21/08/2009

Marx, a religião e a humanidade

Adriana Tanese Nogueira



A crítica da religião é, pois,
a crítica do vale de lágrimas de que a religião
é o esplendor.
Marx




Devo admitir que tive muita sorte. Quando estava iniciando a Faculdade de Filosofia na Università Statale de Milão (Itália), ingressei num curso introdutório ministrado por um professor de modos simples e honestos, o prof. Livio Sichirollo. Ele dava aula andando cima e para baixo, entre as carteiras. Conversando, ele trazia à tona os núcleos essenciais dos grandes sistemas filosóficos. Ele delineava os conceitos de uma forma tão clara e cativante que eu o ouvia literalmente de boca aberta.

Um dia ele me olhou e disse: “Senhorita, não me olhe com esses olhos!” (arregalados).

Era meu primeiro contato com a filosofia. Eu estava encantada. Deparava-me com um mundo belíssimo que ainda mal entendia, mas cuja grandiosidade pressentia.


Das aulas do professor Sichirollo, dois foram os pensadores que me marcaram: Hegel e Marx. Lembro a simplicidade com ele definiu uma das características mais importantes do pensamento hegeliano. A filosofia de Hegel, ele explicou, é a filosofia dos ‘e’ e não dos ‘ou’. Hegel monta um quebracabeça gigantesco composto por todos os pensadores anteriores a ele. No fazer isso, ele não cria contraposições. Não há nada a ser negado. Tudo é verdadeiro: no seu tempo e na sua hora. Tudo tem seu lugar no longo caminhar do espírito rumo ao próprio auto-conhecimento. Hegel encadeia fulano e sicrano e beltrano, devolvendo ao pensamento humano unidade e ordem.


De Marx ficou comigo a curiosidade de saber mais. Um dia, tomei coragem e perguntei timidamente àquele professor miúdo o que eu poderia ler para introduzir-meo ao pensamento marxiano. Ele me olhou estupefato: “Senhorita, para se introduzir ao pensamento de Marx, deve-se ler Marx diretamente!”

E foi assim que comprei meu primeiro e livro, "Marx e a Religião", uma coletânea de escritos marxistas sobre a religião (org. Prof. Luciano Parinetto). Livro que folheei, li em algumas partes, e fechei para reabri-lo só vinte anos depois.


Foi quando encontrei a professora
Maria José Rosado Nunes, no Programa de Mestrado de Ciências da Religião da PUC/SP. Ela tinha a mesma visão apaixonada e o compromisso com a verdade do prof. Sichirollo . Dei-me conta, mais tarde, que este tipo de paixão é o que caracteriza o próprio Marx.

E eis qual foi minha sorte: só tive acesso a Marx por um ponto de vista que me permitiu alcançar aquilo que nele é como um rio de vigor transformador, de força revolucionária banhada de paixão pelo mundo e a humanidade. E o ponto de vista que me abriu novos horizontes foi justamente o da questão religiosa.

Quando me inscrevi ao curso da profa. Zeca não devia mais nenhum crédito. Porém, conhecendo-a, eu não poderia me eximir de tentar encarar Marx. Ela já tinha conseguido tornar digerível e atraente Durkheim!


Não sou perita em economia, nem em política. Já sou da geração pós-guerra fria e nada tenho a compactuar com ditadura algum,a de nenhuma cor e lado político. Entretanto, estaríamos sendo corretos associando a Marx tudo isso? O pai de todas as revoluções possíveis é também o responsável por todos os fracassos possíveis? Resumiria-se o pensamento de Marx às experiências históricas que tivemos até hoje? Foi então que eu descobri que Marx é muito mais e muito melhor daquilo que estamos acostumados a associar a ele. O prof. Sichirollo tinha razão: precisa ler Marx diretamente.


Marx (1818-1883) não é um estudioso de religião. Não está interessado em entender a religião em si. Também não prega o ateísmo (como erroneamente se acredita) e não se dá ao trabalho de demonstrar a não-existência de Deus. Pois ele acredita que:

"A crítica da religião, no caso da Alemanha, foi na sua maior parte completada; e a crítica da religião é o pressuposto de toda a crítica." (2004: 45)


Quem fez a maior parte do trabalho foi Hegel (1770-1831).


