27/05/2010

A guerra entre mundos: sonho de uma menina

Adriana Tanese Nogueira

“Começou com uma tiroteio. O céu estáva cinza. Muda a cena, aparece na minha frente um enorme mapa do mundo, ele é bidimensional e retangular. Está dividido em duas partes: a de cima é o Oeste, a de baixo, o Leste. Um mar separava as duas metades do mundo.
          No Leste, vi canhões apontando para o Oeste e jogando bombas. Pessoas colocavam incansavelmente bolas nos canhões. Outras, com submarinhos atravessavam o mar, passando bem ao fundo, e chegavam na costa do Oeste atacavam sem parar. Enquanto isso, no Oeste, havia cientístas trabalhando para criar bombas poderosas para jogar sobre o Leste. O objetivo de cada um dos lados era exterminar a outra raça, para que só ficassem eles sobre a Terra.
          Vi-me numa cozinha, ela ficvaa ao lado de um hospital. Meu trabalho era fazer chá para as pessoas feridas. Eu estava no Oeste.
          Sai do hospital e ando. Passei perto de um grupo de soldados reunidos, dos quais ouvi a conversa. Eles falavam sobre religiões e diziam que tanto no Oeste como no Leste haviam guerras internas, entre tribus. No Oeste tinham os católicos (cristãos) e os atéus. No Leste, hindus e budistas. As armas usadas para essas guerras não eram tão poderosas como as usadas na grande guerra entre Oeste e Leste, pois ninguém queriam destruir a terra onde eles próprios moravam. Os soldados continuavam dizendo que os cristãos eram muito agressivos, atacavam budistas e hindus por considerá-los errados. Eles também falaram que tinha essa guerra perto do hospital, que era entre os hindus no território do Oeste. Disseram que eu tinha que ir embora. Eu, porém, sabia que precisava ficar mais uma noite lá no hospital.
          Eu não pertencia a nenhum dos dois lados, mas não falava nada pois não queria ser puxada por lado algum. Havia muita, muita guerra e matança. Via cenas de batalha, homens a cavalo, com espadas, pessoas sendo apunhaladas nas costas, cabeças sendo cortadas. Havia um mar de sangue por todo lugar.
          Estava no hospital e chega minha irmã mais velha, uma adolescente. Ela não parecia estar muito aí com a situação. Tínhamos que desinfetar todas as coisas para os doentes e ela não se preocupava muito com isso.
          Ficou bem escuro e esse era o tempo mais perigoso porque na escudirão é mais fácil de se esconder e atacar as pessoas. Eu disse: 'Vamos fazer isso rápido.' Estava fazendo um chá de camomila para esse guerreiro que estava chegando. Aí, tive essa sensação de que o chá tivesse sido envenenado. Minha irmã achou que não, mas eu fiz um outro chá bem rápido e joguei esse embora, nesse momento sua cor se torna vermelha, parecendo sangue.
          O guerreiro chegou. Fiquei muito impressionada ao vê-lo: estava perdendo uma perna, um braço tinha sido cortado e os olhos estavam injetados de sangue. Ele disse: 'Deixa eu te mostrar a situação no Leste.'
          Fomos nesse lugar que tipo islâmico e havia essas mulheres. No começo, pensei que se tratava de blocos postos no chão, pois elas estavam agachadas, enroladas em si próprias, abraçandos seus joelhos e envoltas em sua roupa larga. Todas estavam agrupadas em volta de um alto poste. De repente, elas rolaram para trás e então apareceu essa corda bem grossa amarrada ao calcanhar de cada uma delas e ao poste. O guerreiro me contou que as mulheres eram muito abusadas, que se alguém estiver passando por lá, podia pagar e fazer tudo, tudo-tudo o que quiser com essas mulheres. Elas eram, principalmente, violentadas.
          Eu comecei a chorar. Uma delas estava falando assim: 'Me ajuda, me ajuda!' Todas vestiam aquelas roupas compridas que escondem tudo e só mostram os olhos. Cada roupa era de uma cor diferente, mesmo modelo, mas cor diferente: vermelha, amarela, verde e azul. A que estava falando comigo tinha roupa azul escuro.”
