26/11/2009

Por que as psicólogas são tão complicadas?

Adriana Tanese Nogueira


Mesmo a custa de atrair o linchamento da categoria, preciso desabafar. E vou falar no feminino sim. Apesar de haver psicólogos homens, esta é uma profissão tipicamente e majoritariamente feminina. A Psicóloga. Como dizer: A Enfermeira. Ridículo seria usar o genérico masculino quando a grande maioria de enfermeiras e de psicólogas é mulher.

Aliás, há aqui uma boa comparação; ambas são profissões de assistência e de ajuda. Só que uma presta um serviço material vinculado ao corpo. Encaixa-se, desta maneira, num trilho ancestral feminino: o serviço para com a vida e a morte. Mulheres assistem partos e assistem moribundos. Parece que são especialmente boas em fazer isso.

Agora, há umas décadas entrou em cena A Psicóloga. Ela também serve, só que serve para o auto-conhecimento e a cura psíquica alheia. Seu trabalho é menos braçal e mais intelecual. Requer menos imediata generosidade, disponibilidade, coração e paciência. Nem por isso é mais fácil. Muito pelo contrário. É bem mais difícil e aqui está o x da questão.

As psicológas se dividem grossomodo em dois grandes grupos. Há aquelas com pose de superioridade e há as maternais-afetuosas. Das duas, prefiro as primeiras, mas haja paciência para lidar com elas.

Estas querem dar lustro à sua profissão, sentem-se em missão, estudam e se aplicam, se dão um ar de seriedade e a atitude distante de quem olha de cima. Tendem a ser neuróticas, preconceituosas e antipáticas. Apesar disso, atrás dessa contorta máscara que vestem entrevejo algo interessante, a percepção confusa de que psicologia é algo mais que acolher e dar suporte às pessoas.

As psicólogas maternais e afetuosas são mãezonas. Como ninguém dispensa uma mãe, elas são amadas (apesar das inevitáveis manipulações afetivas incluidas no papel). Nem por isso estão fazendo psicologia em seus consultórios. Poderíamos chamar seu trabalho de aconselhamento, serviço social, rede de apoio e coisa parecida. Psicologia é outra coisa.

A psicoterapia nasce para “trazer o inconsciente à consciência” (Freud). A figura do psicólogo em geral é o instrumento desse processo. Como? Sendo ele mesmo a cobaia de sua atuação, ou seja, o psicólogo ajuda o outro a fazer o que ele faz cotidianamente em si e consigo próprio (Montefoschi). Nenhum psicólogo pode contribuir para o crescimento de seu paciente se ele mesmo não estiver no mesmo processo. Portanto, o psicólogo é um laboratório vivente, é um consultório ambulante. Ele é seu próprio analista e paciente, seu experimento e sua resposta, seu mestre e seu discípulo. Ser psicólogo é um constante aprendizado, uma forma de encarar a vida e seu sentido na terra. O fato dele estar com a consciência constantemente afiada (simbolismo da espada-discernimento. O Herói de Lutz Muller) concede-lhe a habilidade de ajudar os outros a desembaralharem seus próprios nós.

Não só. O psicólogo só pode levar seus pacientes (por isso, uma "mãezona" só terá "filhas" em seu consultório) até o ponto em que ele mesmo chegou. Por este motivo, o psicólogo está virtualmente num processo infinito de autoconhecimento. Seu trabalho interior é incessante, profundo e vasto por definição. É somente isso que garante a qualidade de seu atendimento.

Num mundo dividido entre mente e corpo, espírito e matéria, pensamento e sentimento, consciência e inconsciente, o trabalho do psicólogo consiste em romper dialeticamente e conscientemente, essas divisões, experimentando em si o resultado das contínuas violações do status quo, interno e externo (Jung e Montefoschi).

Ser psicólogo, portanto, não é um trabalho como os outros, é um modo de ser (Jung e Montefoschi). Um modo de ser que quebra o paradigma contemporâneo das dualidades contrapostas e contribui para o nascimento do novo. O psicólogo é a parteira da individualidade adulta e completa da outra pessoa (Sócrates).

Agora, voltando às nossas psicólogas. Quando essa visão da função da psicologia falta ou quando o trabalho interno não foi devidamente e extensivamente enfrentado, não resta à psicóloga que trancar-se num papel social, vestir o uniforme da “entendedora” e analisar/ajudar seus semelhantes. Encontrei várias dessas pessoas e, devo dizer, que sempre me deram nos nervos. Temendo receber o mesmo tratamento que dão, não se mostram, não trocam, não se expõem. Não sabem se abrir, temem sua própria espontaneidade.

Se elas são o modelo humano e psicológico de referência para os que precisam de autoconhecimento, não espanta que haja tanto preconceito com relação a “fazer terapia”.

