08/12/2009

O Complexo de Superioridade dos Religiosos



Adriana Tanese Nogueira



              É interessante como há gente que sabe tanto sobre Deus e tão pouco sobre si mesma. Conhecem o que Deus quer e manda. Mas desconhecem as mentiras que usam para manter a realidade que, segundo elas, Deus quer.

             O Cristianismo treinou-nos durante 20 séculos a desconfiar de todo o conhecimento interior e a só prestar ouvidos ao que é dito de fora, por fontes consideradas confiáveis: o Livro e seus interprétes reconhecidos. O que vem de dentro do indivíduo é visto com suspeita, podendo ser uma produção do demônio. Intuições, perguntas, desejos, questionamentos, revoltas: tudo beira as artimanhas do diabo e são sua porta de entrada em nossa vida (na Idade Média se podia morrer por causa disso). É bom manter a guarda alta. Ele age nas brechas, nos momentos de relaxamento da mente, quando menos esperamos.

               Interessante como esse mandamento inculcado no espírito humano durante incontáveis gerações combina tão bem com as tendências do ego a enxergar somente o que lhe convém. E é assim que a fome se junta festivamente com a vontade de comer. Uma religião pode se tornar o lugar mais confortável no mundo para quem quer manter duplas falas e duplo agir. Ela tem o potencial para se tornar o ninho aconchegante para todas as hipocrisias e maldades.

                Graças ao Livro e seus interpretes, cada um mais convencido e “iluminado” do outro, um crente evita enxergar-se. No lugar do espelho pendura-se a imagem de seus ícones e santos. Quando é hora de se encarar, o fiel vê a imagem idealizada de uma entidade que não vive aqui na Terra, ninguém pisa no seu calo, ninguém o enrola e sabota e, ainda por cima, a entidade é também muda. Fácil estar de bem com ela, sobretudo quando a consciência é substituída por dogmas e frases já mastigadas.

                 O sonho dourado que a religião e seus seguidores perseguem é o de chegar ao paraíso sem passar pelo inferno do olho no olho. A realidade penetra em sua visão somente pelas lentes já formatadas que a religião, melhor, os líderes religiosos inserem nas pupilas de seus crentes.

                 É por isso que pessoas religiosas ao terem qualquer problema vão falar com o padre ou o pastor. Estes especialistas do espírito são considerados também competente em coisas da psique, como se espírito e psique fossem a mesma coisa. Afoga-se a psique em dogmas geometricamente definidos e comportamentos idealizados, deixando a selva interna de tudo o que não é ideal nem geométrico à mercê de si mesma.

                 O espírito proclamado pelos crentes – apesar do conceito de encarnação estar na base do Cristianismo – é desencarnado. Ele é uma metáfora, um ideal, um sopro suave que não move as montanhas das amarugra, inveja, raiva, obsessão, frustração, traição, mentira, falsidade, prepotência e insensibilidade que moltiplicam-se no mundo humano. Muito menos as transforma. O que o espírito desencarnado faz é condenar e sufocar. Removendo da frente o pedaço da psique que incomoda, o espírito abstrato acredita ter resolvido o problema.

                  Quanta santa ingenuidade.

7 comentários:

  1. Essa frase diz tudo: Afoga-se a psique em dogmas geometricamente definidos e comportamentos idealizados, deixando a selva interna de tudo o que não é ideal nem geométrico à mercê de si mesma. Já diferenciamos podóloga de pedicure, mas continuamos insistindo em tratar problemas psíquicos via dogmas... HUMPF. Acorda Brasil.

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  2. Ahahah!!!
    Verdade.
    Mas este é para mim um problema com raízes profundas. O brasileiro é um povo alienado. Se ele deixasse o dogma teria que enfrentar a realidade - psíquica, social e política. Este é um exercício que ele deve aprender pois nunca teve a chance real de desenvolver a cidadania.

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  3. Olá, Adriana. Meu nome é Hilton Rocha, sou evangélico há mais de 30 anos, linguista e devo admitir que muitas das coisas que você escreveu está coberta de razão, principalmente quando afirma que os líderes religiosos colocam dogmas nas cabeças dos crentes. No entanto, como uma cientista e culta, você há de admitir que não apenas a religião formata nossa mente para acreditarmos e enxergarmos o que os líderes querem, mas também a própria ciência cria seus dogmas e, de um modo geral, acreditamos e propagamos com toda veemência suas informações como sendo verdade incontestável, como por exemplo, durante muitos anos pregamos que Plutão era um planeta e, depois de alguns anos, a própria ciência voltou atrás. Imagine quantos de nós acreditamos tanto tempo naquela pseudo verdade. Acredito que todo posicionamento radical é perigoso, principalmente para nós, estudiosos, uma vez que, quando radicalizamos um ponto de vista, criamos uma barreira impeditiva para a busca de novos conhecimentos, concorda? Além do mais, você há de convir que, de um modo geral, nunca teremos a chance de afirmar 100% de convicção a respeito de nada, nem mesmo do próprio conhecimento científico, pois, por mais que obtenhamos o conhecimento sobre algum objeto de estudo, sempre deixaremos escapar alguma informação e, infelizmente, esse escape poderá reverter radicalmente, mais tarde,toda uma série de conhecimentos que um dia tomamos como verdade absoluta.

