20/05/2010

Homens com complexo materno negativo

Adriana Tanese Nogueira


Ele se apaixona por uma mulher, e flutua nas núvens da alegria. Sempre buscou ele uma mulher assim, as outras relações não deram certo, as outras mulheres “não tinham nada a ver”. Agora, sim, ele encontrou sua “alma gêmea”; está pronto para iniciar uma nova vida a dois.
          O tempo passa e, apesar do grande amor, algumas brechas racham a compacta unidade do relacionamento. Venenosas percepções e interpretações poluem a crença beata de uma união feliz. O homem porém continua acreditando, empolgado como está pelo seu sonho, enquanto seu comportamento trai outra perspectiva. Ele é ciumento e desconfiado. Inseguro, se assusta se mulher veste tal roupa ou se ela olha pelos vidros do carro quando viajam. Até mesmo sem querer, ele lê a recusa nos gestos dela, pior, ele começa a reagir agressivamente a toda suposta rejeição da parte dela sem ao mesmo ter conferido, perguntado, conversado.


          O fantasma da traição entra em cena, poderoso e tirânico. Sob sua luz torpe, os modos dela são interpretados. Seu semblante, comportamento, escolhas e palavras são duramente esquadrinhados. Nada mais é espontâneo e confiante. A qualquer hora, ele espera ser traído: ela com outro, ela indo embora, ela abandonando-o. Ele espera por isso e está  no fundo apavorado, melhor então rejeitar antes de se rejeitado. Dirigido como uma marionete pelo espectro que o assombra, ele torna a vida dela um inferno.
          O amor (ou sua eco) continua ainda vivo, palpitante pede trégua e graça. Mas a relação vacila sob o peso do monstro da perfídia e deslealdade. Ele não acredita. Quando se solta é quase por engano, logo é atormentado pela obsessão que cutuca sua mente: defender-se, precaver-se da própria mulher que o ama e que ele ama.
          Confusa pelas contradições dele, ela sofrerá a relação e, com o tempo, o peso do martírio se tornará insuportável. Ela é agredida verbalmente e usada como bode expiatório, é-lhe retirado todo o suporte. Ela tem um inimigo em casa, quem não se fia de alguém não pode ser seu amigo. Até quando ela vai aguentar? Isso vai depender de sua consciência. Como as mulheres estão historicamente acostumadas a não serem tratadas como rainhas pelos homens que amam, ela vai aguentar por um tempo. Mas se for uma mulher de personalidade não permitirá ter sua autoestima destruída e chegará o dia em que dará um basta na relação, mesmo tendo que dilacerar seu coração. Amor que só dói deve ser doença.
           Ela vai embora, e ele confirma assim que todas as mulheres são traidoras, que não se deve confiar no amor, talvez ele até não mereça (mas não dará o braço a torcer) mas o fato é amor e mulheres não funciona. Mulheres e sexo, sim. Mulheres e amor, não - melhor ser precavido. O coração ávido por amar sangrará no peito mas o homem assolado pelo complexo materno negativo o trancará no baú escuro, regará o terreno a whisky e mulheres fáceis (todas as que não se amam), endurecerá seu corpo e levará adiante a vida no vale de lágrimas. Amém.
           Este quadro desolador é o resultado, entre outras coisas, de uma condição psicológica desequilibrada. Há na raíz da experiência afetiva desse homem uma relação com a mãe marcada pela traição. O abraço materno não era sincero, não havia entrega profunda, acolhimento e aceitação - vitais na construção da pessoa humana em sua primeira infância. No momento da máxima vulnerabilidade faltou verdadeiro amor materno.
           Há vários níveis do problema e várias razões dele existir:
  • A mãe não estava perto por motivos que vão além da vontade dela; nesse caso o sentimento de rejeição é grande mas pode ser suavizado pela presença verdadeira no tempo de qualidade que mãe e filho passam juntos;
  • A mãe estava mas não queria ser mãe, não escolheu a gravidez, não tem aptidão para a maternidade, prefere outras coisas. A rejeição é explícita e dolorosíssima. A única saída aqui é ter a sorte de ter um surrogado de mãe por perto: tia ou avó;
  • A mãe não está feliz no casamento e não queria ter filhos ou não queria ter este filho, talvez porque ele é o caçula e ela já teve o bastante, ou talvez porque este filho se pareça com o marido que ela não ama, ou talvez porque este filho está vinculado a ela por laços não felizes de outras vidas e o ódio de então não se dissolveu ainda.

