15/09/2009

A relação entre liberdade e estereótipos

Adriana Tanese Nogueira


Ter uma relação é uma das coisas mais difíceis. Digo uma relação de verdade, não um jogo de partes entre personagens de uma fantasia que criamos na nossa cabeça.

Somos seres vivos. Isto quer dizer que estamos em perpétuo movimento. A vida é movimento: movimento de idéias, sentimentos, percepções, sensações. Tudo muda, não só à nossa volta, como sobretudo dentro de nós. Ter uma relação enquanto seres vivos significa incluir a mudança, o cambio de visão e de perspectiva. Duas pessoas em movimento, dois seres vivos que se relacionam estão numa constante situação de desafio.

Este desafio pode ser extremamente interessante e animador quando o movimento do outro está em sintonia com o nosso, porque desta forma nosso próprio movimento é estimulado, e dele surge a alegria. Duas pessoas assim sintonizadas podem fazer aflorar e desabrochar a personalidade uma da outra, encontrar pontos de contato e de diferença que somam, que levam ambos a ir mais adiante, ultrapassando limites auto impostos ou nunca questionados antes. De fato, quanto mais criativa e libertadora for a experiência nesse tipo de relação mais forte será o apego à outra pessoa. Nos dizemos apaixonados. Amamos.

Por outro lado, relações são desafios perigosos para quem teme o movimento, para quem tem questões importantes não resolvidas dentro de si que só não perturbam demais se tudo permanecer “parado”. Essas pessoas têm um margem de movimento limitada, portanto devem manter o controle sobre o que acontece, sentem, pensam. Tudo o que entra em suas cabeças e em suas vidas deve estar dentro dos conformes, caso contrário se arrisca uma crise séria.

Para proteger-se da abertura que uma relação de verdade requer, são então usados estereótipos, poses e frases prontas. Encaixotamos a nós mesmos a aos outros num clichê e através desta imagem, parada e fixa, nos relacionamos. Fica muito mais fácil assim, elimina-se tudo o que é desconhecido, questionável e questionador. E, ao mesmo tempo, mantem-se a relação!

Pessoas estereotipadas tendem a estereotipar os demais e a afastar os que não são facilmente estereotipáveis, os que podem surpreender, contrariando sua busca de controle. Criam-se fetiches ou bonecos que podem ser positivos ou negativos, dependendo de que o outro representa para nós; o importante é que sejam imutáveis. Assim, podem sossegar e permenecer no aconchego de sua velha poltrona mental gasta, sem ter que se questionar, duvidar, pensar e repensar... mudar!

As poses são as moedas de troca entre estereótipos. São comportamentos, gestos e palavras codificados com o intuito de obter uma determinada reação. As poses, como os estereótipos, escondem quem a pessoa realmente é. Indivíduos que assumem poses não estão se relacionando de verdade com ninguém, são como vendedores de si mesmos. Nunca se sabe quem é o indivíduo por trás de suas palavras.

Frases prontas são o corolário das poses e dos estereótipos, como num palco onde o ator tem um roteiro a seguir. Determinadas palavras e slogans servem para corroborar seu personagem, são pistas para referenciar o modelo do qual provêm.

Como peças de roupas, os estereótipos podem teoricamente ser trocados ou abandonados. Infelizmente, a maioria deles são vestidos desde quando a pessoa era um bebê grudam, confundindo-se com sua própria pele. Ao crescer, a pessoa já não sabe mais o que é pele e o que é roupa e acaba acreditando piamente no vestido desbotado que usa.

Quando mais rígido for o estereótipo mais atravancadas as relações que produzirá. Pessoas com poses têm uma gama limitada de ações, atitudes e pensamentos possíveis. Tendem também a ser bastante previsíveis e esperam dos outros o mesmo estilo que oferecem. São como potes pequenos, não cabe muita coisa, o que sobra é jogado fora. Portanto, permanecer numa relação estereotípada, leva as duas pessoas a nivelar-se segundo o nível da mais estereotipada delas.

Isso é particularmente triste na relação com as crianças. Bebê são frequente e facilmente estereotipáveis porque não podem se defender nem argumentar. Se choram são etiquetados como manhosos, se recusam a chupeta como teimosos, se acordam à noite mais do que o esperado, como agitados e problemáticos. Sem advogados defensores, os bebês, a fim de sobreviver, devem resumir-se ao aceito pela família na qual nasceram.

Relação é, ao contrário, prestar de verdade atenção ao outro, postulando que o outro é uma caixa de surpresas, cheia de coisas interessantes que esperamos por conhecer. Mesmo quando dá trabalho, o outro vale a pena porque a relação com ele nos enleva e faz crescer, e isso é um ganho direto que podems averiguar imediatamente. Chama-se amor.

8 comentários:

  1. Querida Adriana, poderia escrever um texto sobre "Apego"? Estou apegada a um relacionamento que foi ruim, apegada a um ex-namorado egoísta, estereotipado, grosso e que me diminuía frequentemente. No entanto, quando ele terminou comigo meu mundo caiu. Por que considero esse ser a fonte da minha felicidade??? Vejo uma força e um poder nele ilusórios, mas... Como me libertar dessa ilusão? Já identifiquei os defeitos terríveis dele, mas como incorporar isso DE FATO ao meu coração e SENTIR DE FATO que mereço uma vida melhor? Só o tempo irá curar? Desde já muito obrigada.

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  2. Escrevi o artigo, está aqui: http://www.psicologiadialetica.com/2012/12/apego-por-que-nos-apegamos-relacoes-que.html

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