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Fazendo amizade com o monstro: sonho de uma aspirante ex-boazinha



Adriana Tanese Nogueira


Uma amiga minha, após a leitura de “Lutando com os monstros: sonhos de uma aprendiz guerreira”, escreveu-me e enviou este sonho. Além de ser um sonho útil a muitas mulheres, quero comentá-lo publicamente para fazer justiça aos “monstros”.


          “Eu estava em casa, já era noite, e me preparava para dormir. Acontece que tinha um bicho negro, metade cobra e, numa certa altura da cauda, tinha corpo de lagarto, que ficava me seguindo pela casa o tempo todo, colocando a língua para for a. Eu morrendo de medo, percorria todos os cômodos de casa querendo dormir, mas ele vinha atrás de mim, andando devagar. Meu marido dizia para eu não ter medo, que o monstro não fazia nada. Mas eu não conseguia confiar nele, até que, cansada, resolvi parar num quarto. O bicho entrou também. Eu estava deitada e ficava olhando para ele. Depois dele parar do meu lado, ele se transformava num bicho grande indescritível, cinza. Não dava para entender direito a sua fisionomia, só dava para saber onde era cabeça e corpo. Era como, se do meu lado, ele quisesse se camuflar. Ficava de olhos fechados, tinha uma cor cinza de pedra, ficava de olhos bem fechados. E eu olhando para ele o tempo todo, com muito medo que ele me atacasse. Como não conseguia dormir, eu sempre mudava de lugar na casa, e ele sempre me seguindo. Quando eu parava, ele parava também, deixava a forma de cobra-lagarto e tomava essa forma indescritível. Enfim, ele não me atacou, mas eu só consegui dormir depois que fechei uma porta e coloquei um pano em baixo. Achei que ele ia conseguir dar um jeito de entrar, mas ele não apareceu. Finalmente, peguei no sono no meu sonho e acordei. A minha sensação no sonho foi real, pois senti muito medo e o bicho me parecia bem real, mas não era um medo apavorante.”
          É evidente que a leitura do meu artigo estimulou a tomada de consciência de alguma coisa que já estava dentro. Ela pôde ver o que se arrasta atrás dela, o que está ao seu lado, dia e noite, noite e dia. Agora ela sabe, e não vai poder manter trancada essa realidade em algum cômodo de sua casa interna.
          O sonho traz outra informação: além de existir e de segui-la sempre, o tal bicho preto não é uma ameaça à sua integridade. Não há conflito no sonho, há somente o espanto de enxergar esse monstro ao próprio lado. Apesar de certamente não ser prazeroso, ele não parece perigoso.
          Quando ela se mexe que ele se torna visível, quando ela está parada ele vive camuflado, bem quietinho, de olhos bem fechadinhos. A mim dá ternura…
          Este é o bicho preto que acompanha as meninas boazinhas (e essa eu sei que é muito boazinha, apesar de não ser boba). Quanto mais elas ficam paradinhas na vida, sem dar muito trabalho e sem sairem do “seu lugar”, o monstrinho vive escondido, como sua sombra informe e invisível. Entretanto, quando elas ousam aventurar-se por aí, querer mais, exigir, estabelecer limites, pensar mais e todas essas coisas que geram “confusão” e “desconforto”, o nosso amigo preto sair da sombra, pesado e lento, e toma forma.
          No caso da minha amiga ele está entre a cobra, que se arrasta no chão, sem pernas, e sua prima mais evoluída, o lagarto. Pelo tipo de bichos, eu sei que há muito caminho pela frente para ela, pois são animais de sangue frio bem no início da cadeia evolutiva. Até chegar à forma humana tem tempo. Isto quer dizer que o potencial que essa figura animal representa está ainda longe do nível de consciência da sonhadora. Com o trabalho da consciência (cujo tempo é fora do tempo físico) essa figura monstruosa se transformará no Príncipe Encantado que todas esperam. Ele será um belo masculino, com um projeto de vida original, visão e coragem. Graças a ele, os conteúdos do inconsciente da sonhadora estarão disponíveis e ao alcance da mão para fazer de sua jornada na terra uma travessia criativa.
          Enquanto isso, vejamos o que aquela cobra, que parada parece de pedra e em movimento é cobra-lagarto, quer dizer. A serpente zigzagueia pelo chão como os relâmpagos dos deuses zigzagueam pelo céu. Ambos são sinônimos de energia, aquela potente que sacode e traz novidades. Por causa de sua muda, a serpente é símbolo de tranformação, portanto ela representa a energia evolutiva que se agita por dentro, que move, que leva a ousar.
          No concreto da vida da sonhadora o que tudo isso quer dizer? Ela mesma o explica, sem saber, quando escreve:
          “Nesses dias quando estava jogando xadrez, eu consegui perceber porque eu estava perdendo no jogo. Eu até que raciocínio direitinho, mas eu nunca ataco o adversário, fico me defendendo, me defendendo, até chegar ao ponto de não ter mais jogadas e levar um xeque-mate. Acho que tenho de aprender a atacar, enfrentar mais ainda as situações ameaçadoras que se mostram para mim.”
          É isso aí, amiga. O potencial está ao teu lado. Não tem bela forma ainda porque você o usou pouco. Com o treinamento apropriado, que vai ser feito agindo nas pequenas coisas da vida de todos os dias, ele se transformará num lindo Animus ao teu dispor. Dê as boas vindas ao bicho preto.

Comentários

  1. Adriana,
    Ao ler seu texto não pude deixar de lembrar de um outro que gosto muito. Você conhece?

    “Até que ponto é preciso ser inteligente para ser boba?
    Os outros disseram-lhe que era boba. E ela se fez
    de boba para não ver até que ponto
    os outros eram bobos ao imaginá-la boba,
    Preferiu ser boba e boa, a ser má e inteligente.

    É ruim ser boba; ela precisa ser inteligente
    Para ser tão boa e boba,
    É ruim ser boba, porque isso demonstra
    Até que ponto os demais foram bobos
    Quando lhe disseram que era muito boba”.

    (R. Laing)

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  2. Jaqueline, fiquei confusa com essa citação do Laing, não entendo sua finalidade (a de Laing). Há outra coisa que vale ter em mente, Laing é um homem falando de mulheres. Eu faria atenção a esse detalhe, pois a idealização masculina do feminino é sorrateira e pega por todo lado. Nada como ser mulher e sentir na pele o que é ser boa, boba, inteligente e etc.

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  3. É verdade Adriana, acredito que a um homem não é possível falar com propriedade ou que possa saber o que é ser mulher. É como saber a teoria e não se ter a experiência, alem do que você aponta, a idealização do feminino...
    Peguei esse texto em uma citação num livro de Alicia Fernandes: A Inteligência Aprisionada: Abordagem Psicopediatria. Adorei o livro e quando li seu texto lembrei.