22/06/2010

Faces do Machismos: explícito, pirracento, enrustido e necessário


Adriana Tanese Nogueira

O machismo tem várias facetas. Aquele explícito não está mais na moda, mas ainda acontece. A barbaridade de bater na mulher porque ela saiu de casa com as amigas ou forçá-la a ter uma relação sexual quando ela não quer, encontra-se nas camadas mais baixas da consciência social. Vinte anos atrás, o pai de um menino de sete anos que eu tratava, sentou-se na minha frente e disse: “Para mim, as mulheres valem da cintura para baixo.” Era sua primeira sessão, após um ano ele não era o
mesmo homem, mas também não havia mudado muito, tanto é que retirou o filho da terapia quando este parou de ser violento e começou a ser capaz de se relacionar e conversar.
          Apesar do nível educacional do homem não necessariamente corresponder à sua evolução como indivíduo humano, as mudanças na sociedade às quais ele está sujeito pelo simples fato de trabalho, levam-no a modificar sua relação com as mulheres em geral. Elas tem sempre mais espaço e poder social, são colegas e chefas, estão na televisão e nos órgãos de governo. Tornou-se complicado praticar o machismo explícito, e também muitos homens não acreditam mais nele. Nem por isso, chegamos à idade de ouro das relações de gênero.
          Se o homem não pode mais bater na mulher, ele pode fazer pirraças. Ela saiu com as amigas? No dia seguinte ele inventa uma atividade para si mesmo. Ela não dá o que ele espera? Ele encontra uma forma para fazê-la “pagar”. Há sempre um modo para sabotar, cutucar e perturbar os planos e expectativas dela.
          O machismo explícito como o pirracento remetem à mesma raíz: ambos são infantis. Um usa a força para impor sua vontade, o outro a pirraça. Entre medo, sentimento de culpa e busca pela harmonia doméstica as mulheres tendem a deixarem-se dobrar.
          Uma terceira face do machismo é o estilo “enrustido”. O homem governado por esta perspectiva superou aquele tipo de dependência da mulher que o deixa inseguro todas as vezes em que sente estar perdendo o controle sobre os movimentos dela. Ele absorveu algumas necessidades humanas, do tipo: respeito, liberdade de expressão e de movimento. Reconheceu na mulher uma individualidade diferente com suas próprias legítimas exigências. Mas o que acontece se ela for mais inteligente do que ele? Ou mais culta? Ou ganhar mais?
          Para o machista enrustido, a disputa pelo poder continua não no plano físico, mas naquele mental e intelectual. É bastante normal uma mulher aprender com seu homem, ele lhe explicar alguma coisa, abrir-lhe horizonte, levá-la para novos lugares reais e metafóricos. Mas será que ele aceita o mesmo? Sente-se ele à vontade para ter uma troca honesta e harmoniosa com ela, onde a reciprocidade é um fato e não um termo vago? Mulheres mestras, gurus, intelectuais podem ser reconhecidas e apreciadas sem tirar nada à identidade masculina do homem, mas o mesmo acontece raramente com a mulher com quem vive e dorme.
          Enfim, há o machismo necessário. Entre o amor e o respeito pela mulher, a admiração, o reconhecimento pelo valor, o aprendizado com ela, até a proteção e exaltação dela…. O que sobra para os homens? Onde fica a identidade masculina? O homem que está disposto a aprender com a mulher, e até a segui-la (!) lá onde ela conhece o caminho melhor do que ele, esse homem que ama as mulheres mas que não quer sentir-se esmagado pela fulgorante visão dessa nova mulher mil marvilhas… o que pode fazer para preservar-se sem voltar ao machismo?
          Bem diziam os estudos de psicanálise da primeira infância que a construção da identidade masculina é mais complicada para o menino do que para a menina, que distingue-se da mãe mas é ela mesma mulher. O homem moderno, que tem, geralmente, exemplos masculinos falhos em seus pais ou que simplesmente não quer ser como ele, e que, por outro lado, não está confortável em transformar sua mulher numa mãe à qual obedecer, onde encontra esse homem modelos de referência? O que é ser homem afinal?
          Nesses tempos de transição e crise, tem-se a impressão que, caindo a armadura do machismo, todos vão poder ver que “o Rei está nu”.

