25/10/2009

Almas Sensíveis: Vivendo e Aprendendo



Adriana Tanese Nogueira



Dedico esse texto à minha família
e a todas as almas sensíveis
que sabem quem são
e querem continuar sendo o que são.
Que bom que existem!



Era uma vez as almas sensíveis. Elas pensam duas (ou dez) vezes antes de perturbar o próximo. São as que observam o mundo à sua volta e só depois se lançam nele. Não gostam de papagaiar lugares comuns que tanto agradam a certos ouvidos. Elas precisam se sentir realmente à vontade antes de agir. As almas sensíveis tendem a parecer tímidas, certamente são introvertidas. E isso lhes causa um monte de dificuldades.

Era uma vez as almas gentis. Entram nesse mundão e demoram um tempo para se enturmar. Não são dadas à confusão, não entendem bem o jogo que rola há tempo e sequer querem entendê-lo direito, lhes parece barulhento demais para o seu gosto. As almas graciosas são susceptíveis à beleza e harmonia; consequentemente, sentem-se muito incomodadas diante do que é sujo e bagunçado.

Era uma vez as almas delicadas. Quando é hora de integrar-se no mundo e buscar seu lugar, as almas delgadas são facilmente postas de lado por mãos distraídas ou interesseiras. Tropeça-se sobre elas ou as se desconsideram, dá-se passagem a outrem. Raramente são valorizadas publicamente, pois num mundo rumoroso e escandaloso, só os alvoroçados têm seu lugar garantido.

Era uma vez as almas amorosas. Elas tendem a pedir licença quando passam. Por considerarem seus semelhantes como seres humanos, esperam receber o mesmo tratamento. Com diligência, fazem seu trabalho, são bem intencionadas e sinceras. Ingenuamente, imaginam que suas qualidades serão reconhecidas, apesar de terem conhecimento de suas humanas imperfeições. Elas nutrem o sonho rosado que basta amar para ser amado.

Era uma vez as almas sensíveis que espatifaram a cara no duro asfalto da estrada da vida. A película terminou, a sala se iluminou, holofotes escancaram a visão. Há todo tipo de ser em volta. As almas sensíveis descobrem que não são todos como elas. Há os espíritos de porco e outros amarrotados como papel alumínio sobre seus próprios problemas que mal enxergam os demais. Há os meramente egoístas e os puramente gananciosos, e há os imaturos que fogem dos problemas como o diabo da cruz. Há os interesseiros e espertalhões que agarram tudo o que encontram no caminho, e há os que estão no be-a-bá da existência e mal sabem seu próprio nome.

As almas sensíveis então abrem os olhos. Sendo sensíveis, elas são também inteligentes. Resolvem usar seus companheiros de viagem como mestres. Dos cobiçosos elas aprendem a firmar o pé e proteger seu território. Dos espertalhões aprendem a avançar mesmo que a cotoveladas, porque há gente que não atinou que o mundo não é propriedade delas. Dos prepotentes aprendem a desafiar sem medo; dos falsos incorporam uma saudável cara de pau. Dos egoístas apreendem a arte de fazer seus próprios interesses. Dos atordoados assimilam que nem de todos se pode esperar alguma coisa. E dos espíritos de porco aprendem a suprema lição: a engrossar a casca.

As almas conscientes assumem seu lugar quando o tomam para si. Não esperam boas vindas ou prêmios. Não sonham com aplausos e reconhecimentos. Sabem quem são e fazem o que lhes parece certo. Ninguém irá fazê-lo em seu lugar. Sem perder a sensibilidade, as almas genuinas pegam o que merecem. Entenderam que elas têm o poder de autorgar-se o sagrado direito a Ser.

Em tempos ásperos e nebulosos, quem possui alguma luz (inteligência e amor) há de reconhecê-la por si mesmo e tem a obrigação de fazê-la brilhar, e pronto. Dispensa-se o convite alheio. Não estamos no mundo ideal. Ao invés de lamentar-se, chorar ou beber, ao invés de perder a ternura e virar um autômata amargurado, vestir a camisa e jogar no time adversário, por que não ser sagaz e melhor?

As almas sensíveis, porque querem permanecer vivas e resplandecentes, se autoempoderam, sem cerimônias e sem clamor. Porque é justo e necessário. E, sobretudo, é para já.


5 comentários:

  1. Lindo texto querida! Te conheci pela REBRA, adorei. Me identifiquei aí com vários trechos sobre os tipos de almas. Fiz terapia durante 2 anos e não resta dúvidas de que o autoconhecimento é um divisor de águas na vida de uma pessoa. Tudo ficou melhor... portanto não quis fazer parte do grupo dos imaturos, que foge da solução dos problemas. Parabéns! Seu trabalho está lindo.

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  2. Obrigada! Fico feliz por estar representando algumas belas pessoas... É isso aí, está na hora de todos se auto-conhecerem e virarem gente! Grande abraço
    Adriana

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  3. Joguei "almas sensíveis" no google e vim parar aqui no seu blog... Agora que vi a data, mas seu texto é excelente. Era bem o que eu precisa ler hoje. Parabéns, é lindo mesmo. :)

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