Adriana Tanese Nogueira
Parabéns ao diretor do filme, Tim Burton. A nova Alice no País das Maravilhas tem tudo o que precisamos para dar o salto para o próximo nível psicológico da libertação da mulher. Com apurados efeitos visuais e as mudanças apropriadas à história original, esta sumariza a jornada da heroína rumo à terra das maravilhas.
Este filme lembrou-me de Yentl, um filme dos anos 80, com Barbara Streisand como principal protagonista representando uma moça judia que disfarçou-se de homem para poder seguir seu amor pelo conhecimento. Desta vez, quase trinta anos depois, o que queremos são maravilhas. Queremos frescor, supresa e encantamento. Não estamos mais satisfeitas com o velho conhecimento de sempre, que, a propósito, é feito pelos graves e rígidos estudiosos homens. Este não é o caminho feminino. Aquilo foi seu começo, a prehistória da libertação das mulheres. Para poder avançar, as mulheres agora devem libertar-se das correntes internas que as seguram, e entrar no país das maravilhas.
Vamos analisar o filme para compreender o padrão da jornada interior das mulheres.
Para começar, Alice tem um pai visionário. Como escrevi recentemente (Anima e Animus. Nossos país dentro de nós), a figura paterna representa o mundo das idéias para a garota. Tendo uma mente inventiva, o pai de Alice endossa os estranhos sonhos da filha. “As pessoas loucas são sempre as melhores”, ele acrescenta. E isto é verdade, pois as novas idéias frequentemente parecem loucuras, mas sem elas estaríamos todos ainda na Idade da Pedra Lascada. Agora, saber disso na forma de uma afirmação geral é uma coisa; outra totalmente diferente é viver esta realidade numa vida de pessoa normal. Qualquer pessoa diferente de seu ambiente sabe o quanto é difícil confiar em si e manter firme a própria visão das coisas. Assim Alice.
Não é suficiente sentir-se diferente do modelo social de um determinado momento histórico. Quando uma mulher deixa a infância e entra no mundo adulto onde ela tem que tomar decisões e definir sua vida, ter tido uma criação propícia lhe dá o forte sentimento de desconforto no assim chamado mundo “apropiado” - que é o jeito tradicional e embolorado de ser que vai adiante por inércia. Chega a hora em que uma garota precisa falar por si mesma e defender quem é.
Vamos dizer a verdade. Este é o momento de encarar o próprio mundo interior, não sonhos e fantasias, mas o real, verdadeiro e poderoso mundo interior, que clama sua existência e sua própria lógica. Sem fazer isso, a única escolha que uma mulher tem é o de encaixar-se em papeis pré-estabelecidos e desistir de sua unicidade.
Alice, que é esquisita o suficiente para seguir o coelho/sua imaginação, começa sua jornada. O processo consiste em dois aspectos interconexos: a descoberta de quem é e o tornar-se corajosa. Quem ela é significa o que ela sempre foi mas perdeu ou esqueceu por causa da ocorrência de crescer num ambiente social onde é dito às crianças como devem pensar, comportar-se e sentir. Na educação tradicional (seja na família que na escola), desenvolvimento coincide com ser formatados em moldes pré-determinados dando pouca atenção ao que a criança é dentro de si mesma. Os papeis sociais são lentos assassinos a sangue frios.
O filme mostra a dúvida a respeito de Alice: é ela a verdadeira Alice ou somente uma impostora? Este é a idéia principal como é nossa questão central na vida: somos reais? Ou só palhaços fingindo ser aquilo que exibimos a todos? Somos verdadeiros e confiáveis? Vamos conseguir?
Para ajudar Alice a encontrar a si mesma, a história desdobra-se entre medo e compaixão. Mais e mais, Alice vai se dando conta que depende dela a salvação de seus queridos, primeiro de todos o Chapeleiro Louco - a representação das idéias malucas que ela andou chocando por toda sua vida. O Chapeleiro Louco é seu Animus, que pôde existir tão colorido e imprevisível graças ao apoio do pai de Alice. E Alice precisa salvá-lo.
