13/05/10

Principais diferenças entre Freud e Jung


Adriana Tanese Nogueira


Tem um antigo ditado que aprendi nos meus tempos de estudante de psicanálise, “Um homem caminha por uma estrada e encontra dois outros homens. O primeiro lhe pergunta de onde ele vem, o segundo, para onde ele vai. Esses dois homens são Freud e Jung.”  

          Sigmund Freud (6 de Maio de 1856 – 23 de Setembro de 1939) foi o fundador da psicanálise. Ele criou sua teoria após e por causa de seus estudos sobre uma interessante “doença” muito difundida naqueles tempos: a histeria. Carl Gustav Jung (26 de Julho de 1875 - 6 de Junho de 1961), que Freud havia inicialmente proclamado seu “herdeiro”, foi adiante a partir da experiência de outra doença psicológica: a esquizofrenia. Ambos os pioneiros trabalharam essencialmente com mulheres, seu principal objeto de pesquisa. Ele se depararam estupefatos diantes das atividades do inconsciente, que como eles perceberam podia tão profundamente subverter e conturbar a vida de uma pessoa. Entretanto os dois também chegaram a conclusões muito diferentes.
           O pano de fundo sócio-cultural de cada um era bastante diverso um do outro. Freud era um judeu e sua vida em Vienna (Áustria) sofreu o preconceito racial. Quando jovem, Sigmund testemunhou a fraqueza do pai quando um homem passando pela rua lhe jogou o chapéu no chão num gesto de desdém ao qual o pai de Freud não reagiu. Jung, de outro lado, cresceu na pacífica e eternamente neutra Suíça, filho de um pastor cristão que havia perdido sua fé interior. Do lado da mãe, Jung contava com o grande Goethe entre seus ancestrais. Assim, enquanto Freud experimentava insegurança do ponto de vista social, Jung vivia a insegurança interna de uma alma consciente dos limites de instituições e valores coletivos. Enquanto o primeiro lidava com questões de poder e instabilidade, os quais iriam logo levar a Europa e o mundo ocidental para a catástrofe da segunda guerra mundial, o último estava mergulhado em referênciais culturais e religiosas relacionadas a batalha interior entre bem e mal, e à jornada individual através dos opostos, que iria definir o século e o seguinte, o nosso atual.
          Consequente às suas diferentes origens sociais e culturais, Freud e Jung tiveram caminhos acadêmicos diversos. A filosofia positivista de fundo de Freud, em conformidade com seu tempo, está espelhada em suas opções universitárias. Ele se graduou como neurologista. Estudante diligente, Freud procurou os melhores professores para aprender mais e foi assim que chegou a Paris para estudar com um dos mais renomados neurologistas daqueles tempos, Jean Martin Charcot. Esta experiência o fez voltar-se para a psicopatologia, pois ele se sentiu atraído pelos estudos de Charcot acerca da histeria e sua susceptibilidade à hipnóse. De volta a Vienna, Freud usou a hipnóse com suas pacientes, logo abandonando-a para desenvolver seu método da livre associação e da interpretação dos sonhos, que iria dar origem à psicanálise.
          Na nova era científica dos fins do século XIX, Freud foi o primeiro que levou os sonhos a sério e os estudou. Ele descobriu que os sonhos são o resultado de material psicológico camuflado que foi guardado no quarto escuro do inconsciente pessoal. O que uma pessoa entende como proibido ou desagradável é imediatamente reprimido e enterrado dentro. Entretanto, os conteúdos banidos vêm à tona todas as vezes em que os eventos da vida e a problemática interior se encontram, tornando impossível ao indivíduo fugir deles. Periodica ou cronicamente, esses conteúdos incomodam a consciência da pessoa e se manifestam através dos sonhos. 
          Após décadas de pesquisa, Freud achava que há duas principais correntes psíquicas que lutam pela supremacia: Thánatos (em grego antigo, “Morte”) e Eros (em grego antigo, “Amor”). A vida humana se desenrola entre a tendência para a destrução e o fim, e aquela que vai na direção da vida e da continuação da mesma. Apesar do rebelde Eros criar frequentes problemas, sendo o maior de todos representado pelo Complexo de Édipo, Freud finaliza seu pensamento afirmando que Thánatos é o que, no final, vence.
         A impulso inconsciente sexual que ele incialmente acreditou ser concretista, de modo que o filho sentiría-se sexualmente atraído pela mãe e a filha pelo pai (no Complexo de Electra), mais tarde ele admitiu tratar-se de um impulso predominantemente simbólico, aproximando-se assim da visão de Jung.
         O inconsciente que Freud teorizou é identificado como o resultado do acumulo do que foi descartado durante toda uma vida, cujo conteúdos são oriundos sobretudo da infância. A matéria desse “quarto escuro” luta constantemente para vir à superfície, perturbando o ego consciente. Freud acreditava que este era o inevitável preço que o gênero humano paga pela civilização (“O futuro de uma ilusão”, 1927). Apesar de não podermos ser completamente ‘curados”, podemos certamente suavizar e aleviar a dureza dessa condição humana e transformar os traumas da infância encarando os problemas do passado e redirecionando aquele impulso para outros objetos e objetivos, processo que ele chama de “sublimação”. 