29 comentários:

  1. Bela reflexão. O homem 'esclarecido' que teme pelo sucesso da mulher, que teme que os interesses dela por outras coisas, que não o casamento e a vida à dois, talvez sofra tanto quanto ela com o cerceamento e a repressão. O machismo, na minha humilde opinião, anda muito junto com os ciúmes. Quanto mais ciumento, mais machista vai ser o homem. Mas o ciúme não está no objeto dos ciúmes, mas em quem o sente. Por isso, vai ser sempre grande, não importa o motivo. E o machismo então, neste caso, justificado.

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  2. O ciúmes é uma expressão de insegurança, Aline. Porque a relação está baseada no poder, é um jogo de poder por baixo dos panos, e o homem talvez nunca se exponha de verdade, a certeza do amor da outra pessoa permanece instável... Vida complicada!

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  3. Adriana, você acredita na existência de homens não-machistas?

    O que exatamente é "machismo" para você?

    Sabia que existem diversas formas de sexismo além do machismo?

    * * *

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  4. Emerson, vc acabou de ler um artigo meu sobre machismo. Como é que me pergunta o que é machismo?

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  5. Adriana:

    Esse assunto é um pouco sensível para mim porque quando criança fui maltratado por professoras e outras adultas feministas que puniam os meninos pelo crime de terem nascido do sexo "errado". E tive experiências desagradáveis na juventude e vida adulta também. E não fui o único, esse é um preconceito socialmente aceito.

    No longo prazo, em nada ajudamos as mulheres rebaixando e demonizando os homens. Ao contrário, no fim isso apenas prejudica as próprias mulheres.

    Algumas mulheres têm desprezo e até raiva de todo o gênero masculino e pensam que todo homem heterossexual é um monstro, principalmente se for branco. Eu acredito que não é o seu caso, mas você podia ter terminado o artigo falando dos homens não-machistas.

    Mas não fica brava comigo não, foi só um desabafo de quem sofreu discriminação e nem sequer pode falar do assunto ou é punido. Você sabe que gosto do seu blog!

    * * *

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  6. Emerson, terminei o artigo mantendo-me dentro do tema. Escolhi falar sobre as faces do machismo e falei. Não afirmo que todos os homens sejam assim, nem nego que haja homens melhores do que isso.

    Que as feministas erraram, erraram. São os erros da história e você sofreu injustamente. Do ponto de vista individual (teu), foi desagradável, mas do ponto de vista histórico (social) é "normal". As mulheres ainda são o "sexo frágil" na sociedade e te garanto que não é nada agradável saber-se de "segunda categoria".

    Bacana que haja homens diferentes, mas vivemos numa grande maioria que ainda sofre de problemas relacionados a seu complexo de "superioridade".

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    1. Mulher ser o sexo frágil e saber-se de segunda categoria? Suas aspas não diminuem uma visão machista. Está colocando a mulher com inferior e depois julgando o homem por se considerar superior?

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  7. Adriana, obrigado pela resposta e por colocar "normal" entre parênteses.

    É compreensível, porém isso não justifica, que algumas mulheres que foram maltratadas tenham ressentimento contra o gênero masculino e que se vinguem maltratando qualquer pessoa do "sexo errado", principalmente crianças. Essas mulheres precisam de orientação psicológica.

    Por outro lado, existem mulheres que utilizam o discurso de vítimas para indevidamente exigir direitos especiais e eximir-se de deveres universais, como o respeito incondicional ao próximo. Pessoas com complexo de inferioridade no fundo se sentem especiais e superiores.

    O fato de que mulheres também abusam do poder quando são o lado mais forte da relação prova que o comportamento abusivo não é intrínseco nem exclusivo de um gênero. E a ética diz que é errado um ser humano abusar de outro mais fraco, não importa o gênero do(a) vitimador(a) nem da vítima (que pode ser "ele").

    O abuso não acontece apenas entre gêneros, mas também dentro de cada gênero. Entre os homens existe uma hierarquia: alguns "machos alfa", diversos "machos betas" e "gama" de vários níveis e os "machos ômegas". Um "macho ômega" é tão ou mais menosprezado e maltratado do que as mulheres como grupo, incluindo as "fêmeas ômegas". E (diferentemente das mulheres), não pode nem reclamar, pois só causaria punição.

    Portanto, os homens também são frágeis. E como "macho ômega", eu sei o que é ser tratado como sub-humano, de quinta categoria.

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  8. A outra postagem não está aceitando meu comentário, vou responder aqui.

