esconder algo de si mesmas (mesmo sem querer or perceber), as crianças voltam a ter um comportamento negativo. As primeiras filhas, em particular, são como as guardiãs de suas mães: diante delas suas mães não podem se esconder. A mãe pode usar isso como trampolim para seu crescimento como mulher ou se sentir ameaçada e fazer da filha “o problema” da casa.

Julia, por sorte, escolheu o caminho melhor e tanto ela como Laura estão agora muito mais felizes.


Adriana Tanese Nogueira

Terapeuta Transpessoal, Psicanalista, Life Coach, Educadora Perinatal, Parenting Consultant, Mentor, Terapeuta Floral, Autora. Atendimento adulto, criança, casal e adolescente, individual e de grupo – Presencial, Skype, por telefone, Facebook. Boca Raton, FL +15613055321.  www.adrianatanesenogueira.org.

28/11/16

AMOR IN PROGRESS

Vejo casais em busca de si mesmos: temerosos de estragar uma amizade ao começar a relação que, entretanto, está já evidente entre eles. Vejos maridos traindo suas mulheres ciberneticamente por tédio e por vazio existencial, não por falta de amor por elas. Vejo homens deixando as mulheres que amam profundamente por não aguentarem o desafio e preferirem se envolver em relações mornas e superficiais. Vejo casais se separando após 30 anos de casamento porque afinal não havia intimidade mas o “tem que ser”. Vejo mulheres histéricas deixando seus homens loucos e estes baixando a cabeça e aguentando... nem eles sabem por quê. Vejo mulheres encontrando o homem perfeito e convencerem-se na marra que não o amam.

(De Khalil Gibran, Sobre o Amor)

Mas, se no vosso medo,
buscais apenas a paz do amor,
o prazer do amor,
então mais vale cobrir a nudez
e sair do campo do amor,
a caminho do mundo sem estações,
onde podereis rir,
mas nunca todos os vossos risos,
e chorar,
mas nunca todas as vossas lágrimas.

Amar é difícil. Conectar-se ao outro é um desafio. Uma relação é um projeto, não um dado que se conquista uma vez por toda e pronto. É cuidar do jardim, dia após dia. Vincular-se é assumir o fardo, transformá-lo juntos, vencer juntos.

Quando o amor vos fizer sinal, segui-o;
ainda que os seus caminhos sejam duros e difíceis.
E quando as suas asas vos envolverem, entregai-vos;
ainda que a espada escondida na sua plumagem
vos possa ferir.

Amar é o oposto do que aparece nos comerciais: não é um produto que vai te fazer feliz, é um processo que pode te dar muitos momentos de felicidades na medida em que você está disposto a se engajar em um work in progress que vai durar a vida toda, e que começa por e com você.

E quando vos falar, acreditai nele;
apesar de a sua voz
poder quebrar os vossos sonhos
como o vento norte ao sacudir os jardins.

Porque assim como o vosso amor
vos engrandece, também deve crucificar-vos
E assim como se eleva à vossa altura
e acaricia os ramos mais frágeis
que tremem ao sol,
também penetrará até às raízes
sacudindo o seu apego à terra.

Como braçadas de trigo vos leva.
Malha-vos até ficardes nus.
Passa-vos pelo crivo
para vos livrar do joio.
Mói-vos até à brancura.
Amassa-vos até ficardes maleáveis.

A saúde de um casamento se mede pela saúde individual dos dois, ao quadrado. Quanto mais resolvido internamente cada um está, melhor será o resultado: ou seja, mais cumplicidade, intimidade, paz, harmonia e alegria. Quando um ou ambos se recusam a serem transformados pela relação – ou seja, pelo amor – o resultado é negativo, ao quadrado.

Então entrega-vos ao seu fogo,
para poderdes ser
o pão sagrado no festim de Deus.

Transmutação e revelação, revirar-se como uma luva, do avesso – ou, talvez, para o lado certo? Sempre, em todas as relações estamos em processo de aprendizado e auto-descoberta, em primeiro lugar. Abraçar o processo permitirá que a relação se desenvolva, tanto para terminar logo, se assim for o caso, como para desabrochar se este for seu desígnio.

Tudo isto vos fará o amor,
para poderdes conhecer os segredos
do vosso coração,
e por este conhecimento vos tornardes
o coração da Vida.

Aceitar nosso sentimento é sempre um ato de humildade. Humildade do ego e sua “razão”, que precisam aceitar que o “coração tem razões que a razão não compreende.” (Blaise Pascal)

E não penseis
que podeis guiar o curso do amor;
porque o amor, se vos escolher,
marcará ele o vosso curso.


