06/10/2009

Maus, antipáticos e desagradáveis


Adriana Tanese Nogueira

Há inúmeros sujeitos que preenchem as características do título acima; todos conhecemos um bocado deles. Mas não é desses que quero falar. Sendo psicoterapeuta e filósofa, e não política ou socióloga, vou por o dedo em outra ferida. Acredito que, libertando a psíque das correntes que a prendem, obtém-se o que todos queremos, um maior bem estar pessoal e, de quebra, um mundo melhor.

Ser acusados, na cara ou pelas costas, de sermos “maus, antipáticos e desagradáveis” é algo que fere a autoestima de qualquer um, e tem o efeito de baixar nossa imunidade psicológica, tornando-nos alvos passivos de qualquer crítica, mesmo quando infundada. Essa experiência de rejeição explícita à nossa pessoa é como uma ferida aberta que facilmente se infecciona, debilitando-nos para reagir pronta e saudavelmente perante os acontecimentos da vida.

O sentimento de rechaço tende a perdurar por anos e, pior, pode tornar-se elemento constitutivo da formação psíquica de uma pessoa. O indivíduo se convence que tem tratos negativos em seu caráter e que os deve aguentar como destino, como se aguenta uma perna manca que fatalmente se arrasta pelo caminho. Encarna-se essa convicção e a se repercute pelo mundo afora nas relações com os outros, mostrando-nos como “maus, antipáticos e desagradáveis”, e tachando assim todos os que de alguma maneira se parecem conosco. Naturalmente, essa atitude será tanto mais intensa quanto mais íntimas forem nossas relações, atingindo sem piedade particularmente filhos e companheiras/os.

Valores morais são decisivos na formação do caráter. Saber-se falho, manchado pelo “mau” é algo que não se esquece. Geralmente, as pessoas não têm à disposição outros pontos de vista na hora em que mais precisam, sendo incapazes, portanto, de se enxergar e se interpretar de formas alternativas. Assim, a senteça emitida inicialmente por um familiar ou grupo significativo, é assumida em primeira pessoa e o indivíduo se transforma em seu próprio eterno juíz.

Agora, sacudimo-nos dessa hipnose e observemos: quem falou para quem?

É relativamente fácil, hoje em dia, comprender que a história foi, e continua sendo escrita, pelo vencedor, o qual “tem sempre razão”. Conscientizar-se disso, leva a tomar certo cuidado quando se estuda os fatos do passado (isso chama-se Historiografia). Quem os escreveu está contando sua versão da história. Portanto, por exemplo, ao ler sobre a colonização portuguesa, espanhola, inglesa, italiana, francesa e olandesa deve-se ter um olhar crítico, e não acreditar na suposta “maldade” traiçoeira dos nativos que esses povos conquistaram. Pega-se com as pinças as acusações de que se trataria de gentes inferiores em moralidade e civilidade; ao invés disso, se juntam mais informações e se pesquisa com mais profundidade os fatos, no caso se deseje realmente compreender o que aconteceu.

Difícil é adotar esta atitude quando se trata de nós mesmos ou de pessoas queridas próximas. De fato, a compreensão de um fenômeno fica borrada quando existe afetividade inconsciente entre nós e o que queremos entender. Os equívocos aumentam quando sentimos nossa auto-estima sendo atacada. Entretanto, mesmo em meio à neblina da consciência confusa, existe um instinto que grita lá de dentro, há uma rebelião interna que pode balbuciar ou esbravejar palavras incompreensíveis, mas que devemos ouvir – se quisermos adquirir um mínimo de saudável objetividade.

Quando as críticas externas são construtivas mas dolorosas, a rebelião interior frequentemente representa a tenacidade do ego encardido que não dá o braço a torcer. Mas se a crítica externa for baseada em estereótipos e estiver voltada para a criação e manutenção de um monopólio que nos exclui, a voz interna é o grito sagrado de justiça e liberdade. Se o recalcarmos, transformamos a crítica em cheque mate e permitimos estupidamente nossa derrota.

