30/05/2010

Avatar - 2009, uma oportunidade perdida


Adriana Tanese Nogueira
   

          São azuis e de outro planeta, mas fora isso vivem a mesma história que os povos nativos das Américas sofreram nos últimos 500 anos. O mesmo ataque, a mesma injustiça, o mesmo massacre pelo delírio colonial de supremacia e riqueza. E sem final feliz.          
          Nada de novo. Fora os efeitos especiais, o filme não traz novidade alguma em termos de visão, idéias e perspectivas. Zero. Todo seu fascínio, que lhe valeram três
nomeações (melhor Cinematografia, melhores Efeitos Visuais e melhor Direção Artística) justificam-se pelo uso habilidoso da tecnologia: ou seja, bons computadores e boa arte aplicada, mais o ingrediente essencial, milhões de dólares.
          Com certeza prazeroso para os olhos, o filme Avatar, porém não oferece intuições oportunas a respeito de um assunto sério. Nesta produção cinematográfica reflete-se o conceito de que filmes são produtos do inconsciente coletivos e, enquanto eu o assistia, andei pensando que o inconsciente coletivo americano deve estar ruminado a carnificina perpetrada contra seus povos indígenas. Quem sabe sua consciência coletiva esteja pesando, ainda mais quando esses mesmos povos vivem exclusão e preconceito social.
          Os Na’vi, os nativos da lua Pandora, parecem uma réplica dos nativos americanos, só azuis, grandes e bons! Dividem com eles a mesma ligação anímica com a Natureza, o mesmo senso de respeito e dignididade, uma idêntica relação com a vida como energia inclusiva existente em todo ser vivo e não vivo. Até a linguagem lembrou-me a que ouvi em alguns documentários nativos. Naturalmente, os Na’vi de Pandora também usam arco e flecha e, curiosamente, carregam seus feridos da mesma forma que os nativos americanos faziam. Qual é a diferença entre os dois? Somente o desgastado e improvável final feliz, quando um bando de gente à mercê de armas poderosas surpreendentemente vence. Isso porque o público assim espera. Isso porque é preciso embotar a consciência pública para não encarar os rios de sangue derramado, as famílias e comunidades exterminadas, as mentiras e os acordos traídos que estão na base do nascimento do país que produziu um filme sobre os bons e sensíveis nativos que conseguem mandar embora os invasores.
          Nesse filme, a sedução dos efeitos especiais sobre a vista e as emoções atordoadas do espectador, põe em segundo plano o conteúdo dramático da história. Uma história que só pôde ser criada porque há um monstruoso capital disponível construído ao longo de séculos não só de trabalho e suor, mas de violação de direitos humanos. Tribus inteiras foram massacradas para liberar o território para a exploração de seu solo. Chutaram-se os “selvagens” como quem chuta longe um saquinho vazio que proventura encontra em seu jardim. A mesma situação contada no filme, só que realisticamente terminada, está na gênese da nação que hoje faz um filme onde projeta para outra galaxia os “humanóides” que aqui exterminou. A história contada do ponto de vista dos nativos, Sioux, Navajo e muitos outros, diria que foi a base da ganância e crueldade que as Américas surgiram.
          Enquanto babando assistimos a um filme cujos custosos efeitos especiais (que traduzidos em moeda poderiam tirar um inteiro país africano da miséria - possivelmente, um daqueles que a Europa e os EUA exploraram) nos fazem arrepiar com imagens e cenas impressionantes, aquela mesma história que o filme mostra continua viva na realidade. Os mesmos de sempre, muda o nome e o endereço, seguem destruindo a terra, as árvores e a vida em nome do dinheiro, da posse e do poder. A idéia segundo a qual a natureza há de ser dominada e abusada prossegue sendo a bandeira ideológica do capital. A percepção da vida como um entrelaçamento de energias que pulsam ao uníssono numa totalidade orgânica e inteligente é ridicularizada nas ações de quem tem o poder nas mãos.
          James Cameron, além de não reconhecer os créditos a quem o inspirou, perdeu a oportunidade para usar os milhões de dólares que conseguiu e a tecnologia e recursos humanos de que dispôs para fazer um filme que não só surpreendesse os olhos mas também a mente, contribuindo para estimular aquela consciência humana da qual precisamos para transformar a caixa de Pandora terrestre numa empreitada mais feliz.

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