Segundo a Filosofia do Espírito Hegeliana, o Espírito passa por três etapas: a subjetiva, a objetiva e a absoluta. Na primeira ele está no caminho da própria auto-realização e auto-conhecimento, corresponde à vida interior individual e dá origem à três ciências: a antropologia, a fenomenologia e a psicologia.

Na segunda etapa ele expressa e atua si mesmo em plena liberdade, o que corresponde à produção das sociedades humanas, e de três outras esferas do saber: o direito, a moralidade e ética.

Enfim, o Espírito alcança sua última etapa, quando à ação segue a consciência, o reconhecimento e o auto-conhecimento do Espírito, o qual se sabe assim como princípio e verdade. É nesta fase que ele dá vida às dimensões da arte, da religião e da filosofia. Na arte, ele se revela nas formas sensíveis; na religião, pela representação da fé; e na filosofia, pelo conceito puro.


Para Hegel, o sujeito da História é o Espírito. Sua trajetória é o percurso que vai de uma Idéia que não sabe de si até a realização plena de sua consciência e liberdade. O objetivo final é a liberdade do Espírito. Ele encontra esta plenitude na forma do conceito, cuja expressão completa a encontramos na Filosofia. É por isso que a Religião está superada. Ela representa um momento da história do Espírito, não seu ponto final, seu apogeu.


A Religião é, segundo Hegel, uma expressão manca do Espírito. Ela supera Arte (como sua antítese) para ir confluir na Filosofia (como sua síntese). O conceito racional é a quintessência (síntese) da representação do Espírito que vemos no sentimento da fé (Religião) e na representação sensível (Arte).

Na religião, portanto, o Espírito se encontra ainda em estado alienado de si mesmo. Ele não tem plena consciência de si e, portanto, não se sabe como liberdade e verdade. Por isso, é preciso ir além: ao reapropriar-se de si mesmo, o Espírito toma forma no conceito, e dá vida à Filosofia.


A religião está assim sendo derrotada não por outra religião, nem por alguma crítica específica, mas pela natural evolução do Espírito. Considerada obsoleta pela filosofia hegeliana, a religião fica para trás como quando, ao crescer, se deixam as atividades que não nos pertencem mais.


Após Hegel, a religião sofreu mais um golpe por obra de Feuerbach (1804-1872). Este filósofo faz uma crítica dura a Hegel, afirmando que uma filosofia, pondo de lado a natureza, é inútil e vazia. Feuerbach quer trazer o pensamento de volta para a terra. Diz ele:

"Vã é, portanto, toda especulação que quer ir além da natureza e do homem." (FEUERBACH em REALE et alii: 1986, 127)


Sua obra principal é A essência do cristianismo (1841). Nela, Feuerbach reduz teologia e religião à antropologia. Segundo ele, todos os grandes dotes que a humanidade atribui aos deuses nada mais são que as qualidades que esta mesma humanidade possui, mas não reconhece como próprias. Os seres humanos sofrem de uma espécie de sentimento de inferioridade que os faz projetar o que há de melhor neles em seres sobrenaturais. A religião, portanto, não passa de projeção nossa. Décadas depois, a psicanálise dirá que o “Pai do Céu” é na verdade o pai nosso de cada dia em sua versão idealizada e desejada por crianças acuadas e inseguras (Freud, O futuro de uma ilusão).


Entretanto Feuerbach não se pergunta por que a humanidade joga para entidades sobrenaturais o melhor de si. Se para ele os seres humanos são expressão da natureza e produto dela, "como então explicar que a natureza dos humanos trai a humanidade da natureza?" (ASSMANN-MATE: 1974, 15)

Feuerbach não tem respostas. Seu pensamento não é dialético. Ele entende esta situação como uma alienação sem sentido e declara que, uma vez que se toma consciência dela, precisa-se desfazer-se de toda projeção, retomando para si o que foi jogado para os deuses. Como se isso fosse fácil... Como se bastasse um clique racional para perceber e implementar uma nova realidade...


Marx busca o porquê. Ele é genuinamente hegeliano quando busca o fio da meada da dinâmica das coisas. Por que a humanidade atuaria em seu próprio detrimento? O que induz os seres humanos à alienação?

Marx crítica o pensamento de Feuerbach, dizendo que este sim é abstrato. Se é verdade que a humanidade é quem faz a religião, é também verdade que deve haver um motivo para isso. E esta razão deve ser buscada não na natureza dos indivíduos (como se as pessoas se alienassem porque querem), e sim em sua vida concreta,
pois "o homem não é um ser abstrato, acovardado fora do mundo." (Marx: 2004, 45)

Feuerbach falhou em não se dar conta da realidade material da vida humana. Ele não prestou atenção às condições efetivas da existência dos serem humanos. São essas condições que, para Marx, explicam a tendência à alienação. Em suma, Feuerbach não deixa de estar certo, só não está completo.