          Enquanto Freud estava publicando seu revolucionário “Interpretação dos Sonhos” em 1900, Jung estava começando seu trabalho como jovem psiquiatra no Burgholzi, um hospital psiquiatrico em Zurique. De lá em diante, ele estudou os trabalhos de Freud e os aplicou ao tratamento de seus pacientes. Entretanto, os resultados o supreenderam, pois a mente esquizofrénica recusava algumas das afirmações de Feud. O problema principal era a respeito do sentido literal e simbólico dos sintomas e fantasias. Logo tornou-se claro que a abordagem freudiana era concreta demais e não se adaptava a alguns dos aspectos da psique com os quais Jung estava lidando.
          Através do método da livre associação, Jung identificou relações entre idéias que das quais os pacientes não podiam ter conhecimento prévio, nem por ter ouvido ou lido a respeito. Indo adiante em suas pesquisas, ele encontrou paralelos entre as tramas e os símbolos dos sonhos de todo tipo de pessoas: desde seus pacientes até prisoneiros nas cadeias americanas e indígenas no meio da África. Não somente, ele se deu conta que havia temas recorrentes na história da cultura humana, expressos tanto na mitologia como na literatura. A conclusão de Jung foi que o inconsciente não podia ser somente pessoal. Há um nível mais profundo que é coletivo, pertencente a todo indivíduo do planeta.
          A primeiro grande trabalho de Jung, “Símbolos da transformação” (1913), consistia numa longa interpretação dos sonhos e fantasias de uma mulher. Esse material apresentava evidentes aspectos simbólicos que Jung demonstrou estarem relacionados à simbologia universal humana. Ao publicar o livro, ele recebeu em cheio a reprovação de Freud e o inevitável rompimento da relação. Por causa da análise simbólica e da vasta bagagem de conhecimentos de mitologia, cultura e literatura que Jung usou ao longo das centenas de páginas de seu trabalho, Freud sentiu-se confrontado. Acima de tudo, Jung negava que o impulso sexual do qual Freud falava fosse um concreto. Para ele, se tratava de uma energia psíquica de proporções maiores que podia se minifestar como impulso sexual mas que era muito mais do que isso, apresentando aspectos simbólicos relacionados a etapas mais profundas e importantes do desenvolvimento humano.
           Daquele momento em diante, os caminhos de Jung e Freud divergiram. Jung foi dasapossado do título de herdeiro, também porque ele estava mais interessado na pesquisa do que em administrar a crescente associação psicanalítica internacional, e Freud tornou-se sempre mais preocupado em segurar firme sua teoria, que estava lidando com uma série de modificações todas as vezes que um novo membro se vinculava a ela.
           Jung passou o resto de seus quase 50 anos de vida trabalhando, pesquisando e escrevendo. Seu legado recolhe uma enorme quantidade de idéias, material e perspectivas. Parte do seu trabalho ainda está para ser publicado. Ele nunca considerou-se o fundador de uma teoria, nem gostava de ter “discípulos” seguindo suas pegadas, pois a essência da visão psicológica de Jung é a jornada individual na direção da unidade interna. Para ele, os indivíduos são levados por forças interiores na direção de um si mesmo superior (ao ego). Isso é chamado de Processo de Individuação. A unicidade de cada pessoa está em jogo nas escolhas de todos os dias. Como acontece aos heróis de sonhos, mitos, filmes e contos de fada, uma pessoa há de lutar contra obstáculos externos e internos que a aprisionam. Esta luta, como a da borboleta esforçando-se para sair do casulo, dá fôlego às suas asas.
           O fim da história não pode ser contado em poucas linhas, até porque não há fim.
           Deixo você com esta imagem. Você entra no consultório de Freud. Ele o faz deitar e senta-se onde você não pode vê-lo para, assim ele acredita, não interferir com o seu processo de abertura. Ele sobretudo ouve e deixa você falar. Daí, você vai ao consultório de Jung. Você encontrará duas confortáveis poltronas, uma de cara para a outra. Você e ele são duas pessoas lidando com os mistérios do inconsciente, o primeiro é experiente e ajuda o segundo a encontrar seu caminho. Naturalmente, a person alidade do analista está envolvida. Jung não acha de jeito nenhum que possa esconder-se de você. Ele aposta na honestidade e humildade. Para ele, ambas as pessoas estão numa jornada, ambas aprendendo, ambas descobrindo e ambas são influenciadas pelo mesma força: o cativante e inteligente inconsciente.