Desenvolver uma consciência reflexiva mesmo quando dói é indispensável para distinguir o que está de fato acontecendo. Primeiro, é preciso prestar atenção em quem é o acusador. Depois, reparar não só no que fala, como também em sua condição, lugar e propósitos. E perguntarmo-nos, afinal: em qual jogo estamos?

Há vários tipos de “jogos”: desde as lobbies corporativas, que excluem quem não topa suas transações, independentemente se éticas ou antiéticas; aos silêncios e segredos que devem ser preservados, mesmo à custa de injustiças e dor.

Há o jogo do casal, onde ela faz o papel de passiva e gratificante receptora da personalidade dele, e ele de chefe da casa, mesmo quando não sabe distinguir o joio do trigo. Em paralelo e nos bastidores, atuam as invisíveis artimanhas dela, que cala uma coisa, fala outra, sorri para uma, ignora a seguinte, dando os sinais silenciosos para o comportamento dele, e dirigindo-o com o telecomando como se dirige um carrinho para crianças.

Há os jogos de família, onde pais permanecem cegos e surdos aos filhos, suas necessidades, sua privacidade, seu respeito e amor próprio; mas, por serem pais, ou velhos, ou doentes, “têm sempre razão”. É “mau” o filho que não reconhece o “amor” que recebe de um pai ausente e desrespeitoso, mas pai; é “mau” o filho que não atende a todas as exigências de uma mãe insatisfeita. E, viceversa, há os jogos familiares onde crianças tirânicas, inseguras, mimadas e egoístas dominam pais “amorosos”, onde amor é dizer sempre de sim e, tendo perdido valores essenciais, usar a gratificação material imediata como suprema bíblia.

Existem as amizades baseadas em interesses comuns (futebol, cerveja, shopping, ginástica, dinheiro, fama, trabalhos, religião, ideologias...). Estas se mantêm em vida na medida em que cada indivíduo preenche todos os requisitos tacitamente exigidos pelo grupo, incluindo a hipocrisia quando necessário.

Em suma, a verdade é que todo indivíduo que ousa sair do trilho é marcado como “mau, antipático e desagradável”. Com frequência, a pessoa desvia do caminho desejado não intencionalmente, mas porque “nasceu assim”; ela adota espontaneamente esta ou aquela atitude, e só descobre o imenso “mal” que fez pelas infelizes reações alheias.

Para muitas pessoas não é agradável conviver com alguém que tenha idéias, estilo de vida e escolhas diferentes. O incômodo nasce do fato que a presença da diversidade torna nossa posição relativa, o que não seria problema algum, se nossas escolhas fossem livres e conscientes. Mas, no caso delas serem o resultado de uma auto-repressão e/ou de uma falsa atitude de base, ambas as coisas provocando muita tensão interna, ter alguém ao lado que contradiz com seu modo de ser nossas “escolhas”, é altamente desestabilizante. Essa pessoa deve ser eliminada. Ela é desagradável, pois está, mesmo sem querer e falar nada, emitindo um convite implicito para libertarmo-nos ou revelando silenciosamente nossa hipocrisia interna.

Há outros que não suportam pessoas que não reagem aos eventos da vida da mesma forma que o grupo, ou não administram os negócios segundo seu estilo. Esses são os antipáticos, eles não se solidarizam com os mesmos assuntos, posturas, atitudes, piadas e formas de encarar os fatos que o grupo assumiu. Eles também devem ser rejeitados. Não se encaixando, não servem para “apoiar” o grupo e sua política; são considerados detratores, contrários à causa, enfim, antipáticos. Devem, portanto, ser excluídos.

