21/09/09

Ser bons, não bobos


Adriana Tanese Nogueira


Muitos de nós queremos ser bons, ora porque se acredita na bondade como valor, se quer um mundo melhor e por isso se age conforme o critério da bondade; ora porque, simplesmente, se tem um coração bom e não se sabe ser diferentes.

O que é ser bons? É tratar os outros com carinho, ajudá-los quando precisam, preocupar-se. É pensar neles e não só em si. É considerar suas necessidades, inclui-los, ser tolerantes, generosos, pacientes. É relevar, deixar para lá, é calar, esperar, acreditar, confiar. Mas, em que medida tudo isso funciona?


Nem sempre temos os resultados esperados. Muitas vezes os outros nos decepcionam, nos tiram energias e tempo preciosos, nos cansam, nos jogam para baixo. Traem nossa confiança, nos abandonam ou não reconhecem o que fizemos por eles. Não nos compreendem e nos deixam com a sensação de sermos os errados da história. Nos tornamos amargos e resolvemos que “não vale a pena”. Daí em diante, tendemos a não ser “tão bons” como antes. Acabamos por nos sentir “bobos”, enganados, traídos. E aquela bondade inicial, ao longo de muitos anos, se transforma em tristeza e em desconforto com relação a nosso próprio coração.

Antes de chegar à conclusão que os outros são “maus” e não merecem, vamos tentar entender melhor as condições da bondade, clarear um pouco esse coração “bom”. Por causa da esquizofrenia existente na psique ocidental, mente e coração não se conversam. O que a mente pensa o coração não considera, e vice-versa, o sentimento segue em frente mesmo que o pensamento tenha outra visão.

Em primeiro lugar, a bondade deve ser um sentimento espontâneo e verdadeiro. Não pode estar vinculado ao medo de não sermos amados, porque então estragamos sua essência, e perdemos credibilidade aos nossos próprios olhos. Como vamos poder confiar em nossos sentimentos se escondem camadas de ambiguidade? Quando somos bons com os outros, devemos sê-lo livres de interesses ocultos. É porque gostamos dele e do que fazemos, sem expectativas de recompensas.


Isso nos leva, em segundo lugar, a distinguir entre as pessoas, o que pode parecer um absurdo para o “coração bom e puro”. Mas a verdade é que é irreal uma pessoa gostar de todo mundo da mesma forma e sempre. Ser bons não pode ser uma imposição moral, seria hipócrita. Ninguém gosta de todo mundo, nem podemos esperar que todos gostem de nós. A individualidade de cada um dá aquela unicidade que, por força maior, não pode combinar com todas as outras da mesma maneira. É normal, e não se deve temer isso. \

Por outro lado, os que não amamos não precisam ser tratados mal. Eles deve ser abordados com o que se chama de civilidade e educação. Tratá-los com amizade e simpatia seria falso. Não precisamos nos sentir culpados e fingir simpatia. Civilidade e educação é cortesia sem envolvimento sentimental. É respeito pelo ser humano, sem relação com quem ele é. Aprender a fazer isso, não só nos poupa da hipocrisia, como melhora enormemente a qualidade geral das relações sociais.


Em terceiro lugar, ser bons não é acatar a vontade do outro, dizer sempre sim, servir e agradar. Isso os escravos o fazem, pessoas que não têm direito à própria invidualidade, privacidade, pensamento, desejo e preferência. Indivíduos livres não dizem sempre sim, pelo simples motivo que seria falso, contrariando a singularidade de cada um. Como dizia minha muito religiosa avó Pasqua, “eu também sou filha de Deus”. Se os outros podem por que eu não?

Para finalizar, acontece de, muitas vezes, ser o prazer de saber-se “bons” que conta. Há uma gratificação, um sentimento de superioridade camuflado pela “mística” da bondade que é o que realmente interessa à pessoa. Ela sente-se tão “de bem consigo mesma” que não importa, na verdade, o que faz, desde que isso seja considerado “bom” pelo senso comum. Nesse caso, é o gostinho de satisfação que o ego recebe por vestir-se de “bondade” frente aos outros e ao seu Deus que interessa. Ser bons não é ser um “eleito”.

A bondade de verdade não é nada disso tudo, e aí talvez iremos concluir que ela não é tão difusa como gostaríamos.

Em primeiro lugar, a verdadeira bondade inclui o fazedor e o recebedor. Fazer bem ao outro e mal a nós mesmos, afora as cenas heróicas e românticas que vemos em filmes, lendas e mitos, é um estúpido. Sendo realistas, masochismo não pode combinar com bondade. Nesse caso, o que acontece não é da pessoa ser “incrivelmente boa”, mas dela ter uma auto-estima tão baixa que não ousa levantar suas próprias necessidades.

A bondade que faz bem ao fazedor e ao recebedor é aquela que os faz crescer em quanto pessoas humanas. A bondade, mesmo quando implica num sacrifício, pode estar contribuindo com o processo de individuação tanto do fazedor quanto do recebedor. Ela deve estimular a autonomia, auto-estima, livre expressão, sinceridade e dignidade dos dois. Por isso, é preciso observar o que estamos apoiando no outro: seu sentimento de capacidade e auto-estima, ou, ao contrário, aumentamos a dependência e o vitimismo?

