19/05/10

A DIFERENÇA ENTRE PSICOLOGIA E PSICANÁLISE



Adriana Tanese Nogueira

Psicologia e psicanálise não são a mesma coisa. Há uma distinção essencial entre elas que afunda raízes em suas origens, e cuja diferença leva a distintas perspectivas e métodos de pesquisa, portanto diferentes diagnósticos e diferentes resultados.

O discurso sobre a alma (em grego antigo psyche-logos, discurso sobre a alma, do qual a palavra psicologia vem) é uma investigacão que nasceu nos tempos da Grécia antiga, entre outras relacionadas ao universo, à vida e à política. O primeiro “psicó-logo” foi Aristóteles (384 BC - 322 AC) um dos fundadores do pensamento ocidental e primeiro grande classificador das coisas do mundo. Em sua vida de pesquisas, Aristóteles categorizou o inteiro mundo conhecido na época, incluindo aquele da moral e do comportamento humano. Portanto, falou sobre a psique.

Na idade moderna, a psicologia ingressou no mundo da ciência pelo trabalho do alemão Wilhelm Wundt. Em 1879, ele fundou, em Leipzig, o primeiro laboratório dedicado exclusivamente à pesquisa psicológica. Desenvolvendo-se como um dos campos dos estudos experimentais, a psicologia era uma ciência entre outras. Sua filosofia de base se baseava no Positivismo que era a visão de mundo do tempo de Wundt. Nela, o ser humano é abordado usando a mesma metodologia utilizada para analisar uma molécula, uma planta ou um peixe. A ciência tradicional estuda a natureza (e os humanos são parte dela) tentanto identificar suas leis, que uma vez descobridas ajudam a prever e entender como o organismo funciona, detectanto, portanto, suas anormalidades. 

Freud (1856-1939), o fundador da psicanálise, não era um psicólogo. Era um neurologista e o novo campo de conhecimento que ele descobriu supunha um elemento desconhecido à psicologia e a todas as outras ciências convencionais: o inconsciente. Ele chamou essa nova ciência de psicanálise porque está baseada na análise da psique. A abordagem freudiana mantém a tradicional distância entre o observador (o analista) e o objeto de seus estudos (o paciente), portanto o analista freudiano fala pouco, escreve muito, e analiza o paciente, como se ele e o analizando pertecessem a espécies humanas diferentes. Esta perspectiva, entretanto, sacode as fundações do método científico convencional.

A referência principal da psicanálise é o inconsciente, o qual, por definição, está presente em toda pessoa, analista e paciente s, e influencia as atividades concientes e as percepções da realidade, também distorcendo a visão e manipulando a compreensão racional. Freud caminhou sobre um terreno instável que exigiria mudanças na epistemologia psicanalítica. Epistemologia é o ramo da filosofia preocupada com a natureza do conhecimento, cujas perguntas são: o que podemos conhecer? Quais são os limites do conhecimento humano? Assim, se a psicanálise supõe o inconsciente como seu objeto principal de estudos e o inconsciente é o desconhecido (tudo o que não é consciente) que interfere com a forma como conhecemos o mundo, chegamos num aparente círculo vicioso. Como, então, podemos afirmar qualquer coisa com objetividade? 

Freud contava com sua auto-análise para ajudá-lo a compreender seus pacientes. Isto o coloca numa posicão completamente diferente daquela de um psicólogo que vê a si mesmo como um pesquisador externo, para o qual o estudo de uma medusa ou de uma pessoa está baseado em premissas externas ao observador. Ao invés disso, Freud seguiu por outro caminho: através de sua experiência interior e do conhecimento assim obtido desenvolveu os instrumentos para ajudar seus pacientes. Apesar de Freud oficialmente permanencer nos limites da epistemologia positivista, sua prática revela na verdade a quebra deste paradigma, modificando o método científico.

Quem se tornou consciente dessa revolução e de suas consequências foi Jung (1875-1961), o qual alcançou horizontes que Freud não poderia imaginar. O histórico de Jung deu-lhe a liberdade para investigar o campo desconhecido que a psicanálise freudiana havia aberto. O método científico positivista (oriundo das ciências biológicas) foi substituído por aquele dialético (oriundo da filosofia) que melhor combina com a psique. A metodologia de Jung aprofunda o dialogo entre consciência e inconsciente, que Freud já utilizava, investindo na auto-consciência do analista e no que acontece na relação analítica, mais do que na analise do paciente de fora para dentro.

Para Jung, não somente os sonhos são, como disse Freud, a “via regia” (o caminho principal) para chegar ao inconsciente, como a inteira vida psíquica revela elementos e orientações úteis para o desenvolvimento da pessoa. E ainda por cima, o inconsciente não se resume a ser um “perturbador” das atividades conscientes. Na perspectiva junguiana, analista e paciente estão ambos engajados numa jornada de descoberta e de crescimento. Durante os muitos anos de experimentação e aprendizado tendo como base sua vida interior e a prática profissional, Jung desenvolveu sua psicologia analítica. Como aquela freudiana, da qual é uma evolução, a psicologia analítica junguiana, apesar do nome, continua sendo uma forma de psicanálise pois dessa nasce e nela tem suas raízes, nada devendo à “psicologia científica” acadêmica.