50 comentários:

  1. suave, correto e maravilhoso texto !!!

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  3. Desculpe, Manú, deletei sem querer seu comentário. Vc agradeceu pelo texto e disse que acabou de decidir quem vai ser seu analista. Fico contente por ter ajudado!
    Abraços

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  4. Trabalho com a Terapia Cognitivo Comportamental, mas acho fascinante a psicanálise!
    Seu texto ficou ótimo.
    Parabéns.

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  5. Olá Adriana,
    Texto excelente. Acabei de assistir de o filme "Um Método Perigoso" e como não sou da área, fiquei cavucando pela net algo que pudesse aprofundar um pouco mais.
    Obrigada, voce esclareceu lindamente.

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    1. fiz exatamente a mesma coisa que a Mônica Rocha, assisti ao filme e corri pra internet!rs gostei do texto, você escreve bem :D

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  6. Que bom, Monica e JehKa, fico contente em contribuir.

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  7. Me chamo Emerson Vieira, comecei a engatinhar nessa longa jornada que é a psicologia. Um professor indicou o filme "Um método perigoso". Assisti hoje a tarde, e passeando agora pela internet me deparo com esse texto atraente e esclarecedor, enfatizando a distinção de dois mestres na arte do entendimento da mente. Gostei muito. Obrigado e parabéns.

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  8. Boa jornada, Emerson. Sugiro a leitura da minha revisão do filme em questão, que está aqui: http://www.psicologiadialetica.com/2012/02/sabina-spielrein-e-o-filme-um-metodo.html
    Espero que seu professor, além de recomendar o filme, também faça uma leitura crítica dele. Porque é preciso de muita crítica para fazer justiça aos personagens, e sobretudo à protagonista, Sabina Spielrein.

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  9. Gostei muito do texto, me ajudou bastante a entender melhor as teorias freudianas e junguianas!

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  10. Acho Jung mais completo, Freud foi muito reducionista. Acho que Jung merecia mais respeito, as universidades parece que o desprezam.

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  11. Verdade, Jung ainda não chegou às universidade. No Brasil já está mais avançado, aqui nos EUA... duvido que a metade dos alunos (para ser otimista) saibam quem ele foi!

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  12. Achei o texto bem tendencios uma pena pois poderia pesquisar um pouco antes sobre Freud e seu metodo e escrever sem pre-conceitos.

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  13. Vc é a primeira pessoa que tem essa opinião. Deveria explicar por que acha o texto tendencioso e sobre o quê está baseando sua afirmação.

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  14. Simples e encantador, sem preconceitos, nos "ajuda" "a encontrar nossos caminhos"!!!
    um abraço, André

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  15. olá sou Regina,muito bom seu texto!
    por onde devo começar estuda psicologia? estou na dúvida, vc pode mim ajudar?