Adriana Tanese Nogueira


Terapeuta Transpessoal, Psicanalista, Life Coach, Educadora Perinatal, Parenting Consultant, Mentor, Terapeuta Floral, Autora. Atendimento adulto, criança, casal e adolescente, individual e de grupo – Presencial, Skype, por telefone, Facebook. Boca Raton, FL +15613055321.  www.adrianatanesenogueira.org.

21/11/16

O QUE É SER UMA CRIANÇA SAUDÁVEL?

Para responder a esta pergunta, observemos as crianças. Elas nascem e sabemos que estão bem porque além de respirar, se mexem. Uma criança saudável se mexe. Ela também chora, o que é naquele momento de sua vida – o nascimento e a primeiríssima infância – a expressão de suas necessidades. Uma criança saudável, portanto, se expressa – se expressa com os meios que tem à disposição: choro, sons, riso, balbuciar, falar. Uma criança saudável não fica parada e também não se retira num canto mas ao contrário se manifesta porque ela quer existir, quer viver, experimentar, sentir

Uma criança saudável é expansiva. Sua necessidade de expansão é um corolário do estar viva. A vida é expansão e quem nasce precisa experimentar o mundo, explorá-lo, conhecê-lo... se quiser viver nele. Uma criança saudável é, portanto, uma criança curiosa e interessada. Ela segue uma necessidade interior de conhecer, inata em todas as espécies, mamíferas e não, e indispensável para a sobrevivência. Toda criança saudável quer conhecer o mundo e o faz da sua maneira, privilegia determinados aspectos em detrimento de outros porque uma criança tem sua personalidade única.

Uma criança saudável é espontânea. Ela segue os movimentos interiores de sua alma e de seu corpo, não é afetada e não calcula o que faz para obter determinado efeito sobre o adulto, ao contrário é simples e direta. É sincera. E alegre. A espontaneidade é sempre um componente essencial do estado de alegria. Espontaneidade é um estado em sintonia com as necessidades vitais de uma pessoa. É o contrário de forçar a barra e de se obrigar a seguir um ritmo que não nos respeita e nos machuca.

Infelizmente, poucas crianças podem hoje crescer de uma maneira saudável. Assim como os adultos, elas são assoberbadas de compromissos e de informação, estímulos demais que não têm tempo físico nem espaço emocional para elaborar, digerir e integrar. São obrigadas a fazer escolhas que transcendem sua capacidade de discernimento, não recebem liderança dos pais e acreditam ter mais poder daquele que sabem e podem administrar. Uma criança saudável deveria poder explorar o pedaço de mundo que o adulto responsável lhe reserva, não demais não de menos. Deveria poder sentir-se segura para se concentrar em seu mundo – um mundo diferente do dos adultos. Como se diz, crianças são feita de sonhos, não vamos-lhes tirar essa realidade cedo demais.

Uma criança saudável brinca. Inventa brincadeiras, usa sua imaginação – que é abundante! Tem espaço e condições na casa para brincar e é respeitada nesse seu momento, sem a interferência e o julgamento de adultos. E ela respeita o espaço e o tempo dos adultos, porque ela tem os seus. Uma criança respeitada, respeita.

Uma criança saudável brinca ao ar livre e gosta! Se ela não estiver gostando é porque já se viciou em estar em ambientes fechados com um eletrônico nas mãos e o corpo inerte. Como qualquer bichinho, uma criança saudável gosta de natureza, sol, grama, árvores, estrelas, lua e água.

Nossa sociedade racional, logocêntrica, cerebro-cêntrica, rápida, controlada e estafada esqueceu-se de nossa dimensão instintual, espontânea, solta, livre, alegre. Nosso corpo está preso em comportamentos pré-estabelecidos, cadeiras e carteiras, espaços constritivos. Nosso corpo não respira, literamente os poros do corpo sufocam em ambientes poluídos. Nossas emoções se amontoam no peito e nos impedem a leveza do ser. Para poder sobreviver nesse mundo e torná-lo um lugar melhor, uma criança precisa ser preservada dele durante pelo menos seus primeiros sete anos de vida. Estará então vitaminada, por assim dizer, forte emocionalmente, rica interiormente, centrada e criativa. Aí sim, que o mundo se prepare. Lá chega um mutante feliz.