Marx compreende assim que
:

"O homem é o mundo do homem, o Estado, a coletividade. Este Estado e esta sociedade produzem a religião, uma consciência invertida do mundo, porque eles são um mundo invertido." (2004, 45 - itálico meu)

A religião, criação da humanidade, é especificamente o produto de um determinado tipo de realidade humana. Não é um indivíduo singular que cria a religião, mas uma coletividade, isto é uma sociedade. Esta sociedade surge com determinadas relações sociais e estruturas de poder. Agora, as sociedades reais estão, aos olhos de Marx (e de todos que abram os olhos) empregnadas de injustiça social, sofrimento e desigualdade. É evidente que este status quo não é aceitável: por isso ele diz que a sociedade é o mundo invertido. O mundo está ao avesso. A religião, portanto, é o resultado de uma sociedade de cabeça para baixo. Por este simples motivo, sua religião só pode ser alienante. Ela reflete o mundo invertido do qual é sua fantasmagoria.



Há mais uma crítica da religião que vale ser lembrada. É a de Bruno Bauer (1809-1882), amigo de Marx. Ele já havia sido um hegeliano ortodoxo, mas muda de ponto de vista em sua Crítica da história da revelação (1838). Segundo ele, o cristianismo é um momento da consciência universal, no sentido que é o resultado da consciência infeliz dos escravos da época do império romano (ASSMANN-MATE: 1974, 15). Cristalizado neste tempo histórico, o cristianismo não pode, de forma alguma, ser considerado, como faz Hegel, a realização absoluta da religião, ou seja, a quintessência (mesmo que em via de ser ultrapassada pela filosofia) de todas as religiões.

Bauer traz mais um elemento à reflexão sobre a essência da religião: além de ser uma projeção humana de suas melhores qualidades, ela também espelha a consciência infeliz dos indivíduos.


"A religião", escreve Bauer, "é a passividade do homem que é fixada, olhada, feita, quista e elevada à sua essência, é a dor suprema, que ele poderia infligir a si mesmo [...] a desventura do mundo, que é considerada, quista e fixada como sua essência." (REALE et alii: 1986, 127)


A crítica de Marx a Bauer vai na mesma direção daquela feita a Feuerbach: há uma abstração. Neste caso, Bauer cria uma hipostatização da consciência humana, como se ela fosse uma mónade fechada no tempo. Marx não consegue conceber um indivíduo per se. Quando Bauer define um momento específico do surgimento do cristianismo oficial, está recortando um tempo histórico e colocando-o como explicação atemporal da religião. E mais uma vez, nenhum dos dois autores mencionados dá conta do sentido da religião. Marx está preocupado com o sentido das coisas, com o por que.

As posições de Feuerbach e de Bauer são importantes por serem denúncias. De alguma maneira, ambas acusam a religião de tirar dos humanos sua força. Colocando a religião no banco dos imputados, ambos esses autores querem desmascará-la para expor seu fardo de responsabilidade para conosco.

Marx, ao contrário, está interessado na religião para desobstruir o caminho da humanidade. O verdadeiro foco de atenção de Marx é pela humanidade. Se para Hegel o sentido da história é a liberdade do Espírito. Para Marx o movimento da história corre no sentido da libertação humana.

Marx ama apaixonadamente a humanidade, está comprometido com ela. Ele tira os holofotes da religião para iluminar a humanidade. Quer dar-lhe meios efetivos para resgatar-se. Estes meios só poderão ser encontrados quando se analisar a religião não em abstrato, mas no terreno da vida real, concreta da sociedade. É precivo observar a função da religião por entre as dinâmicas sociais e históricas.


O conceito de crítica é muito importante em Marx. Com crítica ele entende a reflexão crítica sobre o dado, seja ele um conceito filosófico ou uma realidade social. A crítica não é simplesmente a negação de algo, como muitas vezes se entende erroneamente. A crítica é uma ponderação inteligente e aguçada para compreender o sentido de algo, e ultrapassá-lo (numa síntese), no confronto com a realidade social ou com outro aspectos do conceito.


