01/06/2015

MATERNIDADE E PATERNIDADE: A LUZ QUE SE ACENDE NO ESCURO.

Adriana Tanese Nogueira


A gente fica grávida e sonha com as delícias da maternidade. Sonho romântico e aconchegante: o bebê é fofo e preenche nosso coração de surpreendente alegria. É verdade que ele também chora, que há fraldas para trocar, que nossas horas de sono e de liberdade diminuem drasticamente, mas nem por isso, o bebê deixa de ser um ícone de anjo terrestre. Seu olhar cândido e seu sorriso despreconceituoso, aberto, sem sombras são uma benção, um riacho fresco no calor intenso de nossa jornada de trabalho, e num mundo sempre mais complicado.

Após os primeiros tempos de encantamento, vamos percebendo que esse mesmo bebê começa a crescer, e algo muda. Ele vai manifestando personalidade. Sua fofura anda mesclada com seu gênio, estilo, preferências, insistências. E nós, pais, ainda inebriados por aquele amor gigantesco, zonzos pelas muitas noites sem dormir direito que se somam à incansável correria do dia-a-dia, sentimo-nos divididos entre o sim e o não. Dar e não dar. Ser ou não ser.

Afinal, quem é esse bebê que chegou até nós? Quem é essa pessoa com a qual estamos lidando? Apesar de ter nossos mesmos genes não é nossa cópia. O bebê é outra pessoa. Diferente de nós. Alguém que precisamos aprender a conhecer. Antes de decidir o que ele “é” e “quer”, vamos observá-lo melhor, prestar atenção para verdadeiramente acolher essa pessoa e ajudá-la a se desenvolver.

Antigamente, tínhamos papeis pré-determinados que, como manuais de instruções, nos diziam o que é uma família, o que é ser pai, ser mãe, ser filho e filha. Naqueles tempos não havia televisão, nem tanta informação e liberdade. A sociedade era bem mais compacta em sua visão da vida e da educação de filhos. E hoje?

Hoje se dá muita importância ao “amor aos filhos”. Hoje, enfatiza-se o amor. Mas o que é “amar um filho”? Parece uma pergunta tola, mas não é. Nada como a idéia de amor molda nossas relações. Temos fantasiosas idealizações sobre amor, mas na hora “h”: como é que esse amor funciona?

Parece que “amar” quer, geralmente, dizer “sim”. A gente ama os filhos e tende, numa espécie de transe, a dar-lhes tudo o que querem. A isso acrescentamos o que as propagandas conseguem vender para a criança que vive dentro de nós (nosso lado infantil) e para aquela que está fora de nós (nosso filho). A criança simbólica e a real: ambas tão sensíveis a objetos mágicos tecnológicos, a botões e imagens fugidías e telecomunicações virtuais. Para completar, os enchemos de comidas desnessárias, coloridas, gasosas, crocantes, líquidas, “divertidas” – fora da hora, a qualquer hora...

Quando eles se opõem aos nossos desejos, tentamos acalmá-los oferencendo-lhes mais diversões (diversão do quê, afinal? De seu vazio interior?). Presentes, concessões e troca de favores constituem muitas vezes as estratégias para lidar com as crianças, nossos filhos, o futuro do mundo. E se mesmo assim ela não fica “bem”: temos uma “criança problema”!


E quando se quer dar aos filhos um rumo na vida o que fazemos? A criança há de se encaixar no modelo pré-confeccionado que a cultura de massa promove ou... temos uma “criança problema”!

É aqui que entra pesado nossa concepção do “amor”.

A gente não quer que os filhos sofram ou, pelo menos, desejamos diminuir as chances que isso venha a ocorrer. E é por isso que consentimos tão docilmente a todos seus desejos ou àqueles da mídia?

A gente está cansada e quer sossego: mais um motivo para usar um calaboca. Hoje é a chupeta, amanhã o videogame, a TV, os amigos.

A gente está decepcionada com a nossa própria vida: eis que o filho serve como palco para a realização de nossos desejos ocultos. Projetamos nele o que não conseguimos fazer nós mesmos. Amamos nossos desejos e os despachamos para cima dos filhos.

Pergunto: qual é nosso papel como pais? Após os primeiros tempos de encantamento, após carregar aquele serzinho no colo cujo sorriso ilumina nossa vida, o que há de se fazer?

Ser mãe e ser pai é, em primeiro lugar, educar. Educar é o tipo de amor do qual o filho precisa. A educação é uma das mais bonitas e importantes formas de amor. Educar é prestar atenção, doar nosso tempo. É também formar, ajudar a crescer, escorar, sustentar, apontar, dar liberdade e também limites, respeitar, colocar-se ao lado, dar a mão e tirá-la quando não servir mais. O amor educacional dos pais é uma forma ativa e inteligente de participação na vida da criança. É ativa porque não acata qualquer desejo da criança, reflete, intervém, modifica, se relaciona. É inteligente porque segue conscientemente uma escala de valores. O amor educacional dos pais é seletivo: ensina a criança a selecionar, discernir, discriminar, a separar o joio do trigo.