Adriana Tanese Nogueira

Terapeuta Transpessoal, Psicanalista, Life Coach, Educadora Perinatal, Parenting Consultant, Mentor, Terapeuta Floral, Autora. Atendimento adulto, criança, casal e adolescente, individual e de grupo – Presencial, Skype, por telefone, Facebook. Boca Raton, FL +15613055321.  www.adrianatanesenogueira.org.

06/11/16

OS FILHOS DE PAIS QUE BEBEM DEMAIS

É fácil apontar o dedo para as drogas, porque logo se pensam nas que são ilícitas. Mas e o que dizer de uma droga perigosíssima que tem o uso legalizado? O álcool. A droga mais comum, mais usada, a que causa mais mortes no trânsito, a que é promovida por outdoors e comerciais na TV.

O alcoolismo é uma doença séria que engloba aspectos físicos, emocionais, cognitivos e espirituais. Não só, o alcoolismo é uma doença super contagiosa, sobre a qual a omissão coletiva é quase total. Cabe a cada um de nós tomar consciência da brutalidade do alcoolismo e pararmos de ser cúmplices de seu uso indiscriminado.

Na Finlândia uma organização sem fins lucrativos que combate o alcoolismo criou uma campanha impactante. Eles conseguiram chamar a atenção para o problema com um vídeo que pode ser visto no YouTube e que se chama “Fragile Childhood – Monsters” (https://www.youtube.com/watch?v=XwdUXS94yNk).

O alcoolismo marca a vida das crianças para sempre. Ter um pai ou uma mãe alcoólatra (ou ambos!) acarreta consequências terríveis que esses mesmos pais evitam enxergar porque a dor da culpa seria insuportável. E essa fuga da própria responsabilidade só promove o próprio alcoolismo. Bebe-se para esquecer, para não pensar, para amenizar a vida.

E o que significa para uma criança? Significa que ela é órfã todas as vezes em que seus pais estão sob o efeito do álcool. Não só órfa como também em perigo. E quando seus pais não estão alterados, mesmo assim ela não pode estar tranquila porque um alcoólico não é “normal” nunca. O vídeo acima ilustra muito bem essa realidade. Não são necessárias as palavras, basta as expressões perplexas, assustadas, confusas, das crianças.

É preciso se colocar no lugar delas. Nascem e não sabem o que é alcoolismo. Só sabem que seus pais são, de vez em quando ou frequentemente, estranhos e assustadores. Mesmo quando um pai quer se mostrar “calmo” para o filho, sua energia, seus gestos, seu jeito, é esquisito, é altamente perturbado e pertubador.

Uma criança sabe o que é isso, não entende. Por isso fica confusa. Sente o amor dos pais e os ama muito. Mas... como funciona esse “amor”? É normal ter medo de quem se ama? A mesma pessoa que sabemos nos ama nos faz também sentir apavorados e em perigo, berra, fala coisas horrendas, quebra objetos e agride nossa mãe (se o pai for o alcoólatra da família).

Os filhos crescem confusos e tristes. Estão amarrados a um sentimento de culpa que não compreendem e sua autoestima é esmagada. A culpa é um dos traços mais comuns dos co-dependentes, que são os que convivem com os alcoólicos. Culpa por existir, culpa por ter sentimentos contraditórios pela figura dos pais, culpa por querer sumir e ter outra vida em outro lugar. Culpa por não conseguir aguentar... Culpa que bloqueia os movimentos e atrasa suas vidas.

Essas crianças acabam ou por se afastar de casa ou por assumir a responsabilidade por “resolver”, ajudar, cuidar, curar seus pais. Protegê-los de si próprios. Pegam sobre si um fardo gigantesco. Missão impossível, pois não podemos ajudar quem não quer ser ajudado. E enquanto isso, sua vida passa. Enquanto isso são sugadas para dentro do abismo do alcoolismo que é feito de medo, dúvida, insegurança, ceticismo, solidão, fraqueza, tristeza...

O que fazer? O que parece mais difícil: cuidar de si em primeiro lugar. Reconhecer o problema mas salvar-se sendo mais fortes da derrota que o alcoolismo semeia em volta. Estudando mais, trabalhando mais, sendo mais honestos, mais alegres, mais fortes, mais confiantes. Sem culpa e sem culpar. Ser um sol no meio da noite escura.

Adriana Tanese Nogueira

Terapeuta Transpessoal, Psicanalista, Life Coach, Educadora Perinatal, Parenting Consultant, Mentor, Terapeuta Floral, Autora. Atendimento adulto, criança, casal e adolescente, individual e de grupo – Presencial, Skype, por telefone, Facebook. Boca Raton, FL +15613055321.  www.adrianatanesenogueira.org.