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O FAZ DE CONTA DOS HOMENS


Adriana Tanese Nogueira

É interessante observar como certos homens são peritos no faz de conta. Eles são tão bons nisso que nem eles mesmos percebem que estão fazendo de conta. E aquilo sobre o qual eles mais fingem é não ter são sentimentos ou emoções.

Sentir essas coisas é algo que eles deixam para mães, namoradas, esposas e mulheres em geral. Isolados e afastados do mundo subjetivo, eles se colocam na posição de viver indiretamente e julgar uma parte mais ou menos grande do que as mulheres manifestam. É como se usassem o telecomando, elas vivem, sofrem, reclamam, eles argumenta, julgam e tapam. Mergulhar na vivência, no fogo das emoções, parece que é demais para eles, não aguentam.

Um dos resultados disso é que os homens se submetem a ser eternamente dependentes do feminino externo para acessar seus próprios sentimentos e emoções. Tristemente, essa não passa de uma mutilação psicológica que lhes impede de ser inteiramente humanos. Por outro lado, esse vazio faz com que eles tenham a vantagem de estar “liberados” do fardo dos sentimentos que são pesados, carregados, intensos. E assim parecem fortes e até invencíveis. Também, evita-lhes o trabalho de criar uma realidade para seus sentimentos. Exemplo: ele gosta ou tem saudade de tal mulher; logo, deveria fazer algo para aproximar-se dela. Muitos homens não são capazes disso. O que fazem é criar situações periféricas e secundárias para induzir a mulher a agir, assim não se comprometem e ainda por cima têm faca e queijo na mão: ela se entrega de sua iniciativa.

Este comportamento masculino, que causa tanto sofrimento em ambos os sexos, está fundamentado na divisão psicológica de papeis. Eles são os que pensam e agem, mais frios e práticos; ela são as que sentem, mais emocionais, instintivas e intuitivas. É evidente que hoje em dia as coisas estão mais misturadas, mas estamos ainda longe de ter chegado à próxima etapa evolutiva. A pressão social para que um garoto se desenvolva segundo este modelo psicologicamente mutilado é tão cruel como a das garotas aspirando a ser barbies.

A dificuldade em romper com esta padronização consiste em pelo menos dois fatores importantes. Em primeiro lugar, no fato que a posição masculina é aparantemente vantajosa e ninguém, a menos que se sinta obrigado ou seja um ser mais evoluído, resolve por si próprio descer do trono. 
Socialmente, os homens são avantajados, acho que não preciso exemplificar isso. Culturalmente, sua distância emocional combina com a sociedade de consumo prepontente na qual vivemos, onde o que importa sou eu e meus interesses. Psicologicamente, dá ao homem a ilusão de ser forte. Forte ao preço de recalcar o que o tornaria verdadeiramente humano.

O outro motivo importante é que cada um dos gêneros se torna o que é em função da relação com o outro. Nenhum deles nasceu e foi criado numa sociedade só feminina ou só masculina. A divisão de papeis pressupõe que um faz uma parte e o outro faz a outra – é como num teatro, cada um tem seu papel, sem um dos papeis o outro não se sustenta. Assim, até que as mulheres continuarem a fazer o trabalho de assumir os sentimentos no lugar deles, os homens não precisarão encarar os próprios. Até que as mulheres continuarem a aceitar o faz de conta deles, os homens não precisarão arrancar as cortinas e encarar sua realidade.

Lembro minha analista quando me disse, muitos anos atrás: observa os pombos. O macho paquera a fêmea. O que ele faz? Enche o pescoço e roda em volta dela. O que ela faz? Evita por um tempo. Ele vai atrás. E assim em diante. Ele espera a resposta dela, ela espera a dele. Ambos fazem a mesma coisa há milhões de gerações. Cada um reconhece o comportamento do outro, o tem imbutido em seu próprio DNA. Para quebrar o faz de conta masculino basta então romper o script, não fazer a parte prescrita. O que você faria frente à indiferença dele? Visualizou? Bem, não faça. Faça o contrário. Faça de conta também. Embaralhe as cartas, brinque, bagunce. Difícil? É difícil sim, porque ambos estão na mesma armadilha psicológica. É preciso de muito amor, consciência e maturidade – que muitas vezes se consegue via uma boa terapia! – para conseguir quebrar o ovo e nascer como pessoas verdadeiras.

PS. Livros sugeridos: "O Mito da Masculinidade" de Sócrates Nolasco e "A Profecia Celestina" de James Redfield.

ATNHumanize.com – Holistic Life Coaching

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