Isto lembra-me um sonho que eu tive nos meus primeiros anos de análise pessoal. Tinha cerca de 18 anos na época. O sonho começa comigo conversando com um rapaz perto de um carro. Depois o sigo para dentro de um edifício. Encontro-me num apartamento em andar alto, onde vive uma família normal, comum. Descubro que há um homem louco trancado no banheiro. Ele tem sido mantido lá há muito tempo. O banheiro é o lugar onde nos limpamos e descarregmos as partes de nós não quistas. Liberto o homem. Ele vai a uma janela próxima que está aberta. Ficamos lá e eu olho para ele. Ele fixa a distância, daí pega um telescópio e olha além do mar, muito além. Esta era sua loucura: ele podia ver além das interpretações e compreensões da vida superficiais. Sua vista é profunda e não convencional. Como sabemos, esta visão é altamente desconfortável para aqueles que preferem “manter quieto”, e temem perguntas.
Salvar o Chapeleiro Louco significa, para Alice, comprometer-se consigo mesma e com a tarefa que ela tem adiante: soltar sua vida de qualquer pensamento julgador. E aqui entra a diferença entre a Rainha Vermelha e a Branca. A primeira é o aspecto negativo do arquétipo da mãe, a mulher patriarcal que inflacionou sua cabeça com idéias repetitivas. Ela impõe dogmas, crenças não-questionáveis a suas crianças e a todos que estiverem à sua volta. O resultado é gente falsa e covarde. Por causa dela, o Chapeleiro é Louco e todo Animus Criativo vive trancado nos banheiros das casas das famílias respeitáveis. A Rainha Vermelha representa a consciência coletiva, com inteligência tão encolhida quanto inchados são seus pensamentos manipuladores. Ela também mostra belamente a ambiguidade do amor. Em nome do amor, escorreu sangue nas guerras e lágrimas no desespero.
A Rainha Branca, do outro lado, é simplesmente a Bruxa que desafia a histórica idéia patriarcal sobre bruxas vestidas de preto e sendo más. Ela é o Feminino não submetido à lógica patriarcal. Foi posta de lado, não destruída, mas vive num mundo separado. É aqui que Alice encontra seu tamanho certo - nem muito reduzida, nem muito inflacionada -, e suporte. Aqui é a terra que dá raízes à Nova Mulher.
Chegar à Rainha Branca não é suficiente. Falta lutar contra o monstro. Esta é uma luta real que toda mulher tem que assumir se quiser seguir sua alma. Enquanto ato real no mundo, este requer coragem. Para vencer o monstro Alice precisa da espada. Espadas são o símbolo do pensamento discriminador, uma das coisas mais preciosas que há. Sem ele, a coragem é vaidade e cegueira.
Uma garota pode instintivamente rejeitar uma situação como perigosa para sua personalidade. Entretanto, uma mulher deve ir além disso, ela precisa saber porque ela não gosta a fim de poder tomar as decisões apropriadas. Esta é a espada ao trabalho: ela distingue e separa. Torna sentimentos fortes e obscuros em idéias afiadas e em límpida visão acerca da vida. Assim fazendo, Alice encontra sua identidade e a filosofia de sua existência.
Com esta espada Alice luta contra o monstro. A face feia da consciência coletiva que impõe papeis e valores, que tenta moldar e julgar, diminuir e barganhar, manipular e destruir a criatividade. A luta com espada é diferente daquela com a clava, como as que Hércules fazia golpeando de todos os lados como um maluco (não é uma coincidência que ele ficou realmente louco numa ocasião). A espada representa uma luta sofisticada e consciente, baseada na inteligência e que também exige coragem e determinação.
Golpe final, “E corto tua cabeça,” diz Alice, baixando a espada no longo pescoço do monstro. A batalha está vencida. Agora ela está livre. Para que? Precisamente, livre de dizer não aos papeis tradicionais e livre para dar início à jornada de sua vida. Única, preciosa e totalmente individualizada. E aqui, a metamorfósis está completa.