    Infelizmente não tenho como ler e comentar todas as postagens dos diversos blogs que acompanho. As postagens em que você fala "de ser humano para ser humano" são as melhores.

    Reconheço que minha reação foi forte. A discriminação contra o sexo masculino durante muito tempo foi proibida até de se mencionar. Todos os dicionários contêm as palavras "machismo" e "misoginia", mas nem todos contêm "femismo" e "misandria".

    Só agora estamos começando a poder reclamar da misandria e é bom que aconteça. No longo prazo, rebaixar os homens não ajuda as mulheres, ao contrário: as prejudica. Assim como rebaixar as mulheres prejudica os homens também.

    Já parou para pensar que muitos homens são medíocres justamente porque passaram a vida toda ouvindo mulheres (mães, irmãs, professoras, colegas, etc.) dizendo ou insinuando que os homens são moral e intelectualmente inferiores?

    * * *

    Sim, foi uma experiência real, por coincidência os envolvidos eram do mesmo gênero e você não tinha como mudar isso. Mas você podia ter perfeitamente relatado sem enfatizar o gênero, não havia necessidade real. Isso é uma responsabilidade, não uma "culpa": evitar até a aparência de qualquer tipo de sexismo.

    * * *

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  9. Com relação ao primeiro comentário, Emerson Luis, concordo com você. Uma das regras do patriarcado machista é a da hierarquização entre os homens. Nesse sistema, ser homem não é necessariamente se dar bem. Vale a lei do mais forte: o mais forte entre os homens submete os outros e o homem por "default" submete a mulher.

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  10. Sobre o segundo comentário: dou suporte e favoreça a libertação de homens, inclusive gays. Faz parte da minha prática. Liberdade de ser para todos. Vou escrever a respeito da prepotência feminina. Sua observação porém não é psicológica em sentido estrito. É sociológica e somente superficialmente psicológica. Irei mostrar por que. Quanto à suas sugestões sobre o que e como deveria escrever, isso é sua opnião, claramente comprometida pelos seus (res)sentimentos.

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  11. Adriana, seu texto é muito esclarecedor!Obrigada! Eu tenho 36 e estou tentando levar um namoro com um rapaz bem mais jovem. E machista. Nunca se reconhece como alguém falho. É adepto da pirraça, em tudo. Minha mãe e meu amigo falam: desista, pára de terminar de criá-lo!Nesta semana mesmo ele fez algo pra me pirraçar, aí eu reagi e me afastei magoada, agora ele me pirraça mais ainda kkk Um dos motivos pelo qual terminei meu casamento de seis anos, foi q ele, bem mais velho que o atual, era de criação machista e adorava pirraçar tb. Lidar com isso acho que é desistir da pessoa. Será?

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  12. Elisa, será que você atrai esse tipo de homem machista? Pode ser também que há muitos onde você mora ou no ambiente que frequenta, mas o fato é que evidentemente deve saber lidar com eles, não? Deixá-los ou não, não sei... Precisaria entender melhor a situação.
    Abraços

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  13. queria adorei seu artigo ,mas por favor quero a solucao, o problema eu ja tenho
    qro saber o q fazer ,ou o que nao fazer , se possivel me ajude. meu marido e mui, muito pirracento , birrento, fecha a cara e fca dias .o que eu faco.........

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  14. Wanda, toda relação é o resultado de 2 pessoas. Se quiser mudar uma pessoa, mude a relação. Para mudar a relação mude a si própria. Para mudar a si própria: conheça-se. Para conhecer-se faça terapia.

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  15. Será você poderia indicar alguma terapia alternativa, que possamos fazer por conta própria? Tenho um namorado que conheci pela internet, e no segundo encontro começamos um relacionamento sério, o identifiquei como machista enrustido no texto acima. Tenho uma dificuldade em me impor, falar olhando nos olhos, mas sinto que estou carregando um fardo.

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  16. Uma terapia precisa ser individualizada, e para isso preciso conhecer sua história e o que está acontecendo. Para dicas gerais, procure entre os artigos nesse blog.