Se a psicologia estuda um ser humano como poderia estar estudando qualquer outro mamífero e a psicanálise está baseada no dialogo entre duas pessoas, então o primeiro psicanalista na história ocidental foi Sócrates (469 BC-399 BC). Seu método preanunciava a semente da qual a psicanálise iria nascer: o dialogo. Sócrates acreditava que todos possuiam mais conhecimento do que podiam imaginar. Através do dialogo, ele era capaz de fazer uma pessoa pensar para que chegasse à suas próprias conclusões, desenvolvemento uma surpreendente compreensão da vida e de si mesma. Imagine agora você sabendo mais do que acha que sabe. Onde estaria esse conhecimento? No seu inconsciente. Como acessá-lo? Pelo método psicanalítico.
A psicanálise é precisamente o dialogo reflexivo, inteligente, estratégico, presente, sensível e construtivo com o inconsciente. O psicanalista interage com seu inconsciente e aquele do paciente, ajudando este último a fazer o mesmo. Este é o objetivo da análise, enquanto a “terapia” tem o objetivo de “curar” como a palavra diz.

Em Jung esta idéia é levada adiante e está visível na setting analítico que elimina o divã e o substitui pelas duas poltronas, uma na frente da outra. O divã freudiano implicava que o analista investiga o inconsciente do paciente deixando o próprio de lado. O divã de Freud é como a bancada do laborátorio onde se apoiam os materiais a serem analisados. No setting junguiano o dialogo acontece em, pelo menos, quatro níveis: duas pessoas conversam, dois inconscientes interagem (através de sentimentos, sonhos e linguagem não verbal), duas pessoas se tornam concientes da interação inconsciente entre elas e de seus significados; uma pessoa ajuda a outra a se familiarizar com isso e começar sua jornada desdobrando sua própria unicidade.

É por isso que, em psicanálise normalidade é um conceito questionável, pois ele se refere ao mediano, à média estatística que ninguém gosta de ser. A normalidade que se busca em psicanálise é a incomparável singularidade da individualidade humana. Não só, a psicanálise, em sua versão junguiana e pós-junguiana, se parece com a Física Quântica e sua revolucionária abordagem à matéria. O observador e o observado interferem um com o outro sendo a objetividade no sentido tradicional impossível. Não é por acaso que a psicanálise nasceu na virada do século vinte junto à física moderna. Ambas pertencem ao novo paradigma epistemológico acerca da compreensão da vida e de seu significado.

10 comentários:

  1. Adriana, estou repassando esse post em meu blog tb( com os devidos créditos, bem entendido!)
    Achei muito importante a diferenciação, como vc tão bem explicou.
    abçs!
    Célia

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  2. GOSTEI, DESTA EXPLICAÇÃO, MUITO FRONTAL, PENA É QUE ONDE VIVO, A pSICOLOGA TER DADO CABO DE MIM, MAS FELIZMENTE SUPEREI OS PROBLEMAS , ELA KUANDO, ME FOI APRESENTADA DEVIA MOSTRAR, SEU CARTÃO DE PSICOLOGA

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  3. Casualidade, cartão não basta. Precisa "essência" que diploma pode oferecer.

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  4. Adriana, parabéns pelo texto bastante didático e esclarecedor. Vou publicá-lo em minha página do Face DIVÃ, atribuindo-lhe o devido crédito. Parabéns mais uma Vez! Beto César - Psicanalista

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  5. Adriana, seu post não está ruim, mas bastante tendencioso... A psicanálise atual não corresponde muito ao descrito acima, talvez na época em que foi criada sim, mas não se considerarmos as mais recentes contribuição de muitos pensadores como, por exemplo, Jacques Lacan, que também é um autor muito mal compreendido devido a complexidade de suas teorias. Não podemos deixar de considerar as evoluções de cada teoria, sejam elas da psicanálise, da terapia analítica de Jung ou de qualquer outra teoria, seja da psicologia ou não.
    Para fazer apontamentos sobre qualquer teoria é necessário que estudemos muito a respeito dela, tentando manter a "neutralidade" possível de um pesquisador, para que assim não cometamos algumas gafes e para que não sejamos tendenciosos.
    Dizer que a teoria de Jung é um passo a frente da psicanálise também é questionável e tendencioso, bem como fazer esta comparação entre qualquer outra teoria.
    De qualquer forma, você está de parabéns por tentar sanar dúvidas e trazer esclarecimentos a pessoas que se interessam por psicologia. Está de parabéns também pelos seus livros, que são muito interessantes, e pelo blog, que é bem estruturado e com temas amplos!
    Um grande abraço e boa sorte com o seu trabalho!

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  6. Excelente texto.
    Parabéns!
    Me ajudou a esclarecer duvidas sobre o que fazer na faculdade.
    Obrigado.

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