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Sociologia Familiar das Festas


Adriana Tanese Nogueira




Em tempos de festas natalinas, reuniões familiares e alegrias fazem parte do esperado. Nem sempre porém o coração está contente. A vida de família é um dos maiores desafios dos nossos tempos. Laços de sangue não garantem mentalidades e valores similares. Como em tudo, há os conservadores que se adaptam e não questionam e há os inquietos que buscam algo a mais do que o brilho superficial das aparências.


A política de muitas famílias lembra-me de Émile Durkheim, um sociólogo francês do século XIX. Sua teoria da sociedade basea-se na idéia de que cada indivíduo desenvolve sua função dentro do grupo ao qual pertence e que a manutenção desse conjunto é essencial para a sobrevivência do corpo social. Consequentemente, o objetivo de cada um e de todos é a preservação do status quo.


O quadro de Durkheim é como uma fotografia tirada a uma certa distância. De longe vemos as linhas gerais, mas não podemos saber como é viver lá, como são as relações entre as pessoas e se elas estão felizes. Da mesma forma, muitas famílias fazem questão de mostrar uma união mais formal do que real. Para tanto, devem sacrificar a visão de perto, ou seja, precisam “relevar” os fingimentos, sorrisos forçados, tristeza e insatisfação. Em nome do todo, a “família”, fecham-se os olhos e calam-se as bocas. Com isso, a arbitrariedade, falsidade e falta de sensibilidade são sancionadas e passadas às crianças como modelo.


É então que eu lembro de Marx. Foi ele quem disse que todas essas belas idéias não servem para nada se as pessoas sofrem. É como se Marx tivesse pego um telescópio e observasse a vida humana mais de perto. Se o conjunto está baseado em relações onde um se aproveita dos outro (os “diferentes”, mais fracos e etc.) preservá-lo é a atividade dos fingidos e interesseiros.


Marx dizia que toda a produção cultural (as idéias) está fundamentada na base material, isto é na realidade concreta da vida humana. Se pegarmos um “microscópio psicológico“, vemos que essa “base material“ é a terra sobre a qual cresce uma relação. Essa matéria da qual são feitas convivências e trocas é a alma que nelas tem, ou seja a sinceridade, o amor, a entrega e a confiança. Quando essa base é fértil, as relações despertam alegria e bem estar. O termómetro de qualquer contato consiste em medir se ele potencializa as pessoas envolvidas. De um bom encontro se sai sempre mais felizes e de bem conosco.


Infelizmente, temos muitos durkheimianos em volta. Eles gostam da forma mais do que do conteúdo. Idealizar uma união quando a essência está comprometida é um ato maléfico e de (auto-)sabotagem. Em época de Natal, se há algum valor a ser recuperado é o da sinceridade, pois até para ser “bons” é preciso antes ser verdadeiros.


Para os que não se asujeitam às mentiras, só resta observar de longe e lamentar que as pessoas que ama não sejam capazes de serem corajosas e límpidas. Lamentar que as decorações encobrem relações insálubres. Essas reuniões são como um bolo cuja superfície brilha com a cobertura de brigadeiro, mas cujo interior é podre.

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