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  4. Olá Hilton, bom seu comentário.
    Há algumas confusões porém: ao criticar o dogmatismo da religião, não dou meu suporte ao da ciência. Esta conclusão decorre do ranço positivista do século passado que jogava no lixo a religião para colocar no altar a ciência.
    Tudo isso é para mim ultrapassado.
    Minha crítica neste artigo é contra o dogmatismo e a falta de auto-questionamento dos religiosos.

    A alternativa ao dogmatismo em geral é sim RADICALIZAR, mas não no sentido de extremizar, como naquele de ir à raíz das coisas. O que nos leva a desenvolver o pensamento crítico, individual e livre como única arma para nos livramos de todo e qualquer dogmatismo.

    Os extremistas não pensam, são robôs.

    Um abraço
    Adriana

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  5. Bom dia.

    Achei muito interessante este post.

    Religiosidade por si só já diz muita coisa, pois é algo criado e desenvolvido pelos homens para exercerem poder e controlo sobre os demais.

    É mais fácil seguir a manada do que faze ruma interiorização e encontrar os eu próprio caminho interior.

    Parabéns pelo post.

    Alexandra Caracol

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  6. Olá, Adriana!
    Desde os meus 7 anos de idade me relaciono com uma pessoa. Estudamos até à 8.a série juntas, morávamos no mesmo bairro, tomávamos o mesmo ônibus, temos a mesma idade..
    Apesar de termos ficado afastadas um período devido à mudanças, o destino deu uma grande volta e acabamos por nos tornar concunhadas! Hoje, estamos na mesma família.
    O mais engraçado, é que sempre a tive como amiga, tendo eu mesma a apresentado ao rapaz que mais tarde se tornou meu cunhado. Mas sempre achei que ela sofresse algum complexo, pois eu sempre pegava umas mentirinhas inocentes dela na infância. Até eu começar a me interessar pelo cunhado dela um tempo depois .. Nossa! Aí o negócio se tornou pessoal. Custei a perceber o desconforto dela qdo passei a namorar seu cunhado e a frequentar a casa dos sogros. Eu de fato estava em processo de conhecê-lo e ela aproveitou o momento para me dizer muitas inverdades sobre ele, o que me deixou muito insegura no início do nosso namoro. Cheguei a deixa-lo sem respostas por um tempo, tudo devido às coisas q ela me dizia sobre ele. No início, houve uma amiga dela que gostava dele é que mais tarde descobri que ela dava super apoio para que ficassem juntos. Ela chegou a armar situações para q eles se encontrassem e coisas desse tipo. Aos poucos colocou o namorado dela contra minha pessoa também. Um dia ele me falou q as luzes do meu cabelo lhe causavam dúvidas 'por onde eu andava' e ela riu do comentário. Me lembro de ter ficado muito constrangida com isso, mas foi a partir desse dia que notei e aceitei a verdade, o quanto ela não me queria por perto.
    O tempo passou, me tornei namorada do cunhado dela, depois esposa, mãe, passei num grande concurso (detalhe, um concurso na área de formação dela), mas antes de dar a volta por cima, ela me afetou demais psicologicamente, me deixou por baixo com todos. Minha sogra entrou no jogo dela, me diminuíam tanto...
    Bom, o fato é que com o passar dos tempos eu provei pra mim mesma o valor que tenho, mas ela e o marido ainda nos vêem como rivais concorrentes. Sempre damos duro para termos alguma coisa, e quando conseguimos, eles fazem questão de ir e fazer melhor. Se fazemos uma viagem modesta, eles encaram como provocação e vão e fazem uma viagem internacional; se compramos algo com sacrifício, um carro por exemplo, eles vão e compram um carro zero, importado e tudo mais...
    Então, ficou essa coisa chata sabe, desde sempre...
    Recordo-me de qdo recebi a convocação do concurso, que ela também prestou mas não foi classificada, todos os mais próximos da família me ligaram, me parabenizaram, ficaram alegres por mim. Já ela, assim que cheguei na casa de meus sogros para de certa forma comemorarmos, se retirou e NUNCA tocou no assunto até hoje, muito menos me parabenizou.. Porém, como é uma pessoa que não suporta se sentir por baixo, após isso vendeu a alma para poder virar chefia na empresa onde trabalha. E hoje, usa esse pronome de 'chefe' nas conversas familiares, para não se sentir por baixo.
    Olha, sei que esse tipo de coisa é muito comum nas famílias, principalmente entre cunhados, porém, gostaria muito entender onde exatamente isso começou e porquê?
    Sinto raiva de mim mesma as vezes, gostaria de esquecer que ela existe. Mas não consigo me esquecer de todo dano psicológico que me causou quando inventou coisas sobre mim e do meu marido prá mim; quando eu ainda estava batalhando na vida e ela me olhava de cima, como se desejasse minha queda...
    Fico mais triste ainda quando penso que poderíamos ser amigas por termos nos conhecido desde a idade escolar e hoje sermos cunhadas. Mas não, a verdade é bem o contrário, há um abismo entre nós!

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    1. Moça, essa questão não tem nada a ver com religiosidade e sentimento de superioridade, mas com inveja!

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