"Na luta contra este estado de coisas, a crítica não é paixão da cabeça, mas a cabeça da paixão." (2004, 48 - itálico meu)


A crítica, portanto, não é manifestação de imediatismo e irracionalidade. Criticar para Marx não é rejeitar de forma irrefletida. Ao contrário, a crítica é a fórmula racional da paixão voltada para a ação incisiva e produtiva. Numa palavra, a crítica em Marx é um conceito dialético, serve para ir além, conseguir mais, alcançar mais longe. Por isso ele diz que a crítica da religião é o pressuposto de toda a crítica, porque uma vez compreendida a função da religião, temos o caminho aberto para superar a alienação da qual ela é resultado e artífice.


"Trata-se de recusar aos alemães um instante sequer de ilusão e de resignação." (2004, 48)


Desta forma, Marx chega à célebre frase da "religião como ópio do povo" (2004, 46).

Os seres humanos fazem a religião. Por que? O que é a religião se não uma promessa de felicidade que só querem os que não estão felizes? Por isso
:

"A religião é o suspiro do ser oprimido, o íntimo de um mundo sem coração e a alma de situações sem alma." (2004, 45-6)


Me parece possível compreender a variedade das religiões hoje em dia por este prisma: quanto mais miserável (material e espiritualmente) a realidade dos cidadãos, mais fervorosas e alastradas suas religiões, e mais grandiosos seus templos.

Entretanto, Marx não aponta friamente o dedo, e basta. Entra em jogo sua compaixão:


"A miséria religiosa constitui ao mesmo tempo a expressão da miséria real e o protesto contra a miséria real." (2004, 46)


Os seres humanos, na visão de Marx, estão acomodados porque estão perdidos. Suas chagas produzem odores e gritos de dor: esta é a religião, expressão e denuncia do sofrimento humano.


"A religião é a doutrina geral deste mundo [...] a sua base geral de consolo e de defesa. É a realização fantástica da essência humana [...]. Conseqüentemente, a luta contra a religião é indiretamente a luta contra aquele mundo cujo perfume espiritual é a religião." (2004, 45)


A humanidade em Marx tem a vocação para a liberdade. Marx acredita tão profundamente nisso que tem certeza de que o curso da história mostrará esta verdade. A dinâmica da história se encarrega disso.

A liberdade é inerente à natureza humana, mas é também uma escolha (cf. BERMAN: 2001). Os indivíduo sofrem por causa da opressão material, social e econômica que vivem. Ao sofrerem estão, porém, lançando um grito de denúncia contra uma realidade que não está à altura de sua natureza. Por que não mudam? Porque perderam a si mesmos, esquecidos de sua força. Estão alheios de sua natureza. Marx tira a religião de cena para colocar em seu lugar o grandioso projeto de emancipação da humanidade.


Quando se associa a Marx o ateísmo e todas as obscenidades possíveis está se faltando o alvo da questão. A luta corpo-a-corpo de Marx não é com a religião. Marx sonha com uma humanidade inteira, livre e feliz. Marx está interessado em eliminar do caminho tudo o que pode tirar os indivíduos de seu centro, de sua dignidade, de sua criatividade, beleza e vigor.

Marx quer o empoderamento das pessoas. O que é diferente do egocentrismo e da
onipotência que foi exibida e inflacionada nos últimos dois séculos em seu nome. A plenitude que Marx tinha em mente abrange os indivíduos em sua totalidade: mente e corpo (e alma). A onipotência é um fenômeno do ego, porque só uma mente abstrata ou que se entende como abstrata e fechada em si mesma pode ultrapassar os limites do bom senso e produzir tanta destruição e exploração como as modernas sociedades fizeram (capitalistas e não). Quando incluímos o corpo, suas necessidades e seu prazer e, não só, quando acrescentamos a isso a relação com os outros, redimensionamos o ego. Inevitavelmente.


É radical a diferença entre o conceito de liberdade em Marx e a liberdade no pensamento liberal. Enquanto que no capitalismo o lema é cada um por si e o capitalismo para todos; na utopia de Marx é cada um para todos e todos para cada um. Os outros são, no sistema capitalista, um empecilho à nossa liberdade, um estorvo. Nossa ação livre vai até onde não prejudica a dos outros e, vice-versa, somos livres quando não sofrermos interferências alheias. A liberdade no capitalismo é solitária e individualista. Uma célula que olha para o próprio umbigo. A liberdade de Marx imagina para o mundo pós-capitalista, ou seja, no comunismo, se exprime na convivência com os outros: só podemos ser livres se os outros também o são, só podemos expressar nossas potencialidades se os outros também o fazem. A verdadeira liberdade só pode existir em comunidade (BERMAN: 2001).

