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Para não terminar por ser falsos sem querer

Adriana Tanese Nogueira

Há situações na vida nas quais nos deparamos com forças superiores aos nossos poderes. É o caso de muitas relações afetivas familiares. Não desejando ficar por fora, e às vezes por razões totalmente legítimas, uma pessoa encharca de óleo a máquina da relação para ser aceito no meio daqueles dos quais não pode ou não quer ser separado.

          O óleo na máquina é o carinho. A afetuosidade é usada como passaporte para passar por situações difíceis ou delicadas. Quanto mais espinhosa for a realidade mais a pessoa que se utiliza deste método de relação esforça-se para suavizá-la com os óleos aromáticos da sedução afetiva. Agradar e mostrar-se o mais possível “inocuos” é uma estratégia de caráter feminino, usada sobretudo por mulheres mas também por alguns homens.
         Desta forma obtem-se o visto de entrada na terra estrangeira onde outros valores e estilo de vida acontecem, nem sempre compatíveis com os nossos. À custa de muita flexibilidade emocional consegue-se um lugar garantido em âmbiente moral, social e psicologicamente duvidoso.
         Há causas nobres que justificam essa escolha, por exemplo quando amamos alguém que está envolvido com pessoas que seria melhor perder que encontrar. Nesses casos, temos somente duas possibilidades: ou se topa entrar no grupo ou nos afastamos.
As duas têm seus prós e contras.
         Entrar no grupo significa inevitavelmente partilhar de seu tipo de vida. Não tem como não ser afetados pelo convívio com outras pessoas. O famoso ditado: diga-me com que andas e te direi quem és, significa exatamente isso. Mesmo tendo mais consciência, cultura e conhecimento daqueles que escolhemos para estarem do nosso lado, não há como evitar no tempo alguma forma de nivelamento, que necessáriamente será “por baixo’, como a história demonstra.
          Nivelar-se por baixo significa terminar por adotar o modo de pensar da outra pessoa, mesmo que inconscientemente. Por exemplo, se racionalmente mantemos os nossos valores, na prática, o que acontece é que devemos calar o que realmente pensamos porque simplesmente ou calamos ou nos mandamos da relação. Ponto. Cala um dia, cala dois dias, cala três meses, cala quatro anos… no que vai dar isso, no final? Por mais boa vontade que se tenha, é psicologicamente impossível não tornar-se cúmplices daquilo que rejeitaríamos se não houvesse vínculos. A vantagem dessa estratégia é a de permanencer próximos de pessoas que amamos, por outro lado, nosso poder de ação sobre elas diminui por força das circunstâncias. Aquela influência positiva que gostaríamos de passar para que pessoas boas enxerguem e se libertem é parcialmente neutralizada pelo nosso próprio comportamento.
           A outra opção é afastar-se, muito ou pouco. Manter as distâncias é uma forma de dizer “discordo”, e se coloca num estilo masculino de relação. Infelizmente, às vezes é o único jeito de comunicar o que pensamos. Quando as palavras não são ouvidas ou o pecado está encardido demais, a convivência arrisca nossa integridade psíquica e moral. É preciso sair de cena, o que não necessariamente significa sumir. Aliás, quando possível a manutenção de uma relação à distância com a pessoa em questão é o que lhe recorda que há outros mundos, outros valores e outras possíveis escolhas de vida. Mas nossa voz é fraca. No final, cada um escolha a vida que tem e a verdade é que pouco podemos fazer mesmo tendo todas as razões do nosso lado.
           A convivência é o maior elemento de “convencimento” de uma pessoa. Todos os discursos racionais têm alcance limitado, porque a razão é um instrumento enganoso. Amantado por racicínio pode-se justificar qualquer coisa. Com “boas razões” cobre-se a simples falta de peito para encarar a única escolha decente que se tem na vida. E não será com os óleos aromáticos da afetividade que proporciona a alavanca para que um salto para outro nível seja possível.
          No mínimo, é importante combinar as duas opções. Para isso, porém é preciso ter atrevimento e coragem. Coragem para dar nomes aos bois e reconhecer o que é errado e atrevimento para agir de acordo. Alisando e “deixando pra lá” acabamos, no tempo, por não enxergar mais, por melhor que seja nossa vista. Acostumados a “fechar os olhos”, chegamos a não abri-los mais (“De que adianta, afinal, se não podemos dizer o que pensamos? Tanto vale não ver.”). Amar deve poder conjugar o melhor de nós e de nossos valores de vida com a relação com o outro. E para isso, precisamos de olhos bem abertos e da força viril de saber enfiar a faca quando é preciso, porque há momentos em que uma cirurgia é a única salvação. Óleos e perfumes não vão poder tratar do que simplesmente é podre.

Comentários

  1. Belo texto, Adriana. Conheci a pouco dias seu blog. E digo-lhe que adorei. Estou acompanhando o blog. Li a sua postagem sobre o filme de Alice no País das Maravilhas. Fiz um comentário. Também postei uma crônica sob o título "O retorno de Alice", no meu blog http://arslitterayelizus.blogspot.com Quando quiseres, passe por lá, para lê-la. Precisamos ter coragem de sermos o que somos mesmo!! Gostei do texto. Bom dia, abraços, ;)

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  2. Obrigada, Suziley pelo seu comentário. Fico feliz que esteja gostando do meu blog. Vou dar uma olahda no seu.
    Abraços :-)
    Adriana

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