18/05/15

MAGNÍFICA E TERRÍVEL ADOLESCÊNCIA

Adriana Tanese Nogueira

Nascer de novo, desta vez já grandes e, na verdade, grandes demais, com corpos que extrapolam a coordenação que por anos conseguiu-se conquistar. Pernas longas demais, braços remando pelo espaço, cabeças cheias de idéias, conhecimentos precoces, dúvidas, excitação, insegurança, perguntas sem respostas e respostas sem perguntas. Gigantescos pontos de interrogação pairam no ar. E o coração transbordando incompreensível quantidade de revolta, amor, ódio, medo, timidez, raiva, ansia e impulso. Vontade de viver, fazer, ser, chegar lá. Um "lá" que não se sabe bem onde fica...

A adolescência é um dos tempos mais delicados e complicados da vida humana. Por baixo da superfície despreocupada daquela criança crescida há galaxias sendo formadas e destruídas, vulcões arrotando paixões e altos pensamentos filosóficos sobrevoando o mundo desconhecido. Perguntas existenciais jamais verbalizadas e desejos infantis dos quais se tem vergonha ou orgulho.

Nesses anos alquímicos que substituem o tempo docemente irresponsável da infância muitas coisas ocorrem e estas vão se arrastando ou evoluindo, até chegar aos pés daquela montanha que representa o início da idade adulta. A adolescência é a preparação para a escalada. É nesse momento que os pais, que já tiveram muita paciência, precisam ter mais. Mais flexibilidade, mais inteligência, mais disposição e mais auto-crítica. Há de se fazer acrobacias mentais e sentimentais com filhos adolescentes para compreendê-los e acompanhá-los, para não empacar confusos diante daquela nova pessoa, lastimando a perda da linda criancinha (que não dava todos esses problemas. Onde ela foi parar?).

Adolescentes são pérolas humanas que podem se perder cedo demais, como aqueles os brotos que despontam no campo a qualquer aparição do sol, sem esperar pelo tempo certo da primavera, e se queimam e morrem. Os estímulos de um mundo conturbado e complexo invadem suas vidas e os adolescentes já vêm embebidos de valores globalizados que absorveram por anos na infância. Enquanto isso, seus pais estão muitas vezes ocupados e cansados demais para entender "o que é que está acontecendo". É na adolescência que o derralhamento do trem tem consequências de longo termo porque ao chegar aos pés daquela montanha que é o início da vida e responsabilidades adultas é preciso começar a subida com o pé certo para que lá na frente dê certo.

Tenho observado que quando há derralhamento entre os 15 e os, mais ou menos, 20 anos a confusão já reinava por muitos anos a fio, naquele começo da vida que haveria de servir para construir aquela personalidade e aquele espaço no mundo para o ser social e realizado que almejamos ser. E entra aqui outra função parental: além da paciência e flexibilidade há de se usar o punho de ferro, com amor, inteligência e pontualidade. Toda dureza há de ser pontual sem se arrastar no tempo e no sentimento. Ela é precisa e clara, nunca um "clima" de cobrança, ressentimento e insanidade. Dependendo da história e personalidade de cada um, pai ou mãe hão de segurar as rédeas com maior ou menor firmeza em um momento ou no outro (ou em vários!).


É importante não perder porém o sentido desse momento existencial, ele é também frágil. Adolescência é energia sutil e grosseira ao mesmo tempo, por isso deixa muitos pais desesperados. Entretanto, é preciso constantemente lembrar de que está ocorrendo uma metamorfose interior no adolescente e mesmo que ele pareça estar se divertindo e curtindo a vida, pais devem saber enxergar mais profundamente esse tempo complicado. Dele há de nascer um Homem e uma Mulher e é esta identidade que está sendo sofrida e deliciosamente gestada. Sejamos parteiras e parteiros.

11/05/15

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PSICANÁLISE REVOLUCIONÁRIA

Quando Freud descobriu uma nova forma de pensar os distúrbios nervosos estava abrindo uma estrada que levaria muito mais longe do que ele imaginava. O fato dele perceber que alguns problemas tinham raízes naquilo que uma pessoa havia reprimido (e esquecido), e que, trazendo à tona esses conteúdos, a pessoa se curava, levava a considerar a presença de um "outro" dentro da gente. Um "outro" que não se encaixa no "real" no qual está inserido e/ou não se conforma com este mesmo "real" - e é por isso reprimido, mas que deixa rastros: as consequências desagradáveis que o reprimido-não assumido produz.

A solução de Freud foi: vamos trazer à tona, isto é, trazer à consciência, tornar a pessoa consciente desses conteúdos e vamos dar a estes conteúdos um caminho de expressão, já que o propósito original supostamente não pode ser realizado. Nasce o conceito psicológico de sublimação: liberar conteúdos reprimidos gera energia que é então canalizada em realizações pessoais e social aceitáveis e satisfatórias do ponto de vista da moral estabelecida. A psicanálise se torna assim instrumento de civilização – a civilização do tempo dele, é importante frisar.

