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O que são as projeções psicológicas


Adriana Tanese Nogueira

          Conhecemos a nós mesmos atráves das pessoas, coisas e situações que nos agradam e desagradam. A projeção é a forma como a psique interage com o mundo e se distingue dele. Ela pode ser positiva ou negativa; sobretudo, ela é um mecanismo psíquico geral perfeitamente normal (Jung).

          Projetamos os traços que admiramos (mas acreditamos não pertencerem a nós) sobre heróis e figuras públicas, ou simplesmente sobre o colega, o vizinho, ou o amigo. Criamos ídolos e indivíduos poderosos a partir de nossas própria “carne” psicológicas. Empoderamos-os de nosso próprio poder, porque eles são “o que nós, infelizmente, não somos”.
          O que acontece com o endeusamento dessas figuras é que desta forma não precisamos nós mesmos nos levantar e arregaçar as mangas. Dá muito trabalho transformar um sonho em realidade, mudar de padrão, ou ser qualquer coisa queiramos ser. Ídolos, como ursinhos de pelúcia, são agradáveis, podem ficar na prateleira e nos lembrar que uma vida bonita de fato existe… Mas vamos voltar agora para o sofá, relaxar e comer umas pipocas!
          O mesmo se aplica às projeções negativas. Nos livramos do que é desagradável de encarar jogando-o sobre outra pessoa. Nós literalmente vestimos a outra pessoa com nossas fantasias. É outra forma de criar um mundo confortável: nós temos os ídolos numa prateleira e os maus elementos na outra. E nós o que fazemos? Nós podemos confortavelmente esticar nossas pernas naquele mesmo sofá e…!
          Para transformar a projeção em um recurso para o auto-conhecimento é preciso enfrentar o suado processo de olhar para si mesmos e pôr em funcionamento o trabalho psicológico. Menos a pessoa for consciente mais suas projeções serão como balões gigantes, flutuando bem além da realidade. Entretanto, há um gancho. Os objetos de nossa projeção têm algo a ver com ela.
          Não somos malucos que vêem um cavalo e projetam sobre ele um macaco. Os ídolos possuem algumas das qualidades que lhes damos. A pessoa má possui um mau caráter. A questão é que a projeção inconsciente cria absolutos. Daí os ídolos se tornam Os Ídolos, e a pessoa má vira O Demônio. É a parte infantil dessa história.
          Uma vez que você adquirir consciência de suas projeções, ídolos e demônios continuam existindo, mas você não se sente mais tão mexido com eles. Você deixa de ser um pio seguidor de novos ídolos ou um fofoqueiro dos maus caráteres. Crescer para além das projeções é uma forma de liberdade. Agora você compreende por que aquelas pessoas são do jeito que são e aprende algo de importante a respeito de si mesmo. Então, simplesmente, você vai adiante.

Comentários

  1. Muito bom..adorei o texto.. e tudo que esta nele é verdade.. as pessoas vem elas mesmas nas outras pessoas.. essa idéia de ir além das projeções.. é também eu questão de liberdade.. de não se preocupar com o pensam ou dizem os outros a nosso respeito.

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  2. Sim, paty91ps, é uma questão de ser maiores :-)
    Uma vez enxergada a projeção, reconhecida e elaborada internamente, se vai simplesmente além dela, sendo maiores do que qualquer parte que se projetava. E isso é verdadeira Liberdade!

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  3. Oi. Estou no estado de confrontar/compreender minhas projeções (positivas e negativas) e realmente é uma fase muito dolorosa, muito difícil!!!!! Hoje vejo que não precisamos de projeção porque podemos ser o nosso próprio criador da nossa vida. Mas se não passasse por isso, realmente alcançaria esta percepção? As projeções são realmente necessárias? Os animais crescem e desprendem rapidamente da família e segue seu instinto. Porque, nós que somos seres humanos que construimos coisas e desenvolvemos tecnologia, não somos avançados como os animais que conseguem rapidamente tornar-se auto-suficiente?

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    1. Projeçõs são inevitáveis e necessárias. E nossa psicologia é infinitamente mais complexa daquela animal.

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  4. Eu até ia escrever alguma coisa sobre a sua fala, e porque a sua postura sorridente nos acolhe afavelmente como uma brisa em noite abafada!Contudo não me senti encorajado, posto que todos os comentário, oportunos e coerentes,porém sem nenhuma manifestação masculina! Nada contra, sobretudo porque as projeções alcançam indistintamente os dois sexos! Gostei do seu enfoque!

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    1. Então, quer dizer que você é o primeiro homem, parabéns! Que mais homens tomem coragem de ler, aprender, evoluir, se posicionar... :-)

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  5. Muito bom seu artigo, Adriana! Esse foi o único artigo sobre projeção (dos que eu li até agora) que aborda o lado positivo também. Vc poderia me indicar algum artigo, estudo, ou livro que trata da projeção psicológica no processo de avaliação de desempenho nas organizações, e como o avaliador pode evitar essa armadilha?

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    1. Guilherme, não tenho o que indicar. Sua pergunta me pegou de surpresa. O que você pede é uma análise detalhada de uma situação que tem vários aspectos. O positivo da projeção foi explicitado por Jung. Sempre projetamos alguma coisa e como usar isso para o melhor é uma boa pergunta que pode ser aprofundada analisando uma situação específica. Se não falamso em abstrato usando etiquetas que não é do meu feitio. Gostei da sua perspectiva mas só conhecendo a realidade para avaliar. Deve ser um prato cheio! E não, não tenho livros para indicar. Sorry.

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    2. Obrigado pelo feedback. Como vc pode ver, não sou dessa área, mas enfrento esse desafio no trabalho. Já vi casos do avaliador projetar seu(s) defeito(s) no avaliado. Gostaria de ter ferramentas para saber se estou cometendo e evitar de incorrer nesse erro... não bastasse toda a subjetividade envolvida no processo.

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    3. Se observe então quando simpatiza e antipatiza com a pessoa e analise o que sente enquanto está com a pessoa. Observe se há uma relação com FATOS (CV, po ex., comportamento) e observe as raízes do que sente DENTRO de você, porque dizem respeito a você. Não tome decisões nunca com base nisso :-) E tem muito mais... mas aí precisaríamos de uma sessão.

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