21/08/2009

PEITO OU MAMADEIRA?

Adriana Tanese Nogueira


O outro dia levei minha filha ao Zoo Safari de West Palm Beach, FL (EUA). Era um belo dia de sol. Estávamos caminhando ao longo do lago quando uma visão infelizmente comum capturou meus olhos. Havia uma bebê, de cerca nove meses, em seu carrinho tomando uma mamadeira. Ao lado dela, olhando para o lado contrário, estava seu pai. Em sua mão direta ele segurava um enorme copo de refrigerante do qual bebia, o olhar absorvido no vazio. Sua mão esquerda segurava ausente a mamadeira na altura da boca de sua filha. Ambos estava deglutindo líquidos, fitando ninguém e nada em direções opostas.

Em um instante reconheci olhar da bebê tomando aquela mamadeira. Numa fração de segundo lembrei-me das longas mamadas de minha filha, que teve durante dois anos e meio meu peito à sua disposição. Aquele olhar me tocou. Ela não sabia, mas eu sim. Eu estava consciente de que aquela bebê estava só.

O grande lance acerca da amamentação é que não se trata somente de alimento perfeitamente balanceado e nutriente, sustento saudável e orgânico, mas que é também a chave da relação mãe-bebê. Aleitamento é contato pele-a-pele, conforto, abraço, olhar, intimidade e amor. O energia nutricional da vida está genialmente inserida numa promissora, essencial e significativa relação de alegria e prazer. O alimento 100% guarantido, orgânico e palatável, chega com o acalanto do olhar que nina e garante a vitória da vida e do dádiva.

Que tal uma insípida garrafa de plástico sem ninguém para tocar, cheirar, sentir? Sem nenhum olhar para fitar? Nenhum sorriso, nenhuma reasseguração de que a vida é maravilhosa porque não estamos sós, porque somos amados, antes mesmos de sermos capazes de fazer qualquer coisa de meritório e útil para quem quer que for? Somos amados apesar do duro trabalho que damos a qualquer adulto que de nós cuide.

Que tal ter uma amorfa e silenciosa mão humana não para nos acariciar, para acarinhar nossos cabelo curto e fino, mas para mecanicamente dar suporte a uma estúpida garrafa que temos de beber por mero instinto de sobrevivência?

A pequena bebê não sabe, mas ela sente. Ela pode estar sugando intensamente aquele leite artificial na vã esperança que magicamente algo maravilhoso surja pelo simples fato de engolir aquela coisa. E talvez seu pai persiga o mesmo sonho não dito, enquanto bebe litros de refrigerante ou cerveja. Se por milhares de anos a raça humana tem instintivamente associado a delícia do abraço maternal à primeira nutrição, é um reflexo condicionado sugar para fazer o amor aparecer. Apesar de fazerem sentido, essas são conjeturas, naturalmente, idéias que brotam espontaneamente do fundo da minha mente enquanto olho a cena e me dou conta da tristeza que ela faz meu coração sentir.

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