25/06/10

Diferenças entre Psicologia e Religião


Adriana Tanese Nogueira


Temos um problema: onde colocar a psicologia? As pessoas religiosas, aquelas ativas e participativa de qualquer igreja, quando têm um problema pessoal, dão-se duas opoções: rezar mais ou recorrer ao pastor ou padre. Seria a psicologia inútil para elas? O crente não precisa de terapia?

          Essa é uma questão de um milhão de dólares. Desde os tempos de Jung, teólogos, padres e pastores escreviam desconfortáveis a respeito do lugar da psicologia, em particular da psicanálise, no tratamento das almas, até então terreno exclusivo da igreja e seus representantes. Os três volumes de correspondência de Jung atestam a respeito.
          Vejamos algumas diferenças entre as duas áreas:
  • Se o objetivo da psicanálise é, nas palavras de Freud, “trazer o inconsciente à consciência”, isto conscientizar e conscientizar-se, daí o conhecimento de si mesmo, o da religião é a relação com Deus, qualquer coisa Este seja.
  • Enquanto a religião (todas elas) dá uma identidade a Deus, pois a partir de quem é Deus que dogmas e crenças se desenvolvem, a psicanálise - em particular a junguiana - fala de imagem psicológica de Deus dentro da gente, por Jung identificado com o Self, que, por sua vez, porém, nada diz de específico e mensurável a respeito do divino. Para Jung, todas nossas experiências são de fundo psicológico pois é através da psique que nos relacionamos com o mundo e nós mesmos, algo parecido com o que disse Kant a respeito das categorias a priori de espaço e tempo através das quais conhecemos o mundo.
  • Por dar a Deus uma identidade definida, a religião estipula para o ser humano uma imagem complementar e o esforço do crente é moldar-se o mais possível à “vontade de Deus”. A psicanálise pensa em termos de desenvolvimento da personalidade, e, a junguiana em particular, visa fazer desabrochar algo que está dentro mas que sem as experiências externas não tem humus para construir-se. Daí, a identidade individual ser algo a ser descoberto enquanto o caminho do auto-conhecimento procede.
  • Enquanto a religião parte de dogmas e da palavra revelada, a psicanálise é empirica e parte da experiência e da observação/conscientização da mesma.
  • E, sobretudo, se a religão está baseada na fé, a psicanálise fundamenta-se na consciência.
          O objetivo da psicanálise (Freud e Jung) é o auto-conhecimento, o qual passa pela análise do ego, de suas crenças, hábitos, estratégias, história. Para Jung em particular, pois Freud era praticamente atéu, a jornada interior leva à experiências não mundanas e não materialistas, e inclui a possibilidade da vivência do divino. Experiência esta que marca a personalidade de um indivíduo, mas não se configura para ele na forma de um dogma, de modo que não implica na adesão a uma específica instituição religiosa e doutrina.
          A psicanálise não está interessada em convertir crentes e incrementar religião alguma, mas em promover a consciência individual, o auto-conhecimento humano e, eventualmente, se assim ocorrer, a experiência profunda de algo superior ao ego. Todas essas experiências são positivas porque promovem a saúde global da pessoa. Eu pessoalmente tenho convicção de que ao aprofundar-se em si mesma, uma pessoa acaba tendo a experiência de algo transcendental ou imanente (tanto faz), e que essa vivência é profundamente enriquecedora. Mas a psicologia não se importa em dar uma denominação a esta experiência, não a encaixota em uma doutrina.
          Voltando à pergunta: a psicoterapia serve para o crente?
          Resposta: sim.
          Sim, porque os preceitos religiosos são gerais por natureza, um dogma fala a linguagem do universal. Colocar em prática uma verdade que se acredita como tal são outros quinhentos. E esse é o trabalho da psicoterapia: analisar com atenção, pegar pela mão e ver de perto onde é que está o calo que dói, e por que exatamente; é dar novos pontos de vista, oferecer perspectivas significativas, dar contexto, chão e horizonte.
          Sim, porque todas as experiências, incluindo a religiosa, não deixam de ser psicológicas. Uma vez que somos seres encarnados temos uma psique assim como temos um corpo. Uma psique sadia permite uma experiência mais sadia e profunda da dimensão espiritual.
          Sim enfim, porque o nível de consciência dá a tônica da qualidade da experiência religiosa que se tem. Basta olhar para a história e observar como a prática religiosa mudou: cada um enxerga de Deus o que consegue ver do degrau no qual está.

3 comentários:

  1. O cristianismo original não era dogmático nem fundamentado em uma "fé" cega, mas alicerçado em uma esclarecida confiança em fatos e em princípios.

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  2. O cristianismo original, sobretudo o dos primeiríssimos séculos era fundamentado no boca a boca e na experiência pessoal. Era um cristianismo "místico" (no sentido medieval). Não diria de princípios e fatos, mas de sentimento, "vocação", de chamado interior. É como toda religião começa. Mas isso já se perdeu há muito tempo, aliás, a igreja institucionalizada hoje não gosta de gente assim, pois mesmo sabendo que o "Espírito sopra onde quer" eles temem que este sussurre algo nos ouvidos dos subordinados que a hierarquia não aprove. Portanto, amarraram o Espírito, codificaram a religião e se autorgam o direito de representar Deus. É a crença deles, não a minha. Não há arrogância maior a meu ver que colocar-se no lugar de Deus e decidir o que Ele ou Ela quer, manda e julga. Amém.

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  3. Simplesmente não é isso que os registros informam. O cristianismo original era muito diferente do misticismo irracional que se desenvolveu do século II em diante com a mistura de paganismo e filosofia.

    Sim, o cristianismo original era divulgado "de boca em boca". Mas essa divulgação era racional, baseada em fatos e em princípios e não emocionalista. Era uma religião alicerçada em um registro histórico que provia um controle de fidelidade da divulgação. A experiência pessoal era secundária e subordinada ao conhecimento conceitual obtido através do estudo. P/ex. leia Atos 17.

    Não é coincidência que a ciência moderna surgiu depois que a invenção da imprensa tornou a Bíblia acessível. Os primeiros cientistas modernos foram cristãos que tiveram acesso à ela e por isso acreditavam que a Natureza é regida por leis naturais decifráveis pelo intelecto. A objetividade da ciência moderna e sua confiança em fatos e em princípios é filha da objetividade que a Bíblia ensina.

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