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  16. Isso que vc leu aqui é psicanálise. Comece lendo uma boa introdução a Freud e outra a Jung. De Jung escolha o livrinho da Nise da Silveira. Depois leia diretamente os mestres e os associados a ele.... Uma coisa de cada vez, e vc vai descobrindo seus interesses e suas idéias.

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  17. Adriana
    Concordo com a pessoa que disse que o seu texto é tendencioso, pois ao que parece
    você, assim como tantas pessoas colocam Jung em superioridade a Freud, como se psicanálise freudiana fosse ultrapassada,mas quem seria Jung e tantos outros teóricos sem Freud, seu texto reduziu a psicanálise Freudiana a 3 pontos, se isso não é ser tendencioso ou que é então?

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    1. Adriano Luiz 04/10/13

      Olá meu caro amigo, não se assuste em dizer para você, que na história da filosofia, Psicologia, Sociologia, inúmeros discípulos superaram seus professores (mestres), isto vale Sócrates e Platão, Platão com sua metafísica e Aristóteles com a Primeira filosofia (ontologia) Hume com ceticismo, despertou Kant do que ele chama de sono dogmático, Kant elabora a famosa critica da razão pura, o próprio wundth e Freud, portanto aconselho nunca ao fazer uma análise de uma obra, ter paixões para determinado elaborador, mestre, pois isto não é próprio de uma pesquisador sério e compromissado ok amigo. Gostei muito desta dicotomia, pois na maioria existe um tendenciamento ao senhor Freud.

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    2. Boa resposta, Adriano Luiz. Eu enxergo a história humana como uma história evolutiva da consciência - a qual se manifesta nas idéias. Nesse sentido, é inevitável que Jung supere Freud. Eu continuo usando várias ferramentas freudianas no meu trabalho, apesar de ser PÓS-junguiana! Um gênio é um gênio mas a história não termina com ele :-)

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  18. Anônimo, esse é um texto curto, quantos mais pontos eu poderia analisar num texto desse tamanho? A perspectiva que estou usando é evolucionista. Na psicanálise como em qualquer área do conhecimento, vejo a tendência à evolução. Não é uma questão de Jung ser superior a Freud, mas dele levar adiante Freud - da sua maneira.

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  19. ADRIANA T.NOGUEIRA
    Meus parabéns pelo texto. Foi uma leitura agradável. Apesar das diferenças eu sou fã dos dois, Freud e Jung!

    Um comentário seguido de uma pergunta:
    Parece-me que as teorias de Freud teriam uma melhor aceitação da comunidade científica internacional (ou ortodoxo, ou seja lá o que for) devido a sua teoria possuir embasamentos mais antropológico ou mesmo evolucionistas, de fácil constatação. Talvez o neurocientista Jean Martin Charcot teve suas influências quanto a isso em Freud, como você mostrou no texto.
    Enquanto que as teorias de Jung não encontraram ressonância em tais conceitos, visto que Jung sempre manteve um pensamento transcendente a isso, até mesmo apoiado em outros Sociólogos como Emile Durkheim.

    Por favor, qual a sua posição quanto essa análise acima, é possível você dar uma corrigida ou mesmo comentar estas minhas proposições, pois tenho notado isso e gostaria de compreender melhor a questão Freud X Jung - ???

    Mais uma vez obrigado por nos brindar com esse texto!

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    1. Olá Raphael,

      acredito que a maior aceitação de Freud na comunidade científica (por exemplo, aqui nos EUA na academia mal se menciona o nome de Jung!) é porque Freud é um materialista. O que ele fala não tem embasamento científico no sentido tradicional que todo mundo busca, não é mensurável (por isso os americanos optaram pelo comportamentismo que é a única coisa que se pode "ver"). Mas Freud lucra numa sociedade e cultura materialistas que negam valor ao espírito e ao simbólico, a ele relacionado. Por isso Jung é "místico" demais, apesar do homem ser um exímio empirista, ou seja um que se basea na experiência e nisso mais do que Freud. É o preconceito social no qual estamos ainda mergulhados que não permite que Jung seja visto pelo que é e é reduzido - por muitos junguianos inclusive - a um sacerdote da grande mãe. Muitas flores e simbolismos e pouca consistência :-(

