16/05/2010

Exorcismo e Psicologia


Adriana Tanese Nogueira

Esqueçam as cenas horrorosas de filme, com baba, berros e olhos arregalados. O exorcismo, que é “tirar um espírito maligno de dentro de um indivíduo”, é um dos métodos possíveis para resolver um problema real. Entretanto, para funcionar, o exorcismo tradicional deve contar com um exorcista verdadeiramente poderoso, coisa da qual estamos em falta. Se há uma carência na atualidade é a de poder espiritual positivo, de modo que só nos sobra a psicologia, e não a caso a Idade Média já passou.

          A psicologia faz fronteira com dois mundos distintos: o físico e o espiritual. Temos emoções que saram o corpo e outras que o prejudicam. Felicidade e serenidade trazem saúde, órgãos que funcionam e envelhecimento retardado; medo, ansiedade e insegurança levam a partos travados, ataques cardiácos, dependência de drogas e uma série de outras situações desagradáveis.
          Por outro lado, o que chamamos de espírito só pode ser percebido através de nosso psiquismo, caso contrário seria como pretender enxergar algo do mundo físico sem usar os olhos (lembro que não estou fazendo teologia mas psicologia). Toda experiência humana é psíquica por natureza, porque somos um sistema psíquico. Logo, a dimensão espiritual, qualquer coisa ela seja, se manifesta naquele espaço de transição entre duas realidades, na mistura entre dois elementos, o psíquico e o espiritual, no momento da transformação de um no outro.
          Jung chamaria este outro mundo de “arquetípico”. Espíritos e arquétipos são duas palavras com potencialmente o mesmo significado mas pertencentes a dois paradigmas diferentes. Os primeiros chamam imediatamente a atenção, os segundos só atraem os que sabem alguma coisa de psicologia junguiana, caso contrário parecem “esquisitos”. Uns são emocionalmente carregados, os outros soam abstratos. Na verdade, há chances reais de serem a mesma coisa, até porque o conceito de “arquétipo” que não é tão definido como gostaríamos que fosse. Tudo o que não é consciência vive nas margens das penumbras do inconsciente.
          Do ponto de vista psicológico, o exorcismo se torna necessário quando uma força externa (à consciência da pessoa) penetra no interior (ou seja se torna perceptível ao psiquismo consciente) e age sobre um indivíduo contra sua vontade (ou seja, contra seu modo “normal” de pensar) distorcendo seus pensamentos e ações. Esta é a manifestação da atuação de complexos (do ego) ou de arquétipos (do inconsciente coletivo/mundo espiritual) sobre uma pessoa a despeito de sua consciência e intenções. A ação deles é sempre negativa porque viola o livre arbítrio. Na prática, isso quer dizer que a pessoa faz coisas que não fazem sentido com o que ela fala, costuma pensar ou gostaria que acontecesse. É como um jogador de futebol que de repente começa a fazer gols na rede do próprio time e, ainda por cima, se alguém o contradiz fica enfuriado e nega estar cometendo um tal “absurdo”.
          Até aqui é psicologia, uma bela neurose… mas até que ponto? Quando começa a ser caso de exorcista? Quando os gols na rede do próprio time (vida pessoal prejudicada, família nocauteada, trabalho e futuro em perigo, etc.) são demais. Quer dizer que o “espírito maligno” está tomando sempre mais espaço.
          A possessão é diferente da loucura, nesta o controle do ego é totalmente perdido e com ele vai-se toda lógica racional (apesar de haver uma lógica simbólica). Seguindo o exemplo acima seria como se o jogador se metesse a sambar em meio ao campo. Na possessão, ao contrário, permanece a lógica tradicional mas ela está barbaramente distorcida. A possessão é geralmente momentânea, fazendo com que uma pessoa alterne entre jogar direito e jogar contra. A lógica da possessão negativa é aquela da destruição (disfarçada ou explícita), é como se houvesse um ímpeto na direção de destroçar coisas (inclusive as queridas) e limites, sobretudo aqueles impostos pela “luz” (ordem e consciência) e seus representantes. É como uma raiva poderosa que quer acabar com tudo - propositalmente. Mas não é isso que a pessoa quer e ela não reconhece em si essa “raiva”, apesar de naquele momento submeter-se a essa força devastadora e encarná-la em cheio.
          Este quadro é facilmente encontrado entre os dependentes de álcool e possivelmente de outras drogas também. Experiências desse tipo são sempre negativas porque anulam a liberdade individual e abobam a pessoa, ou seja, ela não raciocina mais direto apesar de achar que sim e de defender-se até a morte da hipótese contrária. Pode-se explicar essa condição como a possessão e atuação do aspecto negativo de um determinado arquétipo o qual age sem a participação da consciência e desta forma não só perpetua seu poder, como reduz consideravalmente as chances da pessoa se dar conta do que está acontecendo. A esse obstáculo se soma o orgulho individual (um dos sete pecados capitais!) que torna extremamente doloroso reconhecer a própria fraqueza e de dominação por forças arrasadoras alheias à própria vontade.
          É aqui que um belo exorcismo pouparia anos de sofrimento a indivíduos e famílias, dando à pessoa as condições de estar pronta para começar um trabalho terapeutico sem todo aquele espernear e berrar, sem a agressão enlouquecida e a autodestruição obtusa. A vida é curta demais.

2 comentários:

  1. Mas seria um exorcismo com padre mesmo? tradicional? Ou vc imagina terapeutas que cumpririam esse papel? Seriam "especializados"...
    Interessante esse ponto de vista...

    Bjkos
    Paula
    http://tentativaerroexperiencia.blogspot.com/

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  2. É uma "viagem" minha, Paula. Como disse, há pouquíssimas pessoas com poder espiritual. E não necessariamente são padres, pelo contrário. O fato que quis frisar neste artigo é que existe uma dominância espiritual de algo negativo que precisa ser quebrada para que a pessoa faça um trabalho terapêutico proveitoso. O psicoterapeuta com consciência disso pode avançar algumas táticas, mas como está falando com pessoas supostamente conscientes, sua ação chega até um certo ponto. Os exorcismo de uma vez não existem mais e isso porque as pessoas estão diferentes também. "Encapetadas" ou não, são mais racionais, mais conscientes...

    (desconsidere o nome no meu perfil, não é o meu mas de minha mãe, não consegui consertar isso ainda!)

    Abraços
    Adriana

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