21 comentários:
Difícil deixar um comentário a altura do texto... Como estudante do 4o ano de Psicologia, consegui me entender um pouco no decorrer do texto.
Vou passar pra alguns amigos via e-mail, citando seu blog, claro... E espero que todos possam apreciar essa análise um tanto quanto esclarecedora em outros âmbitos da vida.
Adorei!!
Assistirei (e já passo de ansiosa) o filme com outro olhar. Bem mais analítico, com toda certeza!
Fora que sou grande fã de Burton e Deep! E a menina Wasikowska, deve ter sido escolhida a dedo! Fabulosíssima.
Abraços.
Olá Carol! Obrigada pelo seu comentário.
Um grande abraço e veja o filme, depois me conta.
Adriana
Que coisa boa ler uma crônica analítica deste gabarito! Como vai ser bom, para mim, assistir este filme com outro olhar! Agradeço imensamente e adorei entrar no seu blog, Carol!
Um grande abraço
Li o livro Alice no País das Maravilhas de Lewis Carrol há muito tempo. Considero que hoje terei uma nova visão sobre o texto, o lugar da mulher na família, na sociedade(os seus papéis sociais mais remotos) e verei o filme munida de seu rico texto. Conto depois de assisti-lo. Gosto de seu trabalho escrito, sou Rebrinha também, e psicóloga.
Um abraço,
Eliana Wissmann Alyanak.
O endereço do meu blog é:
http://poesiadeelianawissmannalyanak.blogspot.com/
O e-mail do blog é:
elianawalyanak.fluires@blogger.com
Obrigada M.J. Fortuna e obrigada Eliana!
Bom filme para vocês!
Parabéns também pelas suas crônica (M.J.F.) e poesias (Eliana - gostei em particular de "Beleza"
Grande abraço
Adriana
Oi Adriana!
É sempre gratificante ler seus artigos. Concordo com tudo que escreveste sobre "Alice" e espero que grandes cineastas e produtores, como Burton e Cameron, utilizem cada vez mais o poder de comunicação do cinema para trazer o Feminino à consciência e à luz.Beijos!
Muito boa análise. O filme é profundo e todas as mulheres deveriam assistí-lo, pois mostra a coragem de Alice ir atrás dos sonhos e abrir as portas para a verdadeira descoberta de si mesma.
Abraço,
Maria Alice Fontes, Psy, PhD
www.plenamente.com.br
Bela interpretação Adriana. Parabéns. No sábado assisti o filme. E escrevi uma crônica sobre ele em meu blog http://arslitterayelizus.blogspot.com com o título "O retorno de Alice"... É a minha percepção sobre a nova "roupagem" de Tim Burton. Se quiseres, passe lá para lê-la. Um bom dia, boa semana :)
O filme de Tim Burton é maravilhoso.Aos críticos lhes falta informação sobre simbolismo.A versão deste diretor é uma lembrança preciosa da alquimica fórmula do VITRIOL: Alice após conciliar seu mundo interno está em condições de decidir sua vida conscientemente.Linda e profunda mensagem!Recomendo!
Khristian Paterhan
Parabéns pela crítica, muito completa!!
Realmente é um filme muito inteligente e lotado de pensamentos, simbolismos, e mensagens subliminares!
Fiz um breve comentário no meu blog, e deixei um link para esta sua crítica, espero que não se incomode!!
Abs
Mauro Cavanha
www.maurocavanha.blogspot.com
Acabei de assistir ao filme no cine Leblon e saí realmente encantado com a adaptação de Tim Burton. Um momento do filme que é mágico é quando a Rainha Branca solicita um guerreiro para combater o grande dragão da Rainha Vermelha, muitos se oferecem, no entanto todos são descartados, pois apenas Alice poderia combatê-lo, nesse momento ela sai correndo para um jardim na beira de um precipício (onde não havia saída), encontra-se com a lagarta entrando em seu casulo e acontece o seguinte diálogo: "Gostaria que você me ajudasse" e a lagarta responde: "Como posso te ajudar se você não sabe nem quem você é", logo após, Alice pergunta à lagarta: " você vai morrer?" e a lagarta responde: "Não, apenas me transformar"
Assistam.