A utopia de uma humanidade livre, consciente e dona de si mesma foi pela primeira vez lançada ao mundo por Marx. Peter Singer escreve que
:

"O impacto de Marx só pode ser comparado ao de figuras religiosas como Jesus ou Maomé" (SINGER: 2003, 13).

Isto porque o que está em jogo no ponto de vista de Marx é tão grande quanto o que preocupa Jesus de Nazaré: a humanidade. Se a salvação para Jesus – ou melhor, para seus seguidores oficialmente canonizados - vem de cima, se o agente primordial da ação e criação é um ente sobrenatural, cabendo aos humanos uma margem relativamente pequena de manobra, para Marx a salvação vem da própria humanidade.


A espinha dorsal do pensamento hegeliano é o movimento dialético do Espírito rumo sua liberdade. Em Marx, é a dialética de emancipação humana. E, como para Cristo, os últimos serão os primeiros, assim para Marx só os mais sofridos poderão se dar ao trabalho de, além de enfrentar a labuta quotidiana, também assumir sobre seus ombros a luta pela libertação (coletiva).


A utopia de Marx é a libertação real da humanidade de seus grilhões de injustiça social, política e econômica. Por que? Porque o sistema atual, baseado na divisão do trabalho, divide também todo indivíduo em facetas desligadas entre si: cada sujeito exerce um papel e com o processo de especialização este papel fica sempre mais reduzido, até a pessoa perder completamente o sentido da própria ação. Marx estuda economia e política não por estar interessado especificamente nelas, mas porque para ele a felicidade humana é um assunto urgente e importante que há de se realizar na terra, isto é, no interior de sociedades administradas e sustentadas por uma ordem política e econômica. Marx sonha com uma humanidade fraterna e livre.


O modelo antropológico marxista é o de um ser humano trabalhador, espontâneo e feliz. O trabalho é para Marx a essência da natureza humana, expressão das qualidades e dos talentos individuais.


"Ele vê o trabalho como uma fonte fundamental de sentido, dignidade e autodesenvolvimento para o homem moderno." (BERMAN: 2001, 34)


O que Marx tem em mente, não tem nada a ver como o trabalho do sistema capitalista de seu e de nosso tempo. O trabalho que conhecemos é aquele que esgota, que dissolve a alma e anula a inteligência. Este é o ‘trabalho alienado’, do qual ele falava. Ao contrário, trabalhar é uma forma de expressar a natureza humana, de pôr nossas capacidades para funcionar e descobrir coisas com elas, aprender, manifestar, inventar... Isso tudo, porém, somente pode ser feito em sociedade.

O modelo antropológico marxista é eminentemente relacional. Só numa sociedade livre podemos ser livres. Só em meio a indivíduos livres nossa liberdade pode se manifestar plenamente. So juntos poderemos brotar, florescer, ser feliz.


Alguma forma de espiritualidade – imanente e humana – pode conviver com Marx, desde que o foco esteja voltado para a realização plena das potencialidades dos seres humanos, aqui e agora, na Terra. A crítica da religião está feita. Voltemos, então, página. Criemos uma vida terrestre digna e plena, livre e feliz para todos. Mudemos o mundo. Sem o céu para nos socorrer ou para onde fugirmos, nos resta apenas arregaçar as mangas e cuidar do mundo. Façamos dele um lar.



Bibliografia

ASSMANN, Hugo – MATE, Reyes. Introducción. Em: MARX, K. – ENGELS, F. Sobre la religión. Salamanca, Ediciones Sígueme, 1974.
MARSHALL, Berman. Aventuras no Marxismo. São Paulo, Companhia das Letras, 2001.
MARX, Karl. Manuscritos Económico-Filosóficos. São Paulo, Martin Claret, 2004.
MARX, Karl. Marx – Sulla religione. Milano, La Nuova Italia, 1980.
REALE, Giovanni – ANTISERI, Dario – LAENG Mauro. Filosofia e pedaogia dalle origini a oggi. Brescia, La Scuola, 1986.
SINGER, Peter. Marx. São Paulo, Loyola, 2003.

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