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Inteligentes Mas Fracos

Adriana Tanese Nogueira




Ser inteligentes é uma maravilhosa qualidade humana. Entretanto, não deve ser suficiente para viver com dignidade, pois encontramos muitas pessoas inteligentes que são manipuldas e enroladas por indivíduos irresponsáveis e aproveitadores. Como pode ser isso?


A agilidade mental que permite compreeder e estabelecer relações entre as coisas é uma habilidade do, vamos dizer, aparelho cerebral. O problema é os fatos a serem processados conseguirem alcançar este nível. O calcanhar de Aquiles de muitas pessoas inteligentes é que elas têm cérebro mas não “entranhas“. Falta-lhes o fígado (órgão que na Grécia Antiga era sinônimo de coragem) para ver e sentir o que necessita de sua avaliação intelectual. Ou seja, de que adianta ter inteligência se não se possui testosterona e ovários suficientes para encarar o que a inteligência precisa decifrar?


O caráter de uma pessoa é proporcional à sua capacidade de aguentar a desestabilização que acompanha toda tomada de consciência. Desestabilização significa tensão, desconforto, ansiedade. Ninguém gosta disso, certo? Entretanto, sem sustentar essa tensão produzida entre situações/idéias/pensamentos opostos não há evolução.


A luz é o terceiro elemento que nasce da união de dois opostos. Da mesma forma, qualquer coisa que contradiz o status quo provoca tensão emocional mas é deste bojo fervilhante que o novo nasce. Por não aguentar a tensão, e antes mesmo de perceber claramente quais são os opostos em jogo, muitas pessoas sumariamente eliminam o que sentem com a finalidade de anular a tensão. Em seu lugar, são grosseiramente grudadas racionalizações que a um exame mais atento não se sustentam (por isso também essas pessoas não gostam de um bom debate de idéias).


Parece-me que esta é a maior dificuldade. Toda mudança, sobretudo aquelas para o nosso bem, são anunciadas por tensão. Quando se deve mudar alguma coisa de habitual em nossa
vida, que seja a casa, o trabalho, os amigos, o namorado, a profissão; quando se muda de idéia, de crença, de prática; quando se começa a dizer o que se pensa e se pára o faz de conta; quando enfim se quer tomar o controle da própria vida e fazer justiça ao que é justo descartando o que é errado: em todos esses momentos uma tensão interior se apossa de nós e se não tivermos força moral para aguentar, não haverá mudança alguma. Tudo o que sabemos não terá como se materializar porque falta a garra e a testosterona emocional para levar adiante o que se sabe que é certo e é preciso. Para justificar a nós mesmos a covardia, inventamos desculpas. É típico (ou esperado?) dos “inteligentes” que eles “compreendam” e não criem discussões “à tóa”. Para o inteligente tudo é “jóia”, “em ordem” e “tranquilo”.

Por conta dessa fraqueza moral as portas para o abuso são abertas. Indivíduos sem escrúpolos se aproveitam de pessoas inteligentes que porém “não querem ter problemas”. Mentiras são assinadas em baixo por pessoas inteligentes que até percebem mas não querem “encrencas”. Para evitar brigas, pessoas inteligentes aceitam situações injustas e prejudiciais para si mesmas, em nome da “paz“. É sobretudo com as pessoas inteligentes que o conceito de ser bom transforma-se facilmente no de ser bobo (veja meu “Ser Bons, Não Bobos”).


Segundo a Física moderna a imensidão do Universo com suas galaxias, planetas, Terra, plantas, animais, seres humanos, em suma TUDO surgiu de um pontinho minúsculo, invisível a olho nu, único e singular, que uma certa hora “explodiu”. Esta teoria é chamada de Big Bang. O que fez esse pontinho abrir-se, desdobrar-se, expandir-se e florescer na incrível realidade que conheçemos? Qual é a faísca da virada, do ponto de mutação?


É o desconforto. Uma inquietação desagradável mas grávida de possibilidades fermenta interiormente e cresce, cresce, cresce... Até explodir num universo novo: uma nova consciência, uma nova vida, um novo individíduo. Uma nova verdade.


Este processo é natural, existe há bilhões de anos. Atravessou o pontinho misterioso que deu vida ao universo e atravessa nosso coração, mente e entranhas a cada dia. Alguns o chamam de Deus, certo é que é poderoso. Teve a coragem de espatifar-se em milhões de formas, algumas extintas outras vitoriosas, como a nossa. Agora pulsa na alma humana e os humanos vacilam entre acompanhar ou sabotar, abrir-se ou fechar-se, dizer sim ou fingir-se surdos. Eis onde a inteligência deveria ter seu teste final.

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