Postagens

Mostrando postagens de Agosto, 2009

Doulas e sonhos de grandeza

Adriana Tanese Nogueira

Eventos recentes sobre os requistos para a formação de doulas exigem algumas reflexões. Parece que está circulando a crença de que para ser doula é preciso de curso superior. Segundo algumas fontes, a crença foi espalhada por algumas “entidades”, uma conhecidas outras vagas. Em seguida às reflexões abaixo, uma dessas “entidades” voltou atrás e deletou de seus pré-requisitos a exigência de diploma de curso superior. A reflexão, entretanto, continua válida, pois a desinformação é terreno fértil para todo tipo de fantasia.

É bom lembrar que a atividade da doula constitui uma nova profissão. Como tudo o que é novo, não há legislação sobre doulas, nem - que eu saiba - há previsão de haver legislação, ou projeto lei ou qualquer coisa do gênero. Ser doula é uma trabalho que uma pessoa exerce e que, inclusive, em teoria, pode ser realizado por qualquer um, desde o marido à amiga da parturiente ou à mãe da mesma.

Não existe também um currículo oficial, ou uma formação de …

Marx, a religião e a humanidade

Adriana Tanese Nogueira



A crítica da religião é, pois,
a crítica do vale de lágrimas de que a religião
é o esplendor.
Marx




Devo admitir que tive muita sorte. Quando estava iniciando a Faculdade de Filosofia na Università Statale de Milão (Itália), ingressei num curso introdutório ministrado por um professor de modos simples e honestos, o prof. Livio Sichirollo. Ele dava aula andando cima e para baixo, entre as carteiras. Conversando, ele trazia à tona os núcleos essenciais dos grandes sistemas filosóficos. Ele delineava os conceitos de uma forma tão clara e cativante que eu o ouvia literalmente de boca aberta.

Um dia ele me olhou e disse: “Senhorita, não me olhe com esses olhos!” (arregalados).

Era meu primeiro contato com a filosofia. Eu estava encantada. Deparava-me com um mundo belíssimo que ainda mal entendia, mas cuja grandiosidade pressentia.

Das aulas do professor Sichirollo, dois foram os pensadores que me marcaram: Hegel e Marx. Lembro a simplicidade com ele definiu uma das caracterí…

Intuição - O inexplicável no dia-a-dia

Adriana Tanese Nogueira

Fenomenologia da intuição

Ela chega de mansinho, inesperadamente. Como os animais selvagens, ela foge das falações e intrusões da mente. Quando você baixar a guarda, fazer silêncio e sair da lógica controladora, ela pode aparecer. Se não acontecer, não se cobre e não se culpe. Ela é livre. Talvez, você não tenha sido suficientemente instintiva para acolhê-la, suficientemente livre para recebê-la. Talvez, você só tenha feito de conta. Ela é verdadeira, e se você não a levar em consideração, ela se retrai, desaparecendo nas matas da psique sem deixar marcas. Ela não espera por você, é você quem deve estar pronto para colher o relâmpago de sua aparição. Se estiver distraído com as trivialidades do dia-a-dia, você não vai poder colher a sutileza de sua mensagem. Se estiver trancafiado na lógica da causa-efeito, vai se comportar como um tanque de guerra que esmaga as sutilezas da intuição pelo caminho. Se, enfim, suas preocupações são em manter tudo “tranquilo”, irá d…

Emoções

Imagem
Adriana Tanese Nogueira

Em nosso mundo cartesiano, feito em série e superficial, as emoções são buscadas e temidas ao mesmo tempo. Por um lado elas são como a eletricidade que corre pelo fio do nosso dia-a-dia, indispensável para fazê-lo funcionar; por outro, elas bagunçam nossa rotina, ameaçam nosso equilíbrio e muitas vezes contradizem nossas expectativas.

O paradigma cultural da modernidade educa cada pessoa que vem ao mundo para a dicotomia e a unilateralidade. Dicotomia quer dizer separação divergente de duas partes consideradas distintas e incompatíveis.

PEITO OU MAMADEIRA?

Adriana Tanese Nogueira

O outro dia levei minha filha ao Zoo Safari de West Palm Beach, FL (EUA). Era um belo dia de sol. Estávamos caminhando ao longo do lago quando uma visão infelizmente comum capturou meus olhos. Havia uma bebê, de cerca nove meses, em seu carrinho tomando uma mamadeira. Ao lado dela, olhando para o lado contrário, estava seu pai. Em sua mão direta ele segurava um enorme copo de refrigerante do qual bebia, o olhar absorvido no vazio. Sua mão esquerda segurava ausente a mamadeira na altura da boca de sua filha. Ambos estava deglutindo líquidos, fitando ninguém e nada em direções opostas.

Em um instante reconheci olhar da bebê tomando aquela mamadeira. Numa fração de segundo lembrei-me das longas mamadas de minha filha, que teve durante dois anos e meio meu peito à sua disposição. Aquele olhar me tocou. Ela não sabia, mas eu sim. Eu estava consciente de que aquela bebê estava só.

O grande lance acerca da amamentação é que não se trata somente de alimento perfeitamente…

Depressão feminina: a greve interna

Adriana Tanese Nogueira
Todo dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual..
Cotidiano
Chico Buarque/1971
E. deixou um dos países da América Central com o marido para vir aos EUA. Eles tinham uma filhinha que E. havia criado praticamente sozinha, uma vez que o marido vivia trabalhando em outro países. Durante alguns anos moraram com a família dele em New Jersey, no frio de um país estrangeiro, fazendo sacrifícios. Enquanto ele estudava para se

A Mesa Redonda da Reciprocidade

Adriana Tanese Nogueira

Estabelecer uma relação de reciprocidade é como sentar-se a uma mesa redonda. Todos estão no mesmo nível. Mesmo quem, no momento, tem a palavra, tem a razão ou tem algo a ensinar, está na mesma altura dos outros. Todos podem ver-se nos olhos. Todos são visíveis.
Na mesa redonda da reciprocidade não há quem fique de fora, ou de cima “observando”. Não há quem dá conselhos mas não se mostra, quem ensina mas não está visível. Não há diferenças de escalão.

No sistema patriarcal tradicional, os homens não se colocam no mesmo plano que as mulheres todas as vezes em que elas se abrem e eles não expressam o que sentem, não se mostram. Devemos compreender que, além do papel social dado, além das poses adquiridas culturalmente, além do que se quer exibir, há um ser que sente, quer, deseja, sofre, pensa, duvida, se pergunta. Este é o ser humano que há de ser mostrado numa relação de reciprocidade. Sem falsos orgulhos.

O mesmo desnível pode ser observado nas relações internas …