Em segundo lugar, a bondade deve ser eficaz e objetiva. Se quisermos de fato ajudar aos outros, precisamos prestar atenção em quem temos na frente e do que precisam. E aqui entra uma questão importante que se teme: a discriminação. Nem todo mundo “merece” ajuda. Às vezes, são eles que precisam dar o primeiro passo, que precisam se mostrar merecedores. Nesse caso, ajudamos dizendo “não”. Ou então, mostrando-lhes que estaremos com eles assim que se levantarem do buraco onde se encontram. Isso por uma questão pedagógica básica. É tão fácil se acomodar! A ajuda deve servir para proporcionar uma melhora real e duradoura. Ser bons é um ato de força moral não uma fraqueza.

Há situações, entretanto, em que acontece o contrário. É preciso dar aquela mão inicial para que a pessoa se levante e tenha forças para prosseguir. Aí, ser bons é atender ao pedido de emergência com generoso bom senso, e acompanhar os demais passos até a pessoa estar firme em suas próprias pernas.

Outras vezes, acontece uma coisa desse tipo: a pessoa quer ajudar alguém de quem gosta. Investe nela seu tempo, energias e dinheiro, às vezes durante anos. Se o outro não sair do lugar, porém, é preciso reavaliar a situação, sem sentir-se derrotados ou culpados. Há “fazedores de bem” que não se dão paz e insistem, transformando a bondade incial em teimosia pessoal. Aí o que está em jogo é a necessidade do ego de demonstrar que tinha razão em acreditar na tal pessoa. Ser bons é saber humildemente aceitar os limites.

Assim como não podemos esperar que uma criança da primeira série resolva uma equação de trigonometria, há pessoas que ainda não têm as condições para realizar algumas etapas da vida. Não é porque elas são “más”, mas porque não cumpriram o caminho para estar prontas para o que esperamos delas. Infantilmente, elas podem até querer, mas a verdade é que o amadurecimento mental e emocional é processo que não tem atalhos. Faltou crescimento prévio para aproveitar a ajuda. Com essas pessoas, ser bons significa reconhecer o que elas podem fazer e ajudá-las dentro de suas condições, sem desperdiçar energias tentando encher um pote mais do que ele é capaz de conter. Ser bons é ser sábios.

Muitas vezes, o que possuímos, em termos materiais e psicológicos, foi o resultado de um enorme trabalho, que devemos respeitar. Dividir nossos ganhos e conquistas com os outros é uma qualidade humana que nos enaltece e torna nossas vidas mais bonitas e dignas. Mas deve ser feito sem desvalorizar o que conseguimos pelas nossas próprias forças e à muitas custas. Ser bons é ter o coração forte.

Precisamos ser sinceros conosco, e realistas quanto aos destinários do nosso bem. Existem pessoas no mundo precisando da nossa ajuda verdadeira, para os quais aquilo que muitas vezes despejamos inutilmente por aí seria uma benção, uma alegria imensa. Muitas delas estão logo debaixo do nosso nariz e não as vemos ou não achamos que temos tempo para elas. As nossas energias, como as delas, são limitadas. Usemo-as com responsabilidade para, efetivamente, aumentar o Bem à nossas volta.

4 comentários:

  1. Marvilhoso seu texto. Li recentemente um livro do tambem terapeuta, Flavio Gikovate, ( O Mal, o Bem e Mais Além) e ele tocava também nessas questões: da vaidade daqueles que se dizem os do Bem. E do egoismo declarado ( e sem hipocrisia) daqueles que são do Mal. E da dança que se estabelece entre pessoas nessas duas categorias e como a vaidade de uma realimenta o egoísmo da outra e resulta em relacionamentos desagradáveis e castradores para todas. Excelente. Amei. Obrigada
    Silvia Dutra / Sinhá Clementina (www.causosdavidalheia.zip.net)
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  2. É Silvia. Precisamos superar os estereótipos morais de matriz cristã e entrar na carne viva da vida. Quero dizer: o ideal do bem deve encontrar-se com o que realmente sentimos e esse sentir deve ser livre. Aí vamos ter uma reação ética positiva.
    Beijo
    Adriana
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  3. Olá, Adriana. Devo admitir que seu texto é ótimo e verdadeiro. No entanto, ao ler outros textos seus percebo certa apatia não apenas ao Cristianismo, mas ao pensamento religioso. Daí, gostaria de perguntar: será que o pensamento e ideologias humanas são hábeis para responder e resolver todos os nossos dilemas e apontar sempre a melhor saída? Posso estar errado, admito, mas, as vezes, você repassa certa decepção religiosa.
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  4. Claro que não, "UFPE". Longe de mim de acreditar que ideologias (!) possa resolver o dilema humano. Muito menos acredito que a racionalidade possa assumir a liderança. Mas certamente, as religiões instituicionalizadas, os dogmas e credos de fé não saciam a alma em profundidade. Isso há Jung falava 80 anos atrás. Não é novidade. A experiência religiosa, ou espiritual, ou não racional mas cheia de sentido, só funciona quando é espontânea, individaul e interior. Não se vende em supermercados, nem os da fé.
    Abraços
    Adriana
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