7 comentários:

  1. Em outro blog li coisa parecida, dizendo que a maioria são mulheres, que a grande massa de estudantes são mulheres.
    Mas veja bem, concorda que os GRANDES psicólogos e psicanalistas são homens?
    Acredito que a origem do artigo masculino antes de PSICÓLOGO seja por isto.
    A maioria são mulheres, mas os GRANDES MESTRES são homens.
    Abraços.

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  2. Não creio que esse seja o motivo, Geison. A razão é muito simples: todos os genéricos são masculinos. Os advogados, os médicos, os... etc.

    O fato que os grandes mestres sejam homens é perfeitamente explicável numa sociedade patriarcal onde quem estuda e faz são homens. Freud e Jung tinham esposas: uma cuidava dos filhos e a outra permitiu ao marido a vida de pesquisa que ele teve, pois ela vinha de família rica. Se eu tivesse um maridinho que faz o que as duas esposas acima fizeram, puxa como seria mais fácil e produtiva minha vida!

    E de qualquer forma, isso aconteceu muitas década atrás. As coisas estão lentamente mudando. Se não mudam mais rápido é porque as mulheres ainda têm um grande sentimento de inferioridade e se atrevem muito pouco a arriscar violar o status quo (grandes mestres são sempre violadores do status quo) e perder o pouco de poder social que ganharam em um século. Preferem portanto ficam no rebanho.

    Nem todas, porém, Silvia Montefoschi é uma grande mestre mulher.

    Abraços

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    1. Sabe por que não tem um maridinho que faz isso? Por que homens podem ganhar 1 milhão, e se casam com uma garota quando ela é pobre.

      Uma mulher rica só casa com um kra pobre, quando ela é feia ou velha.

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    2. O que significa o que vc escreveu aqui??

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  3. Concordo contigo. Já precisei de psicólogas em alguns períodos de minha vida. Nunca peguei uma mãezona. Tive uma experiência horrorosa com uma técnica, que não se expunha, que me olhava do alto, que me achava uma doida varrida, irracional, que enfiou na cabeça dela um monte de preconceitos sobre mim e se aliou a meu marido que é um engenheiro que respira e transpira certezas e racionalidade. Nosso filho nasceu diferente. Era meu primeiro filho e eu só sentia que havia algo errado, mas nada que eu soubesse identificar claramente. Era uma intuição, uma sensação difusa. Fui procurar ajuda, especialmente depois que nasceu meu segundo bebê e pude perceber o quanto o desenvolvimento das duas crianças era diferente. O menino não mantinha contato visual comigo, sempre foi um bebe dificil de dormir, de comer, super agitado, sem coordenação motora. Tentei fazê-la entender minha angústia, ela sempre recusou avaliar a criança, só sabia dizer que o problema estava em mim, que o rejeitava. Long history short, meu marido só passou a prestar atenção nas coisas que eu observava quando o menino teve que repetir a primeira série porque nao aprendia, não conseguia memorizar quase nada, nao seguia orientações mais simples. Precisou fazer tratamento com neurologistas e psicopedagogos e tomar medicamentos pra conseguir se concentrar e aprender e adquirir algumas habilidades sociais. A desgraçada da psicologa jamais admitiu que tinha falhado e por conta da inflexibilidade dela me causado muito sofrimento e atrasado o correto diagnóstico do menino. Meu casamento esteve por um fio de acabar. Dizer que eu tenho medo de terapeutas é um understatement. Tenho é pavor, porque sei bem o quanto de mal um profissional incompetente é capaz de causar numa situação já complicada. Enfim, adoro seu blog e moro na Florida, faço parte da Rebra, gostaria de bater um papo contigo, pagando evidentemente, pra clarear tantas coisas que ainda são nebulosas dentro de mim. Se puder entre em contato: silviadonadoida@gmail.com

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  4. Silvia, obrigada pela abertura.
    Vou entrar em contato com você.
    Abraços
    Adriana

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  5. Olá Adriana!
    Fica aqui o registro de uma psicóloga, uma mulher em construção que se encontra ora num pólo, ora noutro, mas em busca de ser mais. Superando extremos, enriquecendo a alma.

    Gostei bastante do texto! Cheguei aqui por causa da divulgação de seu livro, que encontrei em outro blog... Esses passeios pela internet que nunca sabemos onde irá parar! Irei comprá-lo, pois tem tudo a ver com o trabalho que realizo. Aliás, gostaria de trocar algumas ideias com você. Irei lhe enviar um e-mail depois, pelo contato que está em seu perfil.

    Grande abraço!

    Juliana Garcia

    http://julianaggarcia.blogspot.com

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