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  17. Olá Adriana.
    Posso dizer que me relaciono com um machista. Sinceramente gostaria de entender a justificativa para essa postura. Por diversas vezes tive a oportunidade de vê-lo fazendo pesquisas na internet do tipo: "Mulher é mais burra?", "desvios de personalidade da mulher", "mulheres e dinheiro", "como a mulher vê o homem com dinheiro/carro".
    Os comentários não fogem a linha de pesquisa ora apresentada, como: "os grandes gênios da humanidade foram homens...." ou "É, realmente as mulheres inventaram muitas coisas relevantes".
    Por favor....qual é a explicação? Pois a única coisa que posso te dizer é que realmente esses comentários são muito desagradáveis e dá para perceber que apesar de ser excluída desse rol (de acordo com ele) é muito difícil de acreditar nisso.
    Certa vez disse que um amigo dele era bonito (deixei claro não fazia o meu tipo), mas era um rapaz apresentável. A resposta foi que minha visão se deu daquela forma porque ele ganhava bem.
    Terminei agora a minha segunda faculdade e estou caminhando para um mestrado. Tenho como meta a minha independência financeira...precisaria ouvir isso?
    Não sei como lidar com o machismo...O que fazer?

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    1. Querida, para mim ele é um babaca! Não sei se ainda vive com ele, mas oq posso dizer é que um babaca é uma pessoa de inteligência limitada. Vc com sua mente super aberta e pra frente dificilmente dará certo com ele, pq quanto mais conhecimento vc adquire mais vc cresce e se afasta dele, enquanto ele vai ficar parado no tempo com a cabecinha oca, achando que mulher só vê beleza onde tem dinheiro, algo bem contraditório ja que nos dias de hj somos muito mais independentes deles.

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  18. Uma pergunta interessante é: por que vc lida com um machista? O que vc vê nele que te mantém ligada a ele?

    Por que o homem é machista?
    1) Há uma cultura de milênios que suporta o machismo.
    2) Ser machista mascara a questão de ser alguém por ele mesmo, pois basta ser homem para ser "alguém".
    3) >>> Baixa autoestima.
    4) >>> Medo das mulheres que estão avançando em todos os campos da sociedade.

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  19. Querida
    Sou casada a quase um ano e meu marido é muito pirracento e infantil. fecha a cara atoa e não aceita críticas.
    As vezes tenho vontade de arrumar outra pessoa mais interessante mas minha família gosta muito dele e com certeza todos iriam ficar contra mim.
    O que faço?

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  20. Faça o que for bom para sua vida e si mesma e não o que sua família quer! Simples.

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  21. Prezada Adriana

    Lendo seu artigo percebo que, atualmente, ser um homem branco e heterossexual é coisa mais fora de moda e condenável. Sim as mulheres conquistaram uma grande espaço, mas como o amigo escreveu acima, também elas são abusivas (e talvez muito mais) quando numa posição de superioridade em qualquer relação.
    Ainda bem que existem mentes pensantes que estão se voltando contra o atual preconceito explícito contra o sexo masculino. O homem está se reinventando.

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    1. Desejo mesmo que o homem se reinvente. Adoro homens! Existem vários em mutação. Admiráveis homens. E é pura verdade que as mulheres também são abusivas. Escrevi vários posts sobre o assunto.

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  22. Meu marido é machista só comigo. Quando nos conhecemos eu trabalhava fora ele me respeitava e me ouvia, me entendia. Depois que tivemos nosso filho e eu passei a depender dele, virou um carrasco. Não chegou a me bater, mas suas palavras e grosseria doem mais que qualquer surra. Ele não se importa muito de eu trabalhar fora, contanto que eu sempre mantenha tuo limpo e impecável em casa além de servir ele quando ele quer. O duro é que tem dias em que parece que nada está bom, que eu posso fazer 1000 coisas certas e se fizer alguma coisa errada, digo de trabalho doméstico, vira uma fera, me critica e vive me corrigindo, estou cansada, muito cansada, me sinto sobrecarregada e desvalorizada, ja tentei conversar diversas vezes, pq ele é um bom pai e bom provedor, mas quando se trata de nós ou ele diz que eu tenho que mudar ou diz que se eu quiser peça o divórcio. Fico muito triste pq não consigo me comunicar com ele, acredito que se ele fosse mais humilde e menos ignorante nosso casamento seria mais feliz. Me preocupo se conseguiremos manter nosso casamento depois que eu concluir minha graduação, fazer mestrado, doutorado e assim por diante pq ele é o machista enrustido.

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    1. Como um homem poderia mudar se não através de uma mulher? Os homens entre si se dão suporte no machismo. Só por causa da mulher é que o homem vai poder evoluir...

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