12/10/2009

A Verdadeira Diferença Entre Uns e Outros


Adriana Tanese Nogueira

Idealmente somos iguais perante a lei (quem sabe um dia chegamos lá?) e biologicamente todos da mesma espécie Homos Sapiens. Temos idênticas aspirações: não há um só ser humano que não deseje sua felicidade. Partilhamos todos, indistintamente, dos mesmos medos (da morte, da dor, do abandono) e dos mesmos anseios (conforto, segurança, amor). Existem, é verdade, diferenças do lado de fora: dinheiro, poder político, lugar na hierarquia profissional e social. Não último, há a força do músculo, que apesar de ser um método primitivo é ainda usado nas relações entre poderosos e fracos, homens e mulheres (sic!).

Entretanto, a verdadeira diferença que, inclusive, sustenta as demais, é de outro gênero. O que de fato conta é o que se chama de consciência, em particular os níveis de consciência. Se existe uma qualquer “hierarquia” humana, ela está aqui.

Por consciência entendo as zonas iluminadas que uma pessoa tem sobre si mesma e sobre seu entorno e relações. O fato de saber-se e compreender o que está acontecendo é ter consciência. A consciência joga luz, iluminando uma região, e não só o que gostamos de ver. O ato da consciência não está vinculado às preferências do ego. Quando se acende a luz de um quarto antes escuro e desconhecido não podemos decidir de antemão o que vai ficar debaixo da luz e o que não.

Iluminar um espaço interior não significa enxergar tudo de nós e do mundo; significa que a zona que foi iluminada está agora susceptível de ser descoberta e explorada. Outras regiões da nossa vida e personalidade permanecem na escuridão. As mais próximas da zona iluminada estarão na sombra, as mais longínquas nas trevas.

O que está na escuridão total, pelo fato de não ser imediatamente visto e sequer entrevisto pela consciência é considerado como “não existente”. O que não teria problema algum, se não fosse sua manifestação subrreptícia, por entre as linhas, seus sintomas visíveis e desconfortáveis (angústia, ansiedade, medos, somatizações, etc.). O resultado é que quando a pessoa não tem acesso à fonte de seus problemas, ela se torna uma vítima e cria vítimas à sua volta sem perceber. Jesus Cristo, pendurado na cruz, disse a Deus: “Perdoa Pai, porque eles não sabem o que fazem”. Sem a consciência das próprias ações, nenhuma punição funciona.

Ter consciência é a conditio sine qua non para que ocorram mudanças para melhor. Num qualquer problema de relação (marido-mulher, pais-filhos, trabalho, etc.), é preciso conscientizar-se do que está realmente acontecendo (por trás de acusões, culpas e sabotagens). Quando se está insatisfeitos com a própria vida, é preciso ir mais fundo e iluminar algo que evidentemente não estamos vendo (porque se víssemos, já teríamos mudado). Para que um profissional modifique sua prática fria e impessoal é necessário antes que ele se conscientize do que está fazendo e das consequências que provoca, ou seja, ele deve enxergar-se.

A resistência à tomada de consciência é um fenômeno psicológico universal. Desde Adão e Eva (ou até antes) sabemos (ou sentimos) que tomar conhecimento tem consequências. São essas que tememos. Adão e Eva após comer a maçã se deram conta de que estavam nus e eram mortais. Não é que antes eles andavam vestidos e viviam eternamente. Estavam tão pelados e eram tão mortais quanto depois, só que não o sabiam. Isso faz toda a diferença.

No mundo de hoje, em que medida podemos nos dar ao luxo de permanecer inconscientes? A intensidade dos conflitos pessoais e coletivos é um sintoma do fato que há algo querendo entrar no âmbito da consciência, há algo que precisa ser visto, tratado, acolhido, elaborado, integrado. A luta do ego contra a tomada de consciência produz o conflito.