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  20. Adriana, sou estudante de psicologia no RJ e estou fazendo um trabalho em que minha "parte" é falar sobre a relação e rompimento do Freud e Jung. Tenho lido muitos textos e achei o seu bem explicado e com bons exemplos. Ainda vou e quero ler mais sobre eles, é tudo tão interessante! Obrigada pela contribuição! Vou procurar acompanhar seu blog. Grande bjo, Letícia

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    1. De nada, Leticia. Cuide bem desse trabalho, é importante entender os motivos da separação entre os dois.
      Abraço

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  21. Obrigada, Adriana! O tempo para apresentação era curto diante de tanto assunto, mas fomos bem. Acho que entendemos o essencial sobre a questão da libido, mas comentamos também sobre as outras diferenças e sobre o que Jung ainda continuou valorizando na Psicanálise. Bjos! Letícia

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  22. Legal, não sou estudante de psicologia mas o tema me chamou atenção. Acabo de assistir o filme "Um método perigoso", que conta o rompimento entre Jung e Freud. Agora são quase 2 da madruga e eu encontrei este texto porque fui pesquisar, afinal, no fim do filme Jung é citado como o maior psicanalista do mundo. Pensei; "E o Freud,pô?!"
    Estranho, eu li e não entendi uma só questão: é mesmo possível descobrir "para onde você vai" sem saber "de onde você veio"? Desculpa aí se eu falei besteira.(deve ser o sono...)
    Vlw,
    Rodrigo.

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  23. Não falou besteira não, Rodrigo. Foi bom vc querer esclarecer isso. Na psicologia junguiana a enfase é no fim porque muitas vezes é este que ajuda a entender a causa.

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  24. Muito interessante seu texto. Acho muito interessante esse tema. Ja vi o filme, achei muito intrigante a história, mas ainda acho muito complicado entender esse rompimento dos dois.

    Mas lendo o texto, percebi algo, não sei. Vc segue mais a linha junquiana né ou entendi errado?

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    1. Ailton, eu só pós-junguiana. Aproveito elementos dos dois.

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  25. Prezada colega,

    É com grande satisfação que visito o seu blog e me deparo com seus escritos. Sou estudante de psicologia, e so decidi estudar psicologia por conta da psicanálise. Uma visão um pouco ortodoxa mas quem nao é um pouco que seja rsrs. Estou terminando agora de assistir o seriado Lost e estava pesquisando a inferências filosoficas e psicológicas que há na serie. Me deparei com a sincronicidade que Jung postulou. Para resumir, a série Lost e o seu texto me fizeram abandonar Dr. Freud e aprofundar meus estudos sobre a teoria de Jung. Eu sempre defendi a psicanalise Freud mas no fundo eu não poderia negar ao acaso, o destino, coisas essas das quais sao de suma importância para minha vida.

    Outra questao. Estava olhando seu perfil, e vi que tens um curso n área de Ter de Vidas Passadas. Como funciona o curso que vc fez poderia descrever suscintamente acerca desta técnica?

    Obrigado. Parabéns pelo seu trabalhon

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  26. Prezad@, Freud foi genial, utilizo elementos da psicanálise freudiana até hoje. Mas Freud foi o primeiro passo numa jornada fantástica que é a psicanálise. Ir além não diminui ou perde as raízes :-)

    Sobre a Terapia de Vidas Passadas, a técnica que eu sigo (de um junguiano!) é a Deep Memory Process. Procure na internet o centro brasileiro. Encontrará tudo o que precisa. A técnica é interessantíssima porque propõe uma síntese de vários pensadores, incluindo Freud, Jung e Reich, Lowen também, com o pensamento tibetano do pós-vida. É uma visão rica e fértil para as investigações na psíque.

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  27. Quanto ao julgamento do texto ser tendencioso... Essa neutralidade idealizada ,positivista e artificial , é a mesma neutralidade ficticia que mantem Jung fora da academia, a mesma ficção vivida por qualquer um que acredite no mito da neutralidade cientifica , do completo afastamento sujeito-objeto. Quem acredita que o pensamento de jung é mistico e fantasioso ,pode estar vivendo tão ou maior fantasia , acreditando no distanciamento terapeuta-paciente, na neutralidade e mecanicismo.