A educação é um movimento com uma direção. Que tipo de seres humanos queremos criar? Quais são os verdadeiros valores da vida que nós adultos seguimos? Qual é o código de ética que como pais adotamos?

Essas coisas devem ser pensadas e conscientizadas. Ética e valores se perdem assim que viram automatismos, dados por adquirido. Sem contexto e consciência são tão somente palavra morta, sem mais sentido. Assim, ser mãe e ser pai significa estar num constante repensar a vida, até porque os filhos mudam tão rapidamente que se não estivermos atentos e nós mesmos em movimento, os perdemos. Esta é a responsabilidade exigada pela condição de ser genitor. Não podemos simplismente passar para a próxima geração o que recebemos na nossa. Muito menos passar o que não recebemos para compensar uma suposta injustiça.

Educar é um ato de coragem e um desafio. É oferecer aos filhos uma referência de sentido, de orientação, de crescimento – sabendo que não somos perfeitos. É desamparador para uma criança não saber para onde ir, não ter limites e definições, não ter uma toca de segurança de onde olhar para o mundo e aprender a lidar com ele, com os outros, com suas próprias necessidades psico-físicas e relacionais. A segurança física é importante, mas aquela psicológica também. Sentir-se seguro é sentir-se compreendido, acolhido e aceito, não só estar protegido de perigos materiais. É também ser ajudado a se compreender, a compreender quem somos. Não nascemos sabendo quem somos e o que é importante para nós. Iremos descobri-lo, encontrando assim nosso caminho na vida, se tivermos as condições adequadas em nossa infância: ambiente tranquilo e acolhedor, estimulação apropriada, pessoas respeitosas em volta, tempo para pensar, leituras de qualidade, pais disponíveis para conversar, descobrir, perguntar, pensar junto. Não se trata de dar aos filhos as respostas da vida – muitas das quais ainda nem nós mesmos encontramos. Se trata de ajudá-los a ficar de pé e a caminhar como sujeitos criativos e ativos, confiantes em si mesmos.

Os pais são o norte para os filhos. Conscientizar-se disso significa refletir sobre a qualidade da relação que temos com eles. Qual é nossa proposta de vida para eles? E para nós? Quais são os valores que norteiam nossas ações? Sobretudo: que pessoas somos? Ser mãe e ser pai implica em fazer uma revisão das nossas vidas, reavaliando as prioridades, redimensionando os ideais e os projetos, burilando as expectativas, retraçando o caminho. Na maternidade e paternidade é importante balancear os propósitos anteriores com as necessidades do presente. Ser realistas mas também positivos.

Ser mãe e ser pai significa também rever a relação de mulher e marido. Com a chegada de uma criança ao lar, a relação dual é substituída por uma relação a três. Muita coisa muda. Nem sempre os casais superam o teste. Às vezes a prova da relação é a chegada de um filho. Crianças detectam mentiras como um radar capta ondas no ar. A verdade pode permanecer muda para sempre, mas ela vai atuar dentro da criança. O que é oculto é mais poderoso do que é transparente (C. G. Jung). Por isso a sinceridade é a melhor arma.

Ser mãe e ser pai é desenvolver paciência e generosidade. É conhecer o amor incondicional que incorpora com o tempo o amor condicional para poder ensinar relações respeitosas, direitos e deveres, desafios e empenho. Só um amor incondicional sabe lidar com a dificuldade que é estabelecer limites de forma amorosa mas firme e rigorosa, o que significa, em primeiro lugar, saber colocar a própria subjetividade num jogo límpido. O amor incondicional não corresponde a abdicar de si mesmos, dizer sim quando se gostaria de dizer não, sacrificar-se e ser esmagado por filhos carentes e insatisfeitos. A mãe e o pai são as primeiras pessoas com as quais um filho vai aprender a ser gente.

Os primeiros anos de vida são crucias para o desenvolvimento de um ser humano. Mães e pais deveriam ser como a luz que se acende num quarto escuro do alvorecer da consciência da criança e de seu auto-descobrimento como pessoa. Esta luz é feita de exemplo de vida.

Vivemos em época de transição. Maternidade e paternidade não são mais modelos pré-estabelecidos. Ser mãe e ser pai é uma condição humana que está em reciclagem. Resta que as crianças continuam precisando de referências sólidas e confiáveis. Elas nascem sempre mais espertas: precisam de mães e pais à altura!


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