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Emoções

Adriana Tanese Nogueira


Em nosso mundo cartesiano, feito em série e superficial, as emoções são buscadas e temidas ao mesmo tempo. Por um lado elas são como a eletricidade que corre pelo fio do nosso dia-a-dia, indispensável para fazê-lo funcionar; por outro, elas bagunçam nossa rotina, ameaçam nosso equilíbrio e muitas vezes contradizem nossas expectativas.

O paradigma cultural da modernidade educa cada pessoa que vem ao mundo para a dicotomia e a unilateralidade. Dicotomia quer dizer separação divergente de duas partes consideradas distintas e incompatíveis.
Por exemplo, separamos a mente do corpo e a razão das emoções. Unilateralidade significa se ater somente a um aspecto só da realidade e de si próprios, por exemplo quando se desenvolve exclusivamente um ponto de vista ou uma tendência, quando se dá ênfase somente a um lado das coisas. Uma pessoa é unilateral quando omite e nega as demais dimensões que constituem sua realidade (externa e interna).

Viver mergulhados no paradigma da dicotomia e da unilateralidade leva ao treinamento para o controle das emoções. Algumas são contidas e soltas em determinadas ocasiões, outras são enterradas e esquecidas.

Mas o que são as emoções? Como movimentos interiores espontâneos, as emoções saltam para a percepção consciente de repente, sem que o se queira. Quando reprimidas, elas perdem sua mensagem instrínseca e provocam agitação aparentemente sem motivo. O problema é que a razão da inquietação se perdeu no processo de repressão da emoção. Prova disso é que numa investigação analítica é sempre possível encontrar a raíz do problema e reunir a manifestação emocional ao seu sentido original.

Para lidar com as emoções é preciso sair da visão racionalista unilateral da cultura moderna e se abrir para uma diferente forma de comunicação. Uma pessoa deve aprender a desenvolver o dialogo interior. Este processo não é fácil pois é preciso assumir o que se sente como dotado de sentido e estar dispostos a "ouvir" o que isso tudo tem a dizer. Sem essa troca não há dialogo.

O saber que trata desse aprendizado é a psicologia analítica criada por Carl Gustav Jung, psiquiatra e psicoterapeuta suiço (1875-1962), autor de muitas obras sobre o assunto e fonte de ulteriores desenvolvimentos neste campo da psicologia.

Um dos avanços proporcionados à humanidade pela perspectiva junguiana é a do dialogo entre consciência e inconsciente. A idéia do dialogo muda todas as cartas do jogo psiquiátrico e psicanalítico tradicional assim como de nossa cultura. O dialogo presupõe a paridade entre os interlocutores, portanto a reciprocidade no dar e receber.

Estes dois pontos por si só colocam em cheque mate o paradigma dicotômico unilateral. Na paridade e reciprocidade consideramos o nosso interlocutor em toda sua dignidade e inteireza. O respeitamos porque supomos que ele tenha coisas inteligentes a nos falar, merecendo nossa atenção. Estamos disponíveis a ouvi-lo, portanto a modificar nosso ponto de vista porque imaginamos que irá nos enriquecer com sua contribuição. Numa relação de reciprocidade não mudamos à força, mudamos por opção e de forma natural. Isto chama-se transformação, amadurecimento e evolução.

A conquista mais difícil para a consciência do ego em sua versão dicotômica e unilateral é abrir-se ao outro – verdadeiramente abrir-se. Muitas vezes, o que ocorre não é real disponibilidade interna, mas a invenção de subterfúgios e artimanhas que se chamam "racionalizações".

Esta se parecem com razões fundamentadas, lembram motivos compreensíveis e acessíveis ao senso comum. Parecem convincentes e esclarecedoras. Mas são fingimentos do ego com o objetivo de evitar o confronto com o que não quer ver. Sabemos que se trata de racionalizações porque este tipo de explicação não muda nada, o distúrbio que elas tentam resolver continua ativo.

A gestação constitui uma festa para as racionalizações, elas proliferam e se desenvolvem em quantidade, são temperadas pelas diferentes idiosincrasias de cada um e galopam alegres até o parto quando entram em conflagração com a dura realidade de uma contração real, de um medo que se pode tocar e de um bebê que existe em toda sua corporeidade e demanda.

Ocorre que durante a gravidez o limiar entre o mundo conhecido e aquele desconhecido se faz mais sutil. Nos estados entre o sono e a vigília, consciência e inconsciente se compenetram e se prestarmos atenção podemos estar nos dois ao mesmo tempo. A condição da gestação coloca a mulher próxima desta zona intermédia. Daí as emoções aflorarem com maior força.

E a consciência da grávida e das pessoas à sua volta o que faz geralmente? Racionaliza.

A gestação coloca a mulher numa passagem entre dois estágios de sua existência. A nova vida que se aproxima gera necessariamente medos e dúvida relativos ao desconhecido e à própria capacidade de lidar com ele. Traz também de volta questões que ficaram paradas no tempo, que foram colocadas de lado e (semi)intencionalmente evitadas.

Humanizamos a gestação quando saímos deste cubículo feito de espelhos e observamos cuidadosamente a paisagem maior, dispostos a arregaçar as mangas e darmo-nos ao trabalho de estabelecer um dialogo com o que se apresenta, seja ele animador ou desafiador. Mantermo-nos fechados só garante um desfecho de parto e uma maternidade complicados.

A consciência egocêntrica, dicotômica e unilateral parece não ter ainda percebido que há coisas fora de seu controle que interferem com suas deliberações. Esta cegueira nos condena a viver num mundo de fantasia onde os problemas só vão se amontoar ano após ano, geração após geração.

Emoções são os sons, os aromas e os ruídos ou gritos que do inconsciente chegam até nós. No inconsciente incluimos nosso corpo e suas reações, que não compreendemos bem. Se não afinarmos os ouvidos e não nos abrirmos ao dialogo, as emoções se tornam sintomas e estes produzem doenças, individuais e sociais.

O dialogo com as emoções se situa no dialogo maior com a realidade e as circunstâncias em que a vida de cada um está inserida. Há sinais emocionais que são reações a limites que o mundo impõe. Nos cabe discernir quando é hora de ousar, buscar e lutar para reverter a situação ,e quando se trata de aprender a aceitar e se aconchegar da melhor forma possível ao que temos à disposição. Há outros sinais que nascem de conteúdos que carregamos internamente e que precisam de nosso trabalho de introspecção antes mesmo de nos atirars para a realidade externa.

O novo paradigma humano no qual eu insiro a humanização do parto sabe dialogar e discernir, saindo da consciência fechada – mesmo que bem intencionada – e se abrindo para a subjetividade própria e alheia, compreendendo-a. Somente então a relação com o outro fora de nós se modifica.

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