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Doulas e sonhos de grandeza

Adriana Tanese Nogueira

Eventos recentes sobre os requistos para a formação de doulas exigem algumas reflexões. Parece que está circulando a crença de que para ser doula é preciso de curso superior. Segundo algumas fontes, a crença foi espalhada por algumas “entidades”, uma conhecidas outras vagas. Em seguida às reflexões abaixo, uma dessas “entidades” voltou atrás e deletou de seus pré-requisitos a exigência de diploma de curso superior. A reflexão, entretanto, continua válida, pois a desinformação é terreno fértil para todo tipo de fantasia.

É bom lembrar que a atividade da doula constitui uma nova profissão. Como tudo o que é novo, não há legislação sobre doulas, nem - que eu saiba - há previsão de haver legislação, ou projeto lei ou qualquer coisa do gênero. Ser doula é uma trabalho que uma pessoa exerce e que, inclusive, em teoria, pode ser realizado por qualquer um, desde o marido à amiga da parturiente ou à mãe da mesma.

Não existe também um currículo oficial, ou uma formação de referência. Portanto, não há critérios ou pré-requisitos universais para se tornar doula. Cada formação tem a liberdade de definir seus critérios, eles valem da mesma forma que cada pessoa tem a liberdade de andar na rua vestido de vermelho, verde ou azul. Mas não pode exigir dos outros que façam o mesmo, ou não pode pretender que sua cor preferida seja norma universal.

Existem hoje no Brasil alguns cursos de capacitação de doulas. Não são muitos, são poucos.

Há os cursos oferecidos por hospitais públicos e/ou implementados originariamente pelo Ministério da Saúde, para a criação de um quadro de doulas voluntárias.

Os cursos que não são do Ministério da Saúde e não estão sendo oferecidos por hospitais são dados por grupos particulares ou da sociedade civil. Existem umas pouquíssimas ONGs que trabalham com isso, e com ONG quero dizer uma organização que possui estatuto legalizado em cartório. Além delas, existem grupos de pessoas que podem até chamar-se Associação Mundial das Doulas do Planeta Terra, mas precisa ver se têm registro em algum cartório do país Brasil. Caso contrário, é um simples grupo privado. Grupos privados têm toda a liberdade do mundo para fazer o que quiserem, mas nenhum direito de ditar as leis para a formação de doulas.

A diferença entre um curso e outro está:
1) No conteúdo ou programação
2) Nos formadores
3) Nos estilo
4) No conceito de doula que está na base do curso

Cabe à aspirante doula analisar os quatro fatores acima e decidir qual combina melhor com sua personalidade, visão do parto, valores e objetivos.

Infelizmente, existem oportunistas em todos os setores da sociedade, assim também no mundo da humanização. Um deles acordou uma bela manhã de primavera com um sonho de grandeza. Decidiu que, daquele dia em diante, só poderia fazer a capacitação de doula quem tivesse um curso superior.

O novo decreto lei for proclamado aos quatro ventos.

Por sua vez, as mulheres com curso superior que nutriam em seu peito o mesmo sonho de grandeza - quem sabe, ver-se retratada na capa da revista Pais&Filhos ou... até Caras! - partilharam imediatamente da decisão, e espalharam para outros quatro ventos a boa nova.

Que beleza. Temos restaurada a sociedade de classe em seio à humanização.
Agora, a doula voluntária foi deslocada para a casta inferior, e a doula paga ou seja a "profissional" subiu de categoria e pertence ao mundo iluminado dos “escolhidos”. Quem sabem, um dia vão inventar também um uniforme para a doula voluntária, um novo avental para exibir seu status.

Além disso, os sacrossantos princípios capitalistas também têm seu tapete vermelho extendido em meio à humanização, pois um curso para doula profissional vai ter que custar mais caro do que um para mera doula voluntária.

Não é formidável como vira e mexe, o lobo muda o pêlo mas não o vício?

E as ovelhinhas do rebanho baixam a cabeça e béééééé.... seguem.

O faroeste continua...

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