21/08/2009

Intuição - O inexplicável no dia-a-dia

Adriana Tanese Nogueira


Fenomenologia da intuição

Ela chega de mansinho, inesperadamente. Como os animais selvagens, ela foge das falações e intrusões da mente. Quando você baixar a guarda, fazer silêncio e sair da lógica controladora, ela pode aparecer. Se não acontecer, não se cobre e não se culpe. Ela é livre. Talvez, você não tenha sido suficientemente instintiva para acolhê-la, suficientemente livre para recebê-la. Talvez, você só tenha feito de conta. Ela é verdadeira, e se você não a levar em consideração, ela se retrai, desaparecendo nas matas da psique sem deixar marcas. Ela não espera por você, é você quem deve estar pronto para colher o relâmpago de sua aparição. Se estiver distraído com as trivialidades do dia-a-dia, você não vai poder colher a sutileza de sua mensagem. Se estiver trancafiado na lógica da causa-efeito, vai se comportar como um tanque de guerra que esmaga as sutilezas da intuição pelo caminho. Se, enfim, suas preocupações são em manter tudo “tranquilo”, irá desprezar o sutil arrepio esclarecedor que uma intuição inesperada traz.

A intuição é um fenômeno que nos acontece, não podemos procurá-lo. É um acontencimento vinculado a um modo de perceber a realidade. Ela é um fato da psíque humana facilmente reconhecível na vida de todo mundo. Não é preciso recorrer à psicologia para perceber que a intuição é irracional, que perpassa os limites do immediato, e que pode pôr em cheque nossos valores ou expectativa, abrindo outros horizontes.


Psicologia e intuição

Entretanto, é importante reportar as elaborações do psicólogo que estudou o fenômeno da intuição relacionando-o com o conjunto da psique e seu modo de funcionamento.

Carl Gustav Jung, psiquiatra e psicoterapeuta suiço (1875-1961) apresenta em em “Tipos Psicológicos” (1921) uma tipologia psicológica dinâmica baseada em sua visão da psique como um todo. Da quaternidade de funções (o quatro é o número que representa a totalidade), a intuição é uma delas. Jung chegou às funções psicológicas pesquisando o porquê pensadores teorizaram sobre o mesmo assunto de formas tão diferentes. Coerente com sua abordagem dialética voltada para a inclusão de todos os elementos, ao invés de excluir alguns para promover outros, Jung chegou às funções psíquicas que originam os tipos psicológicos.

As funções são quatro, duas de caráter racional – Pensamento e Sentimento – e duas de natureza irracional – Sensação e Intuição. Racional aqui indica o que está vinculado a um julgamento e visa alcançar metas estabelecidas. É irracional o que simplemente acontece.

A Sensação é a função da percepção, isto é da relação com o mundo externo através dos cinco sentidos. Graças à sensação sabemos que no ambiente à nossa volta tem isto ou aquilo, está acontecendo tal fato ou aquele evento. Esta função é irracional porque não necessita de nenhum raciocínio, aliás, é preciso suspender o exame crítico e todo julgamento para ser receptivos às sensações.

Uma vez percebido o objeto ou o evento através da Sensação, entre em cena o Pensamento, que julga o fato ou a coisa seguindo um procedimento lógico, baseado em conceitos universais. Este é portanto uma função racional.

O Sentimento também avalia, mas para isso não usa idéias e conceitos e sim valores afetivos. Esta função é racional porque julga o sinal positivo ou negativo do laço afetivo que o Eu estabelece com os objetos (e pessoas) do mundo externo. É pelo Sentimento, por exemplo, que julgamos se uma pessoa é boa ou má, se pode ser amada ou odiada (cfr. MONTEFOSCHI: 1985).


Após o objeto ou o evento ter sido percebido e julgado no conceito e no valor afetivo, intervém a quarta função que prevê o desenvolvimento das relações nas quais está inserido o objeto sem que a realidade do momento forneça elementos suficientes para tal previsão. Esta função é a Intuição, que podemos caracterizar como um perceber o desenvolvimento de processos; ela é irracional porque não se expressa por meio de julgamentos e, também, simplesmente acontece.


Todas as funções podem ter duas orientações: a extrovertida, quando a energia vital da pessoa está vinculada ao mundo externo e se orienta conforme este; e a introvertida, quando o centro de referência da pessoa é sua dimensão interior e os processos internos, pondo portanto em segundo lugar a realidade externa.

O desenvolvimento de uma das funções racionais ou irracionais coloca a segunda em posição inferior (isto é, não desenvolvida) e tem, pelo menos, uma do outro grupo como auxiiar. Assim, se a pessoa tem a Intuição como função principal, terá a Sensação como inferior e o Pensamento ou Sentimento como auxiliar. As funções do mesmo grupo (racional ou irracional) são incompatíveis entre si. Não se pode ser intuitivos enxergando nas entrelinhas da realidade e ao memo tempo estar mergulhado nos sons, sabores e percepções dos cinco sentidos. Da mesma forma, não é possível julgar segundo a lógica e avaliar segundo valores afetivos (uma pessoa está errada mesmo se gostamos dela). Uma coisa pode ser boa para o sentimento e errada para o pensamento.

Jung chegou à elaboração de sua tipologia dinâmica após ter analizado as teorias e perspectivas de vida de diferentes personagens históricos. Ele conclui que se há

“profundas diferenças psicológicas que devem ser individuadas e levadas em consideração. A hipótese que exista somente uma psicologia ou um só princípio psicológico fundamental constitui uma intolerável tirania que deriva do preconceito pseudocientífico do homem normal”. “Real – diz ele – é somente aquilo que opera na psique humana e não aquilo que determnadas pessoas consideram normal” (JUNG: 1984, 47).


Esta consideração junguiana é particularmente importante no que diz respeito à intuição.


