02/11/2009

Relações: adaptar-se, isolar-se ou...?


Adriana Tanese Nogueira


Duas pessoas se encontram, se gostam e se frequentam. Algo atrai uma para outra. Certamente, terão pontos em comum: estilo de vida, escolhas, mentalidade, busca, ou simplesmente um misterioso e fasciante laço.

Deixando para lá o aspecto da projeção de um sobre o outro, assunto importante que tratarei em outro momento, o que interessa agora é refletir sobre a psicologia relacional prática. A questão em pauta é: o que fazer com as divergências de hábitos, modos de vida, cultura e crenças que se descobrem na outra pessoa?

Reza o senso comum que o primeiro recurso é a adaptação. Seria a solução correta se não fosse que numa cultura dicotômica (ou seja, baseada em opostos, “ou isso ou aquilo”, “ou eu ou você”, etc.) adaptação acaba por se transformar, na prática, em submissão.

Mesmo quando não há exibição explícita de poder de um sobre o outro, há a submissão a valores, hábitos, família, ambiente emocional ou intelectual do outro. Mesmo quando se trata do melhor e mais culto, do mais inteligente e consciente da relação, há subimssão dele ou outro, ora porque o outro é dependente demais da família de origem, ou incapaz de fazer uma coisa ou outra, ou frágil, ou indeciso... Não importa a razão, resta que ao “aceitar e adaptar-se” à dimensão do outro, esta se torna a nossa, mesmo quando seríamos capazes e precisaríamos de muito mais.

Pensemos na adaptação à sociedade, essencial para vivermos nela. No modelo dicotômico, adaptação quer dizer encaixar-se no esperado, vestir a camisa, adotar um papel pré-pronto e atuar conforme o figurino. Esta forma de “adaptação” é um suicídio da unicidade de cada um e, naturalmente, causa de inúmeros transtornos psicológicos, depressões e comportamentos autodestruitivos.

Ao contrário, Jung sustenta que o indivíduo adaptado é aquele que soube modificar o mundo ao inserir-se nele e que somente na relação com o mundo o indivíduo pode se realizar. Isso significa que ninguém encontra sua plenitude se não assumir sua jornada individual, única, solitária e gloriosa. Mas esta jornada não acontece se não se estiver em relação com o mundo.

Surge então a pergunta: como se pode inserir uma novidade (idéia, valor, individualidade) num mundo já dado e feito? Há os que desistem e se deprimem (se forem honestos) ou inventam detalhes coloridos para dizer-se diferente (se mentirem), e há os que, de alguma forma, explodem o mundo (isolando-se ou destruindo-o).

A alternativa a isso é transformar o mundo para que nele caiba nossa novidade (pessoa, projeto, idéia), o que somente ocorre se formos capazes de nos relacionar com ele. A solução dialética consiste em encontrar uma terceira via entre explodir o mundo e mutilar-se para se adaptar a ele.

Voltando às relações sentimentais, acontece frequentemente que no afã de “não criar problemas” tende-se a calar o que incomoda e a “deixar correr”. Esta é a reação não dos fortes e superiores, mas dos que simplesmente não sabem o que fazer. Não precisa ser genios para imaginar que após um certo tempo desse “deixar correr”, o pote estará cheio e... bum!

Faltou a honesta comunicação.

Agora, aqui entra o nó da meada. Num mundo dicotômico, a relação da pessoa consigo mesma não existe de verdade. O que a pessoa sente, se não for o que comanda o script, é entendido como ameaçador, e portanto rejeitado. Fica-se fiel ao modelo mental/ideal de relação (baseado em estereótipos) porque falta a dialética interna que permite o dialogo com o que se sente.

Essa adaptação sela o fracasso da relação. Várias adaptações como esta ocorrem de ambos os lados durante anos. As conversas tendem a evitar os pontos delicados, restringendo-se sempre mais. Entretanto, os dois irão se surpreender com as tensões, brigas ou somatizações que acontecem “do nada” e é nelas que, mais cedo ou mais tarde, a corrente oculta das verdades caladas irá romper a diga e alagar tudo.

Relação é a terceira via. Relação de verdade só pode ser dialética. Não é nem eu nem você, mas “nós”, feito de mim e de você e do que formos criando juntos ao descobrir esse novo mundo que é o “nós”.

Relação é integração e crescimento recíproco. Mutilar-se para estar com o outro é um ato falho de quem não acredita que pode ser amado por aquilo que é. Numa relação creativa e dialética, as duas (ou mil) pessoas deveriam estar ampliando seus horizontes uma com a outra, não só em termos intelectuais, como também afetivos e sentimentais – e reconhecer isso. Aprender a amadurecer incluindo novos aspectos, visões, modos de ser – e sentir-se bem com isso. Compreender outros pontos de vista e descobrir a convivência que exalta as diferenças sem se sentir ameaçada por ela – e sentir-se pessoas melhores por causa disso.

Mas, para chegar lá, é antes indispensável ter dois indivíduos que se possuem a si mesmos, que sabem integrar na própria consciência as mútliplas faces de seus próprios sentimentos, as estranhas emoções e percepções que venham a ter, os desejos e intuições que irrompem de repente. Somente uma pessoa com um mundo integrado e criativo dentro de si pode criar outro fora de si, para si mesma e para aqueles a quem ela ama.

4 comentários:

  1. Querida Adriana! Que textos maravilhosamente lúcidos, terapêuticos e conscienciais! Parabéns, você é show!!! Beijos!

    ResponderExcluir
  2. Querida Carla, obrigada!!
    Vamos contribuir para um mundo melhor!
    Beijo

    ResponderExcluir
  3. Identifiquei-me com o "ser adaptado" , pois na minha ultima relação acabei assumindo um papel submisso. Um erro fatal ao meu ver.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ótimo. Agora que vc tomou consciência disso se trata de entender por que e como fez isso para "desmontar" esse mecanismo interno e assim não repeti-lo da próxima vez.

      Excluir