          Qualquer que seja a situação, esse menino crescerá sem o amor materno. A menos que a rejeição seja explícita (o que não é comum), ela será camuflada pela hipocrisia, e o segredo a respeito dos verdadeiros sentimentos será mantido por ambos: mãe e filho. Pela mãe, porque esta não pode nem consigo mesma admitir que ela não ama o filho (seria um escândalo social e psicológico de proporções gigantescas); pelo filho, porque, como todas as crianças, ele pensará ser o encapetado não merecedor do amor materno, e se admitisse não ser amado “sem motivo” sua autoestima despencaria assustadoramente. Mãe e filho estarão vinculados uma ao outro pela fraude.
          O dia em que esse homem se apaixonar (porque, apesar de tudo, ele é capaz de amar), como poderá ele entregar-se de verdade, do fundo do seu coração a uma mulher? Tudo o que sua alma afetiva conhece sobre mulheres é o que ele aprendeu com a primeira mulher de sua vida: sua mãe.

31 comentários:

  1. comentario bonito e perfeito ! vale tecer uma analise simples do comportamento feminino sob a otica paterna.nao querendo suscitar um comentario de analise edipiana ou coisa do genero,creio que ja vi coisa semelhante ocorrer,porem com causa e origem mais profunda em uma mulher.

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  2. Andre Miguel... desculpe, mas não entendi o que quis dizer. Disse e não disse. Pode ficar tranquilo com relação a "análise edipiana" - não faço.
    Abraços

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  3. olha sinceramente muito macabro surreal porque homens são menos vingativos comprovadamente quando toman um pe na bunda agem como se fosse nada acredita se que mulher ja nasce com espirito da vingança!!por isso muitas veses 93 por cento delas senten ciumes e não se expresão igual aos homens mostrando e falando que estão com ciumes por
    alguma coisa mostrando que tem algo errado
    pedindo uma explicação.mulher por sua vez
    não falan sofren caladas por orgulho preferem
    alivia se de varias maneiras diferentes entre(traição)não se manisfestando diante do homen quando levan um pe na bunda mudão totalmente 93 por cento delas não são as mesma!!!por isso macabro.
    ignorancia e machismo arrogancia por minha parte mais logico ou seja (mulheres esquecem de troca o modis mais não se esquecem de se vinga)anonimo!!!homens não são todos maravilhosos não existe homen maravilhoso existe homen concordista que fais acordo com a mulher que aceita são felises os dois quando o acordo e bom pros dois !!!!!de uns tempos pra ca estamos sendo detonados!!!macabro feminista por
    parte de mulheres com esse conceito.......

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  4. Roberto, não é "macabro feminismo" esse, mas um aspecto da realidade. Veja o outro meu post "Chantagem contra os homens: a (quase) imbatível arma feminina".

    Leia também um outro: "Homens e sua sombra".

    Enxergar algumas realidades não significa que tudo seja assim. Sorte que não. Nem significa que as mulheres sejam santas... Tenho certeza que não!

    Paz e amor para você :-)

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  5. Adriana, estava procurando textos sobre sentimento de rejeição e achei esse texto muito interessante. Caso não conheça, sugiro que leia "Homens que odeiam suas mulheres e mulheres que os amam". Apesar do título simplório e marketeiro, o assunto do livro é complexo e tem relação com o que você escreveu. Aliás, algumas atitudes de insegurança podem vir até mesmo daquilo que você chamou de complexo materno positivo em outro texto. Há também a influência (ou falta dela) do pai. Um pai ciumento, por exemplo, pode ser incluído no primeiro caso que vc citou.
    Muita paz e muita luz para você.

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  6. Concordo, Le Moritz, o assunto é complexo. Algumas atitudes masculinas de insegurança podem derivar justamente do complexo materno positivo, quando a figura materno é tão endeusada que acaba se tornando uma aranha que tudo engole...
    Boas coisas para vc também.

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  7. como o conteudo tão denso pode estar veiculado por linguagem tão sutil?
    gostei muito.
    abraço.

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  8. Adriana, estou encantada com o seu Blog! Parabéns!