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    1. Concordo. Uma neutralidade idealizada que é positivista e artificial: exatamente. Do outro lado, temos os que viajam na maionese com Jung, se lambuzando de misticismo barato, pois Jung se presta para qualquer coisa. E aí está minha crítica a muitos "junguianos": pouca objetiviade, pouco pensamento crítico. Pouco logos e excesso de Eros.

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  28. Olá Adriana!

    Como vai?

    Muito prazer!

    Aqui é Reinaldo Müller.

    Gostei do teu texto, digredindo, epistemologicamente e historicamente, as origens de Freud e Jung e suas respectivas trajetórias teóricas.

    Não há controvérsias em sua narrativa. Realmente. Eu, pessoalmente, gosto e admiro muito Jung por suas brilhantes teorias do Processo de Individuação -- Inconsciente pessoal -- Inconsciente coletivo -- Arquétipos -- Self...

    Contudo, há um divisor de águas entre a Psicanálise Freudiana e a Psicologia Analítica de Jung: Jacques Lacan!

    Lacan, trouxe uma NOVA lente, uma nova perspectiva à psicanálise. O Nome do Pai -- Foraclusão... Bem, a escrita lacaniana acrescentou coisas...

    O espaço aqui é diminuto para entramos em debate. rs. Mas, leia o Sujeito Lacaniano -- Entre e Linguagem e o Gozo -- a. Bruce Fink. Zahar Editores.

    Talvez, após esta leitura não será mais tão Junguiana... Há uma descontinuidade na senda lógica de Jung a partir do momento em que ele diante de uma aporia, busca uma solução mitológica. Aí, penso, eu, ocorreu o divórcio da teoria Junguiana com a Psicanálise (falo da "própria" Psicanálise "Junguiana -- havia, aí, um caminho promissor).

    É isto.

    Sou pedagogo e trabalho com crianças com necessidades especiais...

    Em tempo:

    Analise esta exposição: O conflito mental na perspectiva psicanalítica é a expressão figurada daquilo que foi recalcado --- censurado --- bloqueado em sua expressão... Original! Esta não-equação contém um significante (criptografado) a ser “re-significado” no REAL, transpondo a censura (inconsciente) que gerou o SINTOMA --- e este, o SINTOMA, produzido que fora no núcleo mental patógeno é um dos precursores da psicopatologia (psicanalítica).

    O sintoma é uma saída de saúde mental... É uma rota precária, mas, a única que pode garantir certa ordem psíquica do Sujeito... Então, o que é o Sujeito?

    É, exatamente, o que o SINTOMA oculta... O sintoma se constitui porque não havia maneira do sujeito sobreviver diante de uma representação psíquica... Insuportável para ele!

    Persistindo. O que seria o sintoma, epistemologicamente, falando?

    A FALTA de um simbólico para amarrar o Real e o Imaginário... Ampliando. A ausência de um simbólico adequado para tentar apaziguar o impossível (o recalcado) do Real. Enquanto o simbólico não emerge, o sintoma ganha tempo para que o sujeito (embora sofrendo) consiga, assim mesmo, tocar a sua vida... Sobreviver!

    Entretanto, este compromisso custa caro... Seu preço? ANGÚSTIA!

    E como resolver esta aporia?

    Na cena psicanalítica, o psicanalista é eleito, arbitrariamente, pelo paciente como o sujeito-suposto-saber... O paciente deduz que o psicanalista detém um Saber sobre ele (o paciente) que porá fim aos seus conflitos e angústias... Todo o processo psicanalítico visa solapar, desmitificar este suposto Saber do psicanalista sobre o paciente.

    O psicanalista desconhece os motivos (inconscientes) que deram origem à problemática do paciente. Se o psicanalista tentar resolver a psicopatologia do paciente, a partir de si mesmo, estará projetando no paciente os seus próprios conteúdos mentais, criando um universo psicológico fictício, alheio à realidade psíquica do paciente. O conflito mental tem que ser solucionado no próprio meio ambiente em que foi criado: a psique do paciente (reduto de sua psicopatologia).