          Este sonho é de minha filha de 12 anos, um retrato onírico da realidade na qual vivemos. Espetacular, não é? E chocante. Se trata de um sonho arquetípico e prospético, muito maior do que a consciência de uma menina na entrada da adolescência.
          O sonho traça um quadro realista do nosso mundo - que é o mundo no qual ela terá de entrar. Se nem todos temos bombas concretas destruindo nossas casas, temos todos porém o desentendimento, o julgamento e a rejeição; temos as puxadas de tapete, as mentiras, a falsidade, o engano, a maldade. Há metades do mundo (e metades da psique) em conflito acirrado, ao qual se somam as guerras internas (conflitos inconscientes) expressas na imagem das disputas religiosas, a eterna luta para afirmar um deus (aqui em minúsculo, sim, porque não se pode respeitar um deus que promove a guerra) no lugar do outro. Ninguém está unido, a não ser na dor e no sangue. O mapa mostra um mundo bidimensional, onde falta a terceira dimensão: profundidade, insight e sensibilidade. Este mundo é retangular, uma forma geométrica longe da harmonia do círculo (mandala da totalidade) ou mesmo do equilíbrio do quadrado. O sonho termina com a imagem atroz de mulheres, presas, à mercê do abuso. Mulheres escravas. Assunto esse muito importante pois o sonho é de uma futura mulher.
          A guerra entre Oeste e Leste é, psicologicamente, a guerra entre consciência e inconsciente. Este conflito atravessa todas as pessoas nos dias de hoje e é reconhecível na briga interna entre o que se pensa e o que se sente, o modelo e o real, isto é: entre o que se pensa que deveria ser (os valores oficiais aprendidos e seguidos pela pessoa) e o que de fato se sente e deseja. Essa dicotomia interna gera neuroses, conflitos externos, insatisfação e todo tipo de problemática psicológica e relacional.
          Nas guerras de religião cada deus representa uma visão da realidade, da vida, do sentido de cada um (uma ideologia). Deus é aqui o ponto de referência, a cabeça de um sistema humano, a forma de viver e de agir. Podemos enteder o significado desse conflito se o transportamos para nossa realidade pessoal. Pode-se ser rechaçados e perseguidos sem ter feito absolutamente nada, ou pode-se ser puxados para uma competição acirrada sem querer. A despeito dos esforços em prol da paz e da falta de interesse para com a guerra, parece impossível desarmar os outros. Por que? Porque nosso modo de ser assusta. Não é preciso fazer nada, basta existir. Nossa opção de vida é encarada como um questionamento das verdades alheias. Isso é suficiente para sermos atacados com o objetivos é “sermos exterminados”, isto é de eliminar qualquer marca da nossa presença, daquilo que significamos, das ideas e modo de viver que temos. Querem nos “apagados do mapa”.
          A mesma dinâmica é visível no conflito psicológico: quando é hora de mudar de vida, de interpretação dos eventos, de perspectiva, ou seja, quando é hora de evoluir, o ego não reflexivo esperneia e se opõe, considera a mudança uma negação in toto do que ele é e de como levou a vida até então. O conceito e a prática da dialética não foi ainda absorvida pelo sistema humano, não existe a idéia da negação que é uma superação, de um estágio que leva ao outro. Impera a dicotomia: ou eu ou você. Como diziam os antigos romanos: a minha vida é a tua morte.
          E chegamos às mulheres. O que se faz com o feminino reflete o que se faz com o sentir interior: o se acorrenta e abusa. Os valores que se perseguem são do ego, não do ser interno, portanto, o que esse ser interno diz é desconsiderado. Violenta-se o amor, o desejo, os sentimentos, as intuições. Em nome de valores sociais padronizados, de estereótipos e mitologias de gênero o que se tem dentro é rotineiramente violado. E é por isso que no final, as mulheres de carne e osso são consideradas “loucas” quando dão voz ao que sentem de profundo.

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