Enfim, há os maus. Esse são sentenciados ao banimento por uma maldade essencial: a de querer ser fieis a si mesmos e agir com consciência. Nesse, como nos outros casos expostos, a obtusidade intelectual e emotiva do grupo (seja ele família, círculo de amigos, de trabalho, de igreja, de partido, etc.) não permite diferentes opções. Sem o dialogo, que promoveria o desenvolvimento de todos, não resta que rejeitar o “mau”. Ele é “mau” para a “saúde” do grupo, “mau” para seus objetivos, estratégias, meios, valores, e etc. No final das contas, talvez, os “maus” se conhecessem essas pré-condições optariam por não entrar num grupo desses.

Concluindo, entre os “maus, antipáticos e desagradáveis” é possível encontrar as pessoas mais interessantes, criativas e de vanguarda de nosso tempo. Isso, naturalmente, se elas não tiverem sucumbido ao feitiço que lhes foi lançado, acreditando na visão, que os que se sentem ameaçados, têm delas.

11 comentários:

  1. Bravo, bravo, bravíssimo!!! Adriana, você escreveu com propriedade e exemplificando por variados ângulos, a essência da hipocrisia humana nas relações, na sociedade e suas graves consequências. Certamente a ciência e a percepção desses jogos todos é o diferencial para que os "maus, antipáticos e desagradáveis" não sucumbam e tenham a verdadeira percepção de si perante os "acusadores" e para isso você contribui muito com seu texto e com seu trabalho! Parabéns, você é essencial e pioneira!

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  2. Obrigada, Carla! Devo dizer que juntei o conhecimento à vasta (!!) experiência pessoal no assunto :-))
    Beijo
    Adriana

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  3. Hahahaha!!! Entendo perfeitamente! Mas como diz o velho ditado, "o que não me mata me fortalece"! Você está vivíssima querida! Beijos!

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  4. Sensacional o seu texto ! Veio mesmo em um momento em que tenho de lidar com essa pecha de incoveniente, chata, justamente por tentar ser eu mesma, seguir meu caminho, meus valores.
    Como é bom saber que não sou "anormal" "transviada". Obrigada pela seu texto que descobri no blog Náugrago da Utopia.

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  5. Oi Patrícia, que legal, vc veio do blog Náufrago da Utopia! Siga em frente e de cabeça alta.
    Abraço
    Adriana

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  6. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

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  7. Deletei por engano o comentário de Marcos Malacarne: Obrigado por compartilhar essa preciosa luz!

    Obrigada por seu feedback, Marco!

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  8. Olá Adriana. Sou literalmente o antipático acima. Levo esta pecha a anos e não consigo desvencilhar. Minha personalidade é muito forte e enfrento crises por isso. Venci uma depressão praticamente sozinho e isso só me diferenciou ainda mais. Muitos dizem que olhar na minha cara incomoda! Estranho que na hora do aperto, até os "inimigos" confiam em mim e vem depositar suas frustrações junto a mim.
    Não sei enfrentar muito bem a situação pessoal na maioria das vezes e tem me atrapalhado profissionalmente. Já fui demitido ouvindo: Você é inteligentíssimo, perfeito em tudo, mas intragável!

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  9. Eu estou passando por algo muito parecido já faz 1 ano e 4 meses, e isso esta acontecendo no meu local de trabalho, tenho como colega de serviço uma senhora de quase 50 anos que atrapalha muito minha mente, tudo é errado, minhas ideias não convém, nunca sei oque digo enfim no meu respeito ensinado pelos meus pais sempre levo rosas e recebo muitas pedradas, sinto que isso esta me afetando uma vez que trabalhamos sozinhos, chegamos ao ponto quando ela começou não só a me encantoar mais passou a colocar o dedo na minha cara literalmente para tudo.
    Eu acho isso muito chato e acredito que ela nao pode me transformar igual a ela, poque quanto mais arrogante e antipatica ela seja eu percebo que isso não é pra mim e que não sou assim, ja cheguei a tratar meu irmao como ela me trata, ele me fez uma pergunta e respondi com desdém, coisa que nunca tinha feito e nunca pensei em fazer com ele.
    Estou numa sinuca de bico pois além dela ser mulher é muito mais velha que eu e devo total respeito, mesmo porque estou começando minha carreira agora.

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