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  29. Sabe, Reinaldo, tenho alergia à linguagens acrobáticas. E Lacan, como bom francês, adora um virtuosismo da mente... da mente. Lacan é um mental, Jung traz para perto o mundo da mãe, o femino, Freud se deparou com ele mas ficou a mirá-lo de longe nos atribuindo uma inveja do pênis que resumiria nossos problemas básicos. Lacan fica com o Reino do Pai. Sorry - mas não me é suficiente.

    Analisando o que escreveu e respondendo-lhe, sem querer porém continuar essa conversa por aqui porque não é o lugar:

    Sim, o conflito mental é o resultado de algo que não consegue emergir devido a uma censura, produz um conflito que mantém em equilíbrio a psique - do sujeito. Quem é o sujeito? Não, o sujeito não é o que o sintoma oculta, ele é aquele lugar da consciência que faz a mediação entre real e imaginário recuperando a si uma parte de si que o sintoma oculta. O sujeito não é o sintoma. É muito mais do que isso. Leia Silvia Montefoschi e vai ver que ela está além de Lacana.

    Continuando, o sintoma nasce sim da ausência de uma linguagem (para usar um termo querido aos lacanianos) simbólica que medie entre as duas realidades (externa e interna). Sim. Daí a importância dos mitos, das religiões e dos ícones de todos os tempos.

    O psicanalista trabalha sobre a relação objeto-sujeito que caracteriza toda relação social de poder. Nela o psicanalista sabe e o paciente não sabe. Entretanto, isso é TAMBÉM verdade na medida em que o psicanalista conhece aquela linguagem simbólica da qual precisa o paciente para superar ou integrar seu sintoma em outro plano de consciência. Na relação psicanalítica ajuda, na vivência e nas palavras, o paciente a transitar para uma nova forma de relação na qual ele é sujeito de si e tem acesso a seus conteúdos, assim como o analista faz. A relação final se caracteriza pela quaternidade. Cada uma em sua relação interna, vc diria com o real e o imaginário, e na relação com o outro.

    PS: O conflito mental está na mente do paciente mas nem sempre se resolve somente na mente. A psicanálise precisa sair no mundo e às vezes ajudar o analizando, nem mais paciente, a se tornar um indivíduo livre no mundo. Se o trabalho começa dentro nem sempre permanece dentro.

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  30. Olá Adriana!

    Muito inteligente suas observações. Você é de fato uma pessoa com uma grande amplitude de consciência e possui especial perspicácia.

    Eu acho que as nossas supostas divergências, na verdade seguem um caminho epistemológico comum... Haverá um tempo para que os filtros da experiência encontrem similaridades e encontros conceituais, e não mais dicotomias e aporias...

    Num certo sentido, temos afinidades bem maiores que, talvez, possamos admitir, afinal, persistimos nos preceitos ontológicos.

    Quanto ao virtuosismo de Lacan nas acrobacias "linguísticas", deve-se à influência de Ferdinand de Saussure em seus pressupostos teóricos. Apesar de arrogante como todo "bom" francês, há uma virtude em Lacan:

    Ele jamais quis transcender Freud. Permaneceu fiel à orientação cognitiva do Mestre, sem querer criar uma "nova" teoria" psicológica/psicanalítica. Eles acrescentou coisas, apenas. Relevantes, por certo.

    Finalizando. Atualmente, os Institutos de Psicanálise (não as Sociedades Psicanalíticas) consideram válidas as contribuições de Melanie Klein -- Winnicott -- Bion -- e Jacques Lacan. Isto me parece sensato e irreversível.

    A psicologia Junguiana tem sua linha de reflexão e abordagem. Muito válida, por sinal. No entanto, "mundo da mãe" -- "feminino" -- me perdoe, para mim são devaneios. Podem ter um valor antropológico, e por certo têm,mas, em termos de psicanálise são delírios feministas...

    Esteja bem.

    atenciosamente,

    Reinaldo Müller


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  31. Ótimo texto.
    Parabéns!
    Muito obrigado.

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