06/09/2009

Escolhas: quando o bem é Bem e o mal é Mal?


Adriana Tanese Nogueira



Querer fazer o bem é algo diferente de efetivamente fazê-lo. Não só porque desejar uma coisa não é o mesmo que realizá-la, como porque é preciso identificar o que realmente é bem e o que é mal. Pois nem sempre esta distinção está clara.

Concordamos que bem é o que faz bem; e mal, o que faz mal. Agora, a questão é: faz bem para quem? Para mim? Para você? Mas para o quê exatamente de mim e de você? A resposta não é tão óbvia como parece. Há uma floresta intricada de interesses, desejos e problemáticas que torna difícil encontrar o caminho certo. Sim, porque em cada situação, há um caminho certo. Pode não ser o mais fácil ou esperado, mas existe.

Transportamos essa questão para as crianças e iremos visualizá-la melhor. Quem é pai e mãe sabe que há desejos infantis aos quais devemos dizer não, assim como há obstinações que devem ser quebradas. Pais sabem que nem sempre o que a criança considera um bem para si o é de fato. Nesse caso, eles devem negar esse “bem”, e fazer o que a criança considera um “mal”, mesmo a custo de escândalos e lágrimas.

Por que nos damos o direito de contrariar, de forma, às vezes, tão antipática, o que nossos fihos querem? Porque sabemos que eles não têm uma visão suficientemente informada e profunda das coisas para terem noção do que realmente é bom para eles e do que não é. Confiamos que nossos conhecimentos e valores sejam suficientemente amplos e corretos para orientar nossos filhos. Supomos que as crianças não enxerguem o conjunto dos elementos envolvidos em uma escolha. Isto porque, no geral, elas estão focadas em seu prazer imediato e baseam-se num conhecimento restrito da realidade. (Isso, entretanto, não é regra. Há crianças mais evoluídas do que seus pais que sofrem por serem diferentes do que se espera delas e por terem que encaixar-se no perfil reduzido que seus pais lhes impõem.)

Imediatismo e visão limitada não necessariamente cessam com a idade adulta. Por vários motivos. Em primeiro lugar, porque, infelizmente, tende-se a estancar numa identidade adquirida e parar por aí. Os valores absorvidos na infância e adolescência não são questionados ou renovados com o passar do tempo. É inevitável que, por ser a realidade e os saberes maiores do que o indivíduo e, ainda por cima, em constante movimento, a pessoa que não se renovar ficará para trás, mesmo que não o perceba.

Além disso, qualquer horizonte de conhecimentos que tivermos é, por definição, menor do todo. Por este motivo, mesmo com as melhores intenções e uma afinada consciência permanecemos sempre um pouco presos ao imediatismo (“o bem que me agrada agora”) e ao conhecimento restrito de circunstâncias e razões (porque estas englobam tudo o que somos, fomos e seremos).

Para completar e sobretudo, pelo fato de sermos indivíduos em evolução, nosso bem e nosso mal estão relacionados à inteireza que vamos manifestando, mas esta só poderá ser revelada conforme formos vivendo e expressando-nos (ver para isso James Hillman, “A Semente do Carvalho”). Não há como sabermos quem somos sem termos experimentado a vida, feito escolhas, aprendido com elas e tomado caminhos sempre mais alinhados com o que, de fato, somos.

Este processo, que se chama em psicologia junguiana, de individuação, é uma contínua descoberta de si próprios, literalmente uma revelação. Se assim não for, não estamos no caminho certo. Porque não se trata de algo que podemos saber antecipadamente, muito menos algo que podemos planejar com base em nossos desejos racionais. Quantas vezes não se troca de faculdade ou de profissão no meio do caminho? Quantas vezes não se muda de amigos, namorados ou ambiente porque houve uma tomada de consciência do que somos e do que não somos (e nunca seremos)?

Infelizmente, por causa da cegueira típica do ego não consciente, e com mais frequência do que parece, nos norteamos baseados não em argumentos fundamentados mas em racionalizações; não em conhecimento, mas em crenças e desejos pessoais mascarados de “verdades”. E, para completar o quadro, desprezamos na avaliação da situação elementos não racionais. Isto é, não levamos em consideração o que sentimos, o que intuimos e o que percebemos nas entrelinhas.

É esta parcialidade interesseira e, geralmente, inconsciente que leva à confusão entre o que é bem e o que é mal.

Para não ficarmos presos nas armadilhas de nossos próprio ego, por mais aperfeiçoado que ele seja, a única solução é fazer uso do que se sente e não só do que se pensa. Se não é sempre possível saber de antemão o que é bom, é possível porém, pressenti-lo. Isso, naturalmente, se tivermos interesse em desenvolver transparência e honestidade conosco.

A inteireza se manifesta através do sentir. E é por este motivo que pode acontecer das crianças “saberem” mais do que seus pais, já que não estão (em geral) poluídas com argumentos baseados em hábitos, preconceitos e nos próprios medos dos pais. Quanto menos fantasias a pessoa tiver na cabeça mais claramente sentirá qual é seu caminho, ou seja, qual é o bem e o mal para ela. Às vezes, não é mais do que um perceber sem saber, um dirigir-se às cegas. Mas, se vier da inteireza do ser, o sentir é provavelmente certeiro e lhe se deve dar uma chance.

Melhor errar porque se seguiu o próprio sentir profundo do que errar por ter aceito a liderança de preconceitos e medos, ou das conversas dos outros.

3 comentários:

  1. Amei o post como um todo, mas especialmente este pedacinho aqui: "Se não é sempre possível saber de antemão o que é bom, é possível porém, pressenti-lo. Isso, naturalmente, se tivermos interesse em desenvolver transparência e honestidade conosco. "

    Ser honestos conosco mesmos é MUITO difícil. Mas MUITO valioso.

    ResponderExcluir
  2. :-) Pois é. Sem isso o argumento todo cai!
    Beijo!

    ResponderExcluir