04/04/2010

Entender os sonhos e sair da superficialidade

 Adriana Tanese Nogueira

A maior parte das pessoas não acredita em sonhos. Os consideram sem sentido, esquisitos ou “malucos”. Quando tentam interpretá-los dão-lhes os códigos do mundo da vigilia, com o resultado de reafirmar o senso comum, ou então os manipulam para que expressem seus próprios desejos.
      Acreditem ou não, sonhos são independente de nós e do nosso querer, não seguem a lógica do dia e muito menos respeitam nossos valores. Sonhos vêm de outra voz, uma desconhecida que está dentro de nós (ou em volta de nós, em todo lugar - como pensava Jung), que pode nos complementar, contradizer ou surpreender.
         Todos conhecem pessoas superficiais ou profundas, “normais” ou “buscadoras”. A medicina homeopática e várias das terapias alternativas trabalham o tratamento por etapas, chamam o processo de “descascar a cebola”: para obter a cura deve-se progredir por passos progressivos etapas, indo sempre mais fundo, porque é assim que se apresenta o problema. Vai-se da camada mais superficial, a primeira que aparecer, até a mais profunda, onde está o nó da meada que deu suporte a todos os outros problemas menores.
       O mesmo funciona com a psique: ela é estruturada em camadas. Lá na periferia produzem-se sonhos superficiais, as camadas internas geram mensagens oníricas profundas. A elas somam-se os “flash” que sincronisticamente cruzam espaço e tempo, dando-nos visões prospéticas do futuro.
         A questão é como diferenciar uma camada da outra, como associar significados apropriados e sentidos corretos aos elementos oníricos. É aí que os detratores dos sonhos ganham seu argumento, pois é muito fácil trocar ouro por bijouteria.
         Na verdade, não se trata de “decifrar” sonhos, como se decifraria um enigma, dando uma de Sherlock Holmes com sua lente de aumento em mãos. É o sentido do sonho que precisa discoberto. Sentido quer direção: para onde vai o sonho, para qual caminho o sonho leva o sonhador? Esta é uma questão essencial e tipicamente junguiana. Freud entende os sonhos como códigos a serem desconstruídos e reconstruídos de uma forma racionalmente compreensível. Jung enxerga os sonhos como mensagens que levam numa direção - o que não necessariamente exclui ter que desmontar enigmas à maneira freudiana. A visão junguiana é, eu diria, holística, ele foca os elementos dentro de um contexto e em movimento. Segundo ele, os sonhos são reflexos de um organismo vivente (biológico, espiritual, psicológico, tanto faz) que vive porque tem finalidade (resgata-se a quarta causa de Aristóteles, esquecida pela ciência moderna). A finalidade é um movimento que vai numa direção.
          O impasse na compreensão dos sonhos encontra-se, não neles mesmos, mas nos olhos de quem vê. O olhar que neles se pousa 1) pertence a uma determinada camada psíquica e 2) está carregado de expectativas, desejos e intenções. Portanto, para compreender adequadamente as mensagens oníricas é preciso enxergar também a forma como olhamos para elas. Dependendo da camada psíquica na qual se situa nosso olhar, o sonho terá a consistência correspondente, um sonho profundo pode ser entendido como banal, e um aparentemente desinteressante pode adquirir significado sério.
         Quando se quer entender um sonho deve-se ter a capacidade de nos livrarmos das interpretações imediatistas do senso comum, mas também daquelas que correspondem aos nossos desejos. Se trata de deixar o sonho trabalhar dentro de nós, começar a sentir o que ele tem a nos dizer antes de podê-lo traduzir em palavras. A matéria dos sonhos são imagens e como a mídia sabe bem, imagens interagem a vários níveis com nossa psique: intelectual, sentimental e emotional. Mas enquanto as imagens da mídia são estereotipadas e coletivas, e nos mantêm sempre remexendo o mesmo panelão de símbolos desbotados, as figuras dos sonhos são pessoais e seus significados, mesmo quando carregados por símbolos arquetípicos, têm valor personalizado e pontual.

        Concluindo, os sonhos são mensagens individualizadas para uma determinada pessoa num determinado momento de sua trajetória, têm a ver com o que ela está passando e sugerem caminhos para progredir com êxito enfrentando as reviravoltas da vida.

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