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COMO MATAR UM SONHO

Era uma vez um tempo em que éramos crianças, e antes que os programas da TV e as neuroses familiar sufocassem nossas almas, costumávamos sonhar. Sonhar de olhos abertos, que é como um refletir, um soltar os pensamentos da alma para se manifestarem, ouvirmos nossos coraçãos e mentes ainda no estado genuino dos primórdios. Ouvir o canto da alma, este é o sonhar de olhos abertos, um exercício da imaginação a qual, como disse Einstein, “é mais importante do conhecimento”.

As visualizações espontâneas, de fato, são uma atividade da mente que faz uso da imaginação e que representam a chave para criarmos o que queremos ser e a vida que queremos ter. Nesse sonho a olhos abertos descobrimos aspectos de nós novos, ideias geniais, soluções inesperadas e... paz.

Estes processos não são nunca totalmente conscientes. Por isso são espontâneos, soltos, fluidos. Para acontecer precisamos estar também soltos, fluidos, se estresse demais nos atormentando do lado de fora. Os problemas que o mundo nos traz amarram as asas da imaginação. Fertilizada pelo mundo interior e pelas experiências externas, a imaginação é o laboratório alquímico onde os elementos são processados e transformados de acordo com a pessoa que está sonhando. Assim, nossos sonhos espelham nossa verdadeira alma.

Entretanto, a dúvida e a conformidade ao achamos que tem que ser, ao que os outros dizem, ao sistema no qual crescemos fincam barras de aço entre as rodas da nossa imaginação e brecam seu movimento espontâneo e inspirado. Ficamos com medo de sermos diferentes. Damos ouvidos a amigos e vizinhos. A televisão nos plasma, a religião nos molda, as problemáticas dos pais nos engolem. O gotejar tóxico lentamente permea nossa personalidade, até o ponto em que sonhos se tornam somente “sonhos”. Para termos uma vaga lembrança deles, vemos filmes, planejamos viagens, viajamos na nossa mente com fantasias que já não tem qualquer chance real de se realizar... Tudo isso serve para fazer a alma respirar e ao mesmo tempo para exorcisarmos o sonho real pois temos medo de nos engajar, medo da mudança.

Ao chegar à idade adulta, não sonhamos mais, nós somente desejamos. Cautelosamente e de forma “madura” fazemos planos, nos protejendo da sedução dos sonhos que clamam por uma ação entusiasmada. Se nos deixássemos levar pelos sentimentos que os sonhos suscitam, iríamos simplesmente ir fazendo, andando, criando realidades. Mas resistimos.

Nós somos, ou quermos ser, adultos maduros. Temos responsabilidades. Mas a verdade é que estamos assustados e quanto mais temos adiado nossos sonhos mais fracos nos sentimos. Perdemos força interior, pensamos nas muitas possibilidades de falhar, nos machucar, perder. Os sonhos precisam esperar. Na vida de purgatório que temos, não ousamos dar o salto para frente, aguentamos o calor do inferno. E adiamos.

Por termos perdido a conexão com nossa profundidade já não sabemos qual é a escolha certa. Por estarmos assustados já não sabemos sentir e buscamos garantias racionais, que não podemos encontrar. Por termos perdido a fé na vida e em nós mesmos, esperamos e engolimos a mordida amarga da existência.

Na idade avançada nossos viraram amargura. Lábios tortos de dor e rancor pelo que não tivemos. A idade aumenta os medos. Deixamos os sonhos, os projetamos em nossas crianças que cresceram e nos decepcionam porque não fazem o que queríamos que elas fizessem. E um dia podemos chegar a descobrir que anos atrás não fomos cautelosos e responsáveis, mas simplesmente tolos.



Adriana Tanese Nogueira, Psicanalista, filósofa, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto. http://www.atnhumanize.com/


Comentários

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