Jung vai além dessa visão. Ele percebe que o que é reprimido nem sempre é ter sexo com a mãe (complexo de Édipo) ou qualquer coisa que a moral reprove, mas engloba valores positivos que foram sufocados por conta das limitações do ambiente sócio-cultural no qual a pessoa cresceu, produzindo um profundo mal estar e o desarranjo das relações. Em meio ao material reprimido Jung descobre que existe um núcleo de originalidade da pessoa, um espaço fora do espaço-tempo em que o sujeito é plenamente si mesmo e que não conseguir expressar essa plenitude leva ao sofrimento psicológico. 

A questão é mais complicada do que parece. É importante compreender essa "originalidade" , pois nào se trata aqui de é uma variação individual dos valores coletivos; não é também "ser do contra", fumar maconha e viver no campo. É algo muito mais profundo do que isso. As necessidades do Ser interior (ou Self) não necessariamente são conhecidas pelo eu que pode estar enredado nos valores e limite de sua visão de mundo. Logo, a originalidade surge quando este mesmo eu se abrir para seu Ser interior e se tornar disponível a acolher suas demandas. O ego é, por definição, pequeno, o Self é, por definição, grande. O ego é miope porque está vinculado às suas necessidades imediatas, o Self vê muito mais longe e alcança muito mais longe. Daí, a necessidade do trabalho de autoconhecimento para que seja possível o que Jung chamou de "processo de individuação". Desta forma, a “civilização” de Freud é muito mais do que um processo de repressão necessária da animalidade humana, mas se abre para um processo humano criativo e inovador.

A psicanálise se torna, na psicologia junguiana, um instrumento de transformação individual e social, uma promotora da renovação cultural e um espaço aberto de conhecimento que se debruça sobre o amplo desconhecido da nossa psique e de seus segredos. 

Com Silvia Montefoschi, o questionamento do sistema se faz ainda mais marcado pois ela leva adiante esta perspectiva junguiana que nos coloca inevitavelmente diante de uma verdadeira revolução. Faz-se claro que individuar-se leva ao questionamento do status quo: que sejam os valores da família ou da sociedade ou os padrões internos de comportamento (complexos e arquétipos), todo desvincular-se deles é uma revoluçã: a quebra do dado, do antigo, do estabelecido, e a abertura para o novo. Nesse cenário, a criatividade é a condição de vida por excelência. No lugar da repetição irrefletida, ou seja inconsciente e insensata, de padrões comportamentais e de crenças, o normal do ser humano é tomar distância do dado, questionar, reinventar. 

A psicanálise mostra a gênese das revoluções sociais: a emancipação subjetiva do sistema. Tudo começa dentro da gente, a mundaça também. Nós trazemos imbutidos em nosso sistema mental (o "Sistema-Homem", como ela o chama) todos os dados que nos fazem recriar, repetir e reforçar o que precisa mudar e nos faz sofrer. Somente a jornada interior de autoconhecimento que permita abarcar a visão total do processo, sabendo reconhecer os efeitos universais das mudanças "minúsculas" de consciência e, vice-versa, permitindo perceber os padrões de pensamento culturais, sociais e históricos nas neuróses e "normalidades" diárias – somente esta perspectiva dá ao indivíduo uma estrada segura para o "além". Abre as portas da gaiola para o passarinho voar. Esta é ou deveria ser a psicanálise.

Montefoschi teoriza a psicanálise como legítima continuadora da filosofia e como "O Método" de conhecimento que rompe a divisão subjeito-objeto e faz do auto-conhecimento o único real instrumento de conhecimento de si e do real. Auto-conhecimento este que se inicia com nosso questionamento da forma de nos entender, entender ao mundo e lidar com o mesmo. Esta revolução como ocorre dentro do indivíduo atinge, voluntária ou involuntariamente, todos os seu redor. Logo, nós mudamos, sim, aos outros (apesar que não necessariamente na direção que gostaríamos). O verdadeiro distintivo do humano é a evolução da consciência. A humanidade só existe e sobreviveu na Terra graças aos repetidos saltos de consciência que deu desde os tempos mais remotos. Tudo o que ocorreu em nossa história bio-social é uma sequência de rupturas que permitiram novas aberturas, novos caminhos, novas revoluções.

As grandes revoluções científicas e filosóficas, que precedem aquelas culturais e sociais, existem em escala menor mas não menos importante em nossa vida diária. O sofrimento no qual tantos vivem é, em suma, o resultado do bloqueio de seu processo evolutivo devido medos e limitações - ou seja à formas de se entender e entender ao mundo - que prendem o indivíduo ao velho, ou que não serve mais. Limitações que são de caráter cognitivo, comportamental, afetivo e, acrecentaria eu hoje, espiritual. Toda vez que nosso Ser - maior do que nosso eu - não consegue ir adiante conforme sua natureza exige, eis que sofremos.

A psicanálise se estabelece assim como o framework que permite a libertação do Ser a partir do trabalho subjetivo de conscientização. Uma vez que o Ser está livre de seguir sua evolução estamos diante de um novo paradigma humano.


Adriana Tanese Nogueira, psicanalista, life coach, terapeuta transpessoal, educadora perinatal e autora.