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  9. Sinto muitos aspectos relacionados no seu texto, na verdade tenho trabalhado em terapia para descobrir o que aconteceu com uma relação que era pra ser "perfeita". Identifico muitos fatores que levam a crer num complexo negativo, porém a imagem da minha mãe é de alguém que sempre se doou e ainda se doa muito para a família - o que levaria a supor num complexo positivo.
    Mas interessante ler, pois eu sou o caçula, então de repente o sentimento de "ter mais um" pode ter gerado uma espécie de rejeição não exteriorizada, pois sempre que eu trabalho em terapias surge esse sentimento de rejeição muito forte...
    Muito esclarecedor o texto.

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  10. Bruno, quando lidamos com psicologia temos sempre que considerar pelo menos 2 níveis: o consciente, manifesto, explícito e o inconsciente, não dito e implícito. Nem sempre essas duas camadas da psique andam juntas. A essas duas eu acrescentaria uma terceira, mais profunda que Jung chama de arquetípica e que está ligada às vidas passadas. Esta é ativada como qualquer complexo é ativado...

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  11. Sou filho de uma mãe dessas. Talvez isso explique meu vício em pornografia e minha visão deturpada da figura feminina, além de outra penca de transtornos.

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  12. Agora que tem consciência disso, espero se trate.

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  13. carlos vieira

    Estou passando por essa situação de desencontro com minha mãe. Sinto exatamente o que diz no texto: "Amor que só dói é doença" Seu casamento sempre foi cheio de crises e eu tive que crescer dentro desse conflito. Carreguei durantes anos muita culpa e hoje sinto não amá-la como já amei.

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  14. Pois qusndo fui amadurecendo e vendo o mundo pelo meu ponto de vista descobri o quanto minha mãe havia manipulado meus sentimentos em relação ao meu pai como uma forma de vingança e ainda teve a coragem de abusar sexualmente de mim! Perdi toda a confiança... carlos vieira

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  15. Acho que para o homem é mais difícil do que para a mulher reconhecer a mãe negativa dentro e fora dele. Há muita culpa e sua masculinidade lhe dá a ilusão dele ter que ser de sua mãe escudeiro e protetor fechando os olhos às manhas femininas que ele, como homem, perceb ainda menos que nós mulheres. Mas é preciso superar essa situação, porque ela prejudica o amor à outras mulheres.

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  16. Adriana, é possível uma ligação desse quadro com uma relação de duplo vínculo de Bateson?

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  17. Adriana, você pode indicar bons livros sobre essa questão da mãe ter "traído" o filho, não dando-lhe amor adequado, de maneira a ter repercussões futuras, como a dificuldade de confiança, o negativismo em relação as pessoas, etc? Elguém cunhou algum termo para isso? Obrigado

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    1. Não saberia dizer. Essa situação é extremamente comum. Se trata de um complexo materno negativo que afeta a vida afetiva dos homens com as mulheres.

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  18. Olá! Seu texto é muito bom. Eu sou exatamente assim, no entanto, vivo muito bem comigo.

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  19. bom, sou muito confiante naturalmente, me acho privilegiado, sério... fisicamente e principalmente mentalmente... o q me trouce aqui, foi o fato q apesar de tudo isso, tenho uma confiança inicial com mulheres precária, a prova é q quando estou alto, isso some e as coisas dão certo nos relacionamentos... já fui ninfomaníaco, não adiantou nada, foi uma tentativa de acabar com esse tipo de problema... ela é muito critica, e muito imatura, nunca pensa q sou filho e q ela pode me atingir... sou muito veraneável nessa área... e sabe o q é pior, é q sou bonito, então quando mostro falta de confiança com as mulheres... me olham como se fosse um alien, talvez seja apenas um pressão introspectiva, como falou... n vou falar a minha mãe, acho ela uma idiota... o q eu faço, terapia? relação séria? afeto, sinceramente n quero... ela já me fez mt mal... o q deixa doido é q apesar de ter uma percepção melhor q a dela... julgo sempre usando a razão, não consigo controlar essa droga de sentimento... quais minhas opções?

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    1. Vc precisa ter mais controle sobre você e autoconhecimento para entender suas reações e como você funciona. Isso se consegue não lendo um livro mas conversando por um tempo adequado com outra pessoa que seja competente no entendimento do comportamento e da psique humana - o que geralmente é um psicoterapeuta porque se trata de um trabalho empenhativo que precisas ser recompensado. Sim, você precisa de uma boa terapia.

