Pular para o conteúdo principal

A Persona entre eu e você: como estar juntos na ausência de comunhão

Adriana Tanese Nogueira

Relacionamentos de verdade são aqueles entre almas. Vamos definir logo essa coisa para não ficar no romanticismo barato. Relacionamento de alma é aquele no qual você olha nos olhos da outra pessoa e não enxerga véus. A visão não está borrada, você sente a outra pessoa e as palavras que ela fala estão em perfeita sintonia com o que você sente (e ela te faz sentir) quando as ouve. Na relação de almas não há aquela esquizofrenia entre o que é sentido e o que é ouvido. Ou o que você percebe da pessoa e a forma como ela age.

Esta situação é comuníssima entre homens e mulheres. Os homens (nem todos é claro) são assim: te amam, você sabe que eles te amam, porque você o sente, mas eles não falam, negam ou até se fingem de "ocupados" e "indiferentes".  Creio que pelo menos metade das mulheres que leram isso estão dizendo "Verdade!! Ah-hã...". Eles fazem isso porque temem seus sentimentos e você sabe o quanto você mexeu com eles pela "indiferença" que exibem.

As mulheres são assim: elas querem se dar bem, ser amigas de todos, sobretudo ser "gostadas". O gênero feminino tem uma grande necessidade de saber que são "gostadas" e em nome disso fazem praticamente qualquer negócio. (Não todas, claro, há uma porcentagem da população que tem consciência e dignidade) Por isso, as mulheres vão falar que gostam de tua mãe, irmã e carro. Vão adorar teu novo penteado e elogiar teus brincos. O que ela pensa de verdade só Deus ou o diabo sabem.

Cada um veste sua máscara para caber nos papeis socialmente aceitos. Suas Personas (ver aqui o que é Persona) grudam na pele de cada um com tamanha determinação que ele pode não perceber a profundidade de seu amor e o quanto está em pânico, e ela não se dá conta de suas mentiras bem intencionadas e pode até ter perdido contato com o que pensa de verdade.

Perde-se nessa transação a alma. Pois a alma só pode residir onde a verdade acontece: pânico, amor, ódio, medo, raiva, antipatia, encantamento. Isso é verdade. A pose é mentira - mesmo que conveniente e bem camuflada.

Sem o envolvimento da alma, a relação que todos almejam, cantada em todas as línguas do mundo, chorada e aclamada, se torna inviável. Só pode haver uma meia-pseudo relação dentro dos parâmetros acima mencionados. Cada um, vestindo máscara-Persona só irá poder dar ao outro uma gama muito limitada de si mesmo/a, o que deixa ambos com a sensação de vazio e de insatisfação. Não vale brigar (ou beber), não adianta. É preciso abrir os olhos.

A relação atrofiada e deformada entre Personas ocorre em todos os relacionamentos sentimentais porque só quando há sentimento envolvido (carinho, amor, amizade, companheirismo, empatia, etc.) se quer sentir aquela comunhão profunda com o outro que dá a sensação de plenitude. É essa experiência que segura uma relação qualquer, seja ela entre pais e filhos ou entre amantes e amigos. Fora isso, só sobram uniformes, papeis de papel reciclado e palavras vazias.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O que fazer com um marido alcóolatra?

NOTA: Pessoal, estou com dificuldade em responder às suas perguntas porque a página está ficando "longa" demais, por isso criei esta outra página (O que fazer com um marido alcoólatra 2) para conversarmos por lá, ok? O Blogger está "em crise": comentários demais! O problema é graaaande, certo? Abraço, A.


"Bom dia Adriana,
Gostaria muito de um conselho, se é que isso é possível.
Em uma das minhas inúmeras buscas na internet por uma luz, um consolo para essa minha vida miserável de esposa de alcoólatra, estava lendo um texto seu "O que fazer com um pai alcoólatra" e resolvi lhe escrever.
Acho que eu e meus filhos é que estamos no fundo do poço. Meu casamento de 19 anos, um casal de filhos e a cada dia que passa fico mais perdida e desiludida. Já perdi a esperança de um dia viver em paz com meus filhos. Tenho aguentado tudo isso por eles. Meu filho mais novo (12 anos) gosta muito do pai e acho que não suportaria se eu o abandonasse. Fico nesse dilema: será q…

O que fazer com um pai alcóolatra

Adriana Tanese Nogueira 
Um leitor, após ler meu texto "Obsessores: quem como e por quê" me escreveu pedindo aconselhamento a respeito de seu pai. Infelizmente, o email acabou sendo deletado pelo sistema e respondarei a S.L. por aqui.
Em primeiro lugar, alcoolismo é alcoolismo mesmo quando a crise, resultado da bebida, acontece uma vez por ano. Que a pessoa beba todos os dias ou de vez em quando (como muitos gostam de chamar com um eufemismo, "socialmente") não importa. Deve-se atentar para o desfecho. O não-alcoólatra quando bebe muito passa mal, o alcoólatra tem uma crise violenta, exagerada, "possessa".

Alcoólatras agridem verbalmente as pessoas que mais amam, quanto mais próxima for a pessoa mais esta sofrerá. A agressão pode ser física ou verbal, mas é sempre de nível extremamente baixo. Parece que o objetivo do alcoólatra é acabar com o outro, frantumar sua auto-estima, afogá-lo na culpa, rasgar-lhe qualquer dignidade. Após ter vomitado violentemente t…

POR QUE ESQUECEMOS DA INFÂNCIA

Adriana Tanese Nogueira

Em minha opinião, aceitamos com demasiada indiferença o fato da amnésia infantil - isto é, a perda das lembranças dos primeiros anos de vida - e deixamos de encará-lo como um estranho enigma. S. Freud, Sobre a psicopatologia da vida cotidiana

Um dos motivos que, com certeza, provocam o apagamento de grandes partes da infância é o estresse vivido naquela época. No conto de fada que os adultos gostam de tecer a respeito das crianças consta que a delas seria uma época dourada, sem preocupações, contas para pagar, tensões, trânsito e relacionamentos difíceis. Balufas. As crianças sofrem e podem sofrer muito, e muitas delas têm uma vida do cão (estou falando de crianças "normais" vindas de famílias “normais”).
O fato delas não terem a consciência e o conhecimento de um adulto só piora as coisas, porque elas não podem dar nome ao que as machuca. Isto as confunde, as deixando ainda mais assustadas. Para pior as coisas e aumentar a perplexidade e confusão da crianç…