Alexandre Tate
MAS.. QUESTIONO APENAS QUE, SE NÃO EXISTISSE UMA FIGURA MASCULINA FORTE E QUE INCENTIVASSE AS LOUCURAS DE ALICE, SIMPLESMENTE O MUNDO DE ALICE NÃO EXISTIRIA, POIS SERIA SUFOCADO PELO TRADICIONALISMO ARCAICO DE SUA MÃE...
ENTAUM TEMOS SEMPRE QUE TER UM EQUILÍBRIO DE AMBAS AS PARTES... TANTO O FEMININO QUANTO O MASCULINO... NÃO!?!?!?
Adorei seu artigo e indiquei-o no meu blog (dando os créditos, é claro...).
Parabéns pela excelente análise!
Abraços
Simplesmente fantastico... Gostei muito do artigo!
Abraços
Fátima (psicologa)
Voce esclareceu minhas duvidas. achava dificil nao identificar os personagens, analisar sem todos eles envolvidos.
Eu senti isso tudo depois de ver o filme, mas nao conseguia ter certeza do significado. bacana!! queria que todas as pessoas pudessem ver esse filme com esse olhar. So fiquei meio tristinha porque o amor no filme nao aparece pra ela, mas isso vem depois.
bjo
Cris Lustosa
Nossa...sou estudante de Pedagogia, consegui perceber nuances do que vc postou aqui e esclareceu muitas outras, adorei, parabéns !!!
D+. Análise profunda e perfeita que só uma pessoa muito crítica observadora faria.
Tenho apenas treze anos de idade mas adorei o texto e assisti o filme e está tudo muito interligado.
Muito bom.
Assisti ao filme, e me vi na Alice, só que uma Alice de quase quarenta anos, que ainda não teve a coragem de perseguir seu próprio coelho, nem ter o fabuloso encontro com seu próprio chapeleiro. Tim é surpreendente e apaixonante, e o Jhony encarna como ninguém os nossos sonhos e idéias mais criativas e extravagantes. Amo os dois, e estou me inspirando neles pra correr atrás enquanto ainda é tempo. Apezar de já ter mts coisas a vencer nessa busca por mim mesma.
Adorei o texto, parabéns!
Cara Adriana
adorei o seu texto, embora tenha detestado o filme. tomei a liberdade de publicá-lo no blog da Sociedade Lewis Carroll do Brasil. espero que você concorde. o endereço é:
http://alicenations.blogspot.com/2010/06/alice-feminista.html
se puder, dê uma olhada no blog, tem MUITA coisa legal.
um abraço
Adriana
amei! simplismente incrível!
Parabéns pelo belo trabalho!!!
Atenciosamente: Camila O.
Obrigada a todos pelos comentários!
Quero frisar que *as coisas são como nossos olhos as vêem*. Gostei do comentário da menina de 13 anos aqui que identificou que somente uma pessoa muito crítica e observadora podia notar o que notei. Precisa ter olhos para enxergar e isso significa o pano de fundo seja cultura que introspectivo. É isso que quero também incentivar. Análises curtas nascem de mentes curtas.
À pessoa que disse que precisa do "masculino forte que incentivou os sonhos de Alice (seu pai, suponho), respondo que não é "forte", simplesmente ele existiu e dou-lhe os créditos no meu artigo. Mas o foco para mim está no feminino, afinal, o livro e o filme vertem sobre Alice, uma mulher. Não precisamos sempre alisar os homens!
Para quem comentou que ficou triste porque não houve "amor" para Alice, respondo que é por aí mesmo. No salto evolutivo humano no qual nos encontramos, primeiro vem o casamento interno, consigo mesmos, depois de fora, com o outro. Caso contrário, acaba-se inevitavelmente repetindo estereótipos.
E para a mulher de 40 anos que ainda não teve coragem de seguir seu coelho... Bom, nunca é tarde, a vida é uma e é agora! Não perca mais tempo.
Abraços a todos!!
Adriana
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