23/01/10

Casamentos de Conveniência e Filhos

Adriana Tanese Nogueira


É triste ver o estado em que se encontram tantas relações que se chamam de "casamento". O sentimento que une uma mulher e um homem não sempre se sustenta diante das responsabilidades do dia-a-dia e dos filhos. Amar quando se vive sem compromisso é uma coisa, diferente é enfrentar a vida diária junto a outra pessoa, ter uma casa para cuidar, filhos e um futuro para criar.

O ser humano sabe adapatar-se e tudo pode virar rotina. Nem por isso deixa de ter marcas profundas em nossa vida, estabelecendo limites para o que podemos ser, pensar e sentir. Aceita-se a mutilação sem pensar muito e usando desculpas, uma delas é "filhos". Por causa dessas criaturas, mulheres e homens abrem mão de si mesmos. Mentem e vão levando - em nome dos filhos.

É verdade que não se pode chutar o balde toda vez que dá vontade. Dividir a vida com outra pessoa não é simples e os impulsos individualistas precisam ser controlados. A relação requer um tempo para a alquimia da união ser processada. Mas quanto tempo? Até quando se pode dizer que já foi tentado de tudo?

Acredito que dentro de cada um as coisas se sabem. E se não se consegue captar intuitivamente, basta medir nosso nível de felicidade para entender.

O que encobre a consciência impedindo de ver e de tomar atitudes são as dependências que se criam: econômicas, em primeiro lugar. As mulheres continuam mestras nisso. Em segundo lugar, há aquelas afetivas e o hábito: saber que há alguém em casa, alguém que vai preparar a janta, por exemplo, ou esquentar a cama, conforta. Os homens são os senhores aqui. Mais saudável seria ter uma boa empregada e um ursinho de pelúcia.

Mas a maior, mais comum e mais escandalosa de todas as mentiras é a que justifica um casamento em nome dos filhos. Vamos pensar um momento.

Como pode um casal que se vê todos os dias e não se entende criar um ambiente sereno em casa? Como pode uma mulher que se sente reprimida e não apoiada pelo marido ser uma boa mãe?  Por acaso ser mãe é diferente de ser mulher? Uma pessoa pode ser uma mulher oprimida e infeliz e uma mãe talentosa, compreensiva e amorosa? Se conhecerem alguém assim por favor me apresentem essa mulher. E como pode um homem irritado e angustiado abrir os braços a seus filhos no final do dia e ter condições reais de conversar com eles e entendê-los?

As crianças certamente amam seus pais, mas isso não é suficiente. Elas são seres em desenvolvimento: por acaso uma planta pode crescer num terreno árido ou chuvoso demais, ou com uma tempestade atrás da outra, ou simplesmente descuidada? Tentem imaginar quantos monstros e quantos desafios uma criança enfrenta. Por trás da Disney World e das bobagens que se dão a ela, há um ser que está abrindo seu caminho nesse mundo que não é nada fácil. Ela precisa descubrir a si mesma, entender-se, ver como relacionar-se com o a rodeia e aprender uma quantidade enorme de coisas num tempo curtíssimo comparado ao que depois os adultos habitualmente fazem. A infância e adolescência são o tempo do nascimento da pessoa que iremos ser que deverá lidar de forma positiva com esse mundo complicado que temos na frente.

Quem viveu num ambiente onde há brigas e tensões sabe quanto isso é sofrido. A escola será o primiro sintoma de que algo não está bem, e não culpem as crianças. Observem primeiro as condições em que a pobrezida vive. Basta pouco para machucar uma criança.

Não é suficiente não haja brigas. É preciso de honestidade. Um casal que não é sincero não pode ser sincero com os filhos. Ensinam-se mentiras para sustentar o teatro. A isso se soma o fato que os filhos, que não são bobos, perceberão que há algo errado, mas como os adultos-todos-poderosos, seus pais, lhes dizem que "está tudo bem" eles vão começar aquela terrível dicotomia interna que separa o que sentem de verdade do que é permitido "sentir". E recalcarão suas verdades, e começarão a mentir a si mesmos. E assim em diante. Não nos surpreendemos depois se algo dá errado.

Ser mãe e ser pai exige coragem. Nossa responsabilidade não se resume em pagar as contas e dar presentes, escolas e roupas. É muito mais do que isso. Precisamos ser o modelo de referência para eles, o exemplo vivo, a verdade de carne e osso na qual eles possam espelhar-se. A árvore frondosa que os ampara mas também que não joga sombra demais para que não precisem se afastar de nós para crescer fortes e grandes.

E se não podemos dar tudo isso a nossos filhos e nosso casamento não está bom, procuremos ajuda. Agora. Sem vergonha. Vergonha é arrepender-se no final da vida.



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