Tomar consciência é um ato de discriminação. Ao entrarmos num quarto iluminado veremos com precisão uma cadeira, uma cama, uma mesa, as imagens não são borradas. Isso significa que o que notamos se refere a precisos fatos da nossa vida e personalidade, e não a noções genéricas. A reação esperada é ficar de boca aberta e olhos arregalados, é talvez sentir vergonha ou alívio. Qualquer que seja a reação emocional, a consciência traz a possibilidade de botar as mãos nesse algo e trabalhá-lo, pois consciência é sempre consciência de algo (veja-se, E. Husserl), nunca uma abstração. É somente graças a ela que saimos da condição de passividade e nos tornamos agentes construtores de nossas vidas.

Quanto mais “zonas iluminadas” uma pessoa tiver, maior será seu nível de consciência. Esses níveis se parecem ao “grau de escolarização”: quanto mais se tiver estudado, maior o conhecimento. Um indivíduo poderia, preferivelmente, estudar pela vida inteira. O mesmo vale para a consciência, quando mais se trabalha na própria clareza interna, mais zonas estarão iluminadas e, de quebra, mais clara ficará a visão do que tem fora. A consciêntização é um processo progressivo, que segue um percurso ascensional, espiralado e infinito.

A consciência desenvolvida é uma consciência complexa (veja-se C. G. Jung, S. Montefoschi e Teilhard de Chardin), capaz de fazer interrelações entre fenômenos diferentes da vida psíquica, pessoal e coletiva. Sabe enxergar conexões, vínculos e causa-efeito entre áreas diferentes do pessoal e do social. Discerne entre dimensões diferentes do mesmo fato e, com certeza, sente-se à vontade em relacionar fenômenos do inconscientes com eventos conscientes, fatos subjetivos com aqueles objetivos.

O paralelo com a escola tem seu limite porém, porque é mais fácil pular graus escolares do que dar saltos de consciência. A evolução da consciência é um fenômeno inevitável e irrefreável, mas tem seus tempos e depende da disponibilidade, circunstâncias, coragem, prontidão, etc. de cada um. E aí é que nos enganamos muitas vezes a respeito dos outros.

Foi Silvia Montefoschi quem me iluminou a esse respeito. Sua primeira formação é em biologia, e uma vez, num encontro, ela disse: no reino animal reconhecemos as espécies superiores das inferiores pela forma e complexidade do cérebro. Sabemos que uma ameba é inferior a um macaco e que este é inferior a nós (entretanto respeitamos ou deveríamos respeitar todos os animais indistintamente). No mundo humano, as coisas não são tão simples. Todos temos um cérebro poderoso, duas orelhas, dois olhos, etc., somos bípedes e usamos as mãos... Fisicamente, parecemos todos iguais. Do ponto de vista cultural, temos claras hierarquias, mas uma pessoa instruída pode ser maléfica tanto quanto uma pessoa ignorante. O cultural ainda não faz a diferença que desejamos porque não é ele o x da questão.

O verdadeiro elemento distintivo é o nível de consciência. Se transportarmos as etapas evolutivas biológicas para a realidade da consciência humana, ficará claro. Há pessoas no estágio da idade da pedra: comem (que seja arroz com feijão ou caviar), bebem (que seja cerveja ou champagne) dormem (num barraco ou palácio) e acreditam na força (seja a dos músculos ou a do dinheiro) como base de suas relações. Há os que estão na Idade Média consideram a ordem do mundo imutável e dada por Deus, tudo é vontade Dele, tudo já está convenientemente escrito, há pouco o que fazer, além, claro, de ir à Igreja e seguir suas normas e não fazer muito barulho. Há os Iluministas que acham que pelo poder da razão podem tudo, o resto não interessa; acreditam na Vontade toda poderosa, na lógica e explicam a realidade com o “não é nada mais quê...”. Há os de espírito escravo que não se dão o direito de levantar a cabeça e seguem as autoridades que encontram no caminho, sejam elas charmosas (e manipuladoras) ou truculentas (e reacionárias). E há, inclusive, os que são Iluministas no pensamento e Medievais no sentimento.

Enfim, entre uns e outros, existe um pouco de tudo ao mesmo tempo. Há os que pertencem ao século XXI e os que ainda estão no Reveillon do ano 999...

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