21/08/2009

A Mesa Redonda da Reciprocidade

Adriana Tanese Nogueira

Estabelecer uma relação de reciprocidade é como sentar-se a uma mesa redonda. Todos estão no mesmo nível. Mesmo quem, no momento, tem a palavra, tem a razão ou tem algo a ensinar, está na mesma altura dos outros. Todos podem ver-se nos olhos. Todos são visíveis.
Na mesa redonda da reciprocidade não há quem fique de fora, ou de cima “observando”. Não há quem dá conselhos mas não se mostra, quem ensina mas não está visível. Não há diferenças de escalão.

No sistema patriarcal tradicional, os homens não se colocam no mesmo plano que as mulheres todas as vezes em que elas se abrem e eles não expressam o que sentem, não se mostram. Devemos compreender que, além do papel social dado, além das poses adquiridas culturalmente, além do que se quer exibir, há um ser que sente, quer, deseja, sofre, pensa, duvida, se pergunta. Este é o ser humano que há de ser mostrado numa relação de reciprocidade. Sem falsos orgulhos.

O mesmo desnível pode ser observado nas relações internas que cada indivíduo entretem consigo próprio. A parte masculina, oficialmente considerada “superior” nunca se senta no mesmo nível que a feminina, a convencionalmente considerada “inferior”. A razão vale mais do que a emoção; o pensamento conta mais do que a intuição. Sensações, sentimentos e intuições tendem a ser desvalorizados, nunca se presta realmente atenção a eles. Essas, que são formas de conhecer a realidade tanto quanto a razão, não são utilizadas para tirar delas conclusões efetivas para nossas vidas. São vistas, ao invés, como curiosidades passageiras.

Não se trata, por outro lado, de por emoções e sentimentos no controle da situação. A questão é sentar-se à mesa redonda da reciprocidade e construir um novo modelo de consciência e de relações. É unir de forma crítica e dialética as diversas formas de perceber a realidade e criar delas uma síntese útil para a melhora de nossa vida. Sem medos.

Indivíduos que não tem reciprocidade interna não podem realizá-la externamente, nas relações com os outros. O sistema psíquico interior dá o modelo do que acontece fora. Uma pessoa autoritária consigo própria, que reprime sua espontaneidade e emoções, será dura com os outros. Uma pessoa que recalca sua própria originalidade e criatividade, perseguirá os outros com seu convencionalismo e rigidez mental. Uma pessoa que mente a si mesma sentir-se-á à vontade com os mentirosos.

A falta de reciprocidade interior produz indivíduos secos, superificiais e infelizes. Eles buscam fora de si o nutrimento e a umidificação de seu solo árido. Geralmente, encontram alivio em relações que não podem aprofundar pois não podem eles próprios aprofundar-se. Bebidas, drogas, diversões baratas e todos os métodos para não encarar-se são usados. Inútil dizer que o resultado é somente o aumento do vazio e da tristeza interiores.

Por outro lado, o fechamento psíquico leva a uma sempre maior timidez e fragilidade internas, que produzem um maior medo de abrir-se e expor-se. Para compensar, a pessoa acaba vestindo uma couraça externa mais dura e faz maior uso do poder que adquire diante de quem ingenuamente se mostra. É um ciclo vicioso. Só gera dor.

A mesa redonda da reciprocidade é um objetivo a ser alcançado, não é algo dado e pronto. Ele deve estar vivo nas mentes de quem o acalenta, buscando maneiras para modificar as relações do dia a dia, transformado-as em laboratórios experimentais de uma nova modalidade de se relacionar. Franca e respeitosa.

2 comentários:

  1. Apreciei essa postagem, Adriana.

    É bom lembrar que, em uma cultura mística e antiintelectual como a brasileira, muitos menosprezam a razão e supervalorizam a intuição, o que também é um erro.

    Tudo de bom!

    * * *

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  2. Bom ouvir isso que você escreveu, Emerson. Seguro-me às vezes para não bater na mesma tecla e ofender o "orgulho nacional", mas vc disse certo: "cultura mística e anti-intelectual" e é justamente por este motivo, pelo anti-intelectualismo (e anti-cultura) que o misticismo brasileira vaija na maionese que é uma beleza! E com ele a intuição. Concordo com vc.

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