A intuição é feminina?

Tem-se, desde muito tempo, associado a intuição às mulheres. As mulheres seriam intuitivas ao passo que os homens racionais. A intuição é feminina, se diz. Ela é visível nas bruxas, parteiras, bezedeiras, malucas e santas; é um fenômeno místico que coloca a mulher, sua detendora, no lugar desconfortável e instável do limiar entre a normalidade e a insanidade psíquica.

Ser intuitiva pode ser um elogio ou a acusação velada de ser inconsistente e inconfiável. Não sempre a acusação é malévola; as pessoas intuitivas dão muitas vezes suporte à tal afirmação, pois a intuição deve ser compreendida e identificada distinguindo-a do marasmo de percepções e sentimentos que uma pessoa não consciente de sua realidade psíquica geralmente apresenta.


A intuição é, porém e em primeiro lugar, um fenômeno humano. Pelo fato de as mulheres terem permanecido historicamente dentro dos domínios do lar, das emoções e dos afetos, longe do desenvolvimento intelectual e racional, aconteceu da intuição manifestar-se com maior facilidade nelas. Onde o bojo psíquico é predominantemente irracional, a intuição encontra caminho, mas não por isso é clara. A totalidade da psíque presente em cada um de nós engloba todas as funções, portanto os homens podem ser tão intuitivos quanto as mulheres.


Discriminação e intuição

A intuição “feminina” seguiu o mesmo destino das mulheres na cultura ocidental. Esta priorizou, desde Santo Tomás de Aquino (1225-1274), o racional como marca dominante do pensamento ocidental. A função Pensamento é a prioritária junto à sua auxiliar, a Sensação. De uma forma ou de outra, essas duas funções, uma como principal, outra como auxiliar e vice-versa, dominam o Ocidente. Daí a enfâse da racionalidade abstrata por um lado e no mundo material de outro, com a valorização do comércio, da posse de bens materiais, do comer, do conforto, de carros e de moda, de viagens de prazer, e dinheiro no banco.

Ficaram subdesenvolvidas as duas outras funções, o Sentimento e a Intuição. Perdemos com isso a habilidade de avaliar corretamente as siuações e as relações nas quais nos encontramos (Sentimento), e esquecemos do “sexto sentido”, a transcendência, a capacidade de ir além do imediato. Não só, por ser a Intuição a mais rebelde de todas funções, pois é incontrolável, ela foi também estigmatizada.

Quando falo em discriminação da intuição estou usando a mesma palavra com duas significações. Há aqueles que não acreditam em intuições e desta forma negam valor às próprias e às dos outros (e outras), mantendo assim o status quo e eliminando possíveis alternativas. Por outro lado, há os que possuem intuição mas não percebem que é preciso um trabalho interior de discernimento para distinguir intuições de desejos, paranóias e fantasias. Ou seja, a Intuição é uma função que se desenvolve, assim como uma pessoa aprende a nadar ou ler.

Para ter uma intuição é preciso abrir mão dos desejos pessoais, deve-se aceitar o que vem. É um tipo de processo Zen: o arqueiro acerta o alvo sem querer acertá-lo. A intuição não está ligada ao ego e às suas preferências. Você pode querer comprar tal casa ou fazer tal faculdade, e o relâmpago interno lhe mostra que não é por aí, mesmo que a casa tenha um bom preço e a faculdade seja "badalada".


Intuição e sincronicidade

É minha convicção que a intuição esteja ligada aos fenômenos da sincronicidade. Imagino-a como mensageira ou reflexo do contato entre realidades distintas, co-presentes sendo que uma delas está fora do alcance da consciência comum.

Sincronicidade, ou “coincidência significativa” é um conceito desenvolvido por Jung em 1952, para definir acontecimentos que estão ligados não por uma relação causal mas por uma relação de significado. A intuição poderia ser o órgão que capta esses eventos, nos dando uma visão transversal que perpassa a causalidade de tempo e espaço e aponta para o futuro. Em quanto compreensão instantânea de fenômenos, a intuição é preciosa e merece toda nossa atenta consideração.



Conclusões

A intuição é a percepção da realidade externa ou interna em seus aspectos ainda não visíveis ou desenvolvidos. A intuição enxerga o potencial em desenvolvimento, o broto que ainda não saiu da terra, mas que está lá, mesmo que não seja concretamente palpável e observável racionalmente.

Uma pessoa com função Intuição desenvolvida é capaz de distinguir seus desejos subjetivos e as idiosincrasias pessoais das intuições de fato, obtendo uma visão clara e objetiva de fatos, pessoas e relações.

Para aprimorar a intuição é preciso de liberdade interior (além de introspeção), muita observação e pensamento cartesiano: colocar todas as dúvidas entre parêntesis e prestar atenção ao que vem.

Fazer espaço para a intuição democratiza a psique, aumentando o nosso leque de possibilidades. A intuição ajuda a nos orientar na vida e a fortalecer nossa identidade no que tem de original e verdadeiro, transcendendo as limitações do imediato.



BIBLIOGRAFIA

JUNG, C. G., Tipi Psicologici, Torino, Boringhieri, 1984.
_________, Sincronicidade, Petrópolis, Vozes, 2007.
_________, O Eu e o inconsciente, Petrópolis, Vozes, 2001.
MONTEFOSCHI, S., C. G. Jung un pensiero in divenire. Una limpida introduzione alla psicologia del profondo. Milano, Garzanti, 1985.

Um comentário:

  1. Nenhum comentário, vou comentar então. Todos temos intuição, "algo vai dar merda" de cada 10 vezes 7 dá merda. isso é intuição.
    A principio, acho que quem não tem ou não a desenvolveu nem sabe que "vai da merda', simplesmente se surpreende quando o fato acontece.

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