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  20. A descrição parece muito a descrição de uma personalidade borderline, esse complexo é enquadrado nessa situação ?

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    1. Não necessariamente. Este quadro é muito comum: homens que têm uma relação conflitual com mulheres que não apresentam reais problemas evidentemente têm uma visão distorcida do feminino... e de onde ela pode vir se não de sua mãe? Ou seja, oriunda da primeiríssima infância? Isso se ficarmos somente na psicologia da vida presente...

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  21. Eu vivi um relacionamento com um homem assim. Desde o primeiro dia ele disse que tinha um problema de rejeiçao com a mãe e que ela prefere o filho mais novo. Quanto mais eu o amava mais ele tentava estragar a relaçao e dizia que nem ele mesmo se ama, como eu poderia amá-lo. Saí da relaçao muito machucada. Queria ajudá-lo mas ele mesmo não se ajuda. Eu estou fazendo terapia pra superar o desejo de ir atrás dele.

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    1. Meu Deus, tambem estou vivendo isso...e dói demais, ele ser assim pelo complexo. E tudo comecou qdo eu estava gravida. Hj meu filho com 3 anos precisa dele e ele foi embora, arranjou outra. Diz que se preocupa muito com tudo, que quer se autoconhecer, mas para "tapar o sol com a peneira" arranjou outra. Será que sempre é assim? Consegue se tratar um complexo desses? Ou todas as mulheres desistem?

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    2. Tudo dá para tratar - se a pessoa quiser...

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  22. Tive um relacionamento de mais de 10 anos com um homem, que desde o início dizia que tinha dificuldades no relacionamento dele com a mãe, eles quase não se comunicavam, mesmo vivendo dentro da mesma casa. Perdeu o pai muito cedo a quem era muito ligado e acredito que de uma certa forma ele a punia por isto, pois ele dizia que ela nem chorou no seu enterro. Tive dois filhos, um casal, com ele, mas eu os criei sozinha. Ele os abandonou financeira e emocionalmente. Quando vivíamos juntos ele nunca estava conosco, vivia na rua bebendo e com mulheres e estes foram os motivos que me fizeram separar dele, além de eu ser tratada como se eu fosse uma vagabunda, uma prostituta, ao passo que eu sempre fui uma mulher de família, ficava em casa cuidando com muito esmero de todos. Ele hoje tem outra família, filhos e procurou uma reaproximação dos nossos filhos, disse que mudou, não neguei a ele esse direito, mas percebo que ele continua mentindo como sempre, iludindo, dizendo que vai fazer algo, mas não mantem a sua palavra, vejo ele como um manipulador, chego a pensar que pode ser até um psicopata. Eu o amava muito e me doeu toda a nossa separação, mas eu não aguentava a vida que levava com ele, eu não merecia aquilo tudo de ruim, eram noites e noites na rua, não podia contar com ele para nada. Há muito tempo que procurava entender porque ele agiu comigo assim e este texto para mim foi a luz no fim do túnel. Não refiz minha vida, tive relacionamentos esporádicos há uns 8 anos atrás, vivo só com eles e eles são tudo pra mim. Mesmo quando fiquei com outros homens mantinha a esperança mesmo distante diante dos acontecimentos que ele poderia se arrepender de tudo que fez e viver uma vida normal junta à família o que caiu por terra quando fiquei sabendo que ele teve filhos com outra mulher, não sei como ele vive com ela, nem como ele é com os filhos, mas toda esta situação me deixou arrasada e descrente ainda mais com relação ao mundo masculino, pois para mim eles vivem brincando de casinha e esquecem que filhos e família e pra vida toda!

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  23. Ficaria muito agradecida se vc pudesse me esclarecer com mais informações o meu comentário acima, se estou no caminho certo com as minhas indagações, se posso parar a minha busca por aqui e o que eu devo fazer para esquecer a vida triste que eu tive e continuo a ter, não em todos os momentos, porque mesmo vivendo isto sempre procurei trazer alegria e harmonia no meu lar,aos meus filhos para que eles sentissem o mínimo possível os efeitos das minhas escolhas. E mesmo não convivendo diretamente com ele, pois o meu desejo, mesmo que distante de sermos ou que nunca fomos, na realidade dele ser o Homem e o Pai que nunca foi permaneceu sempre em meu coração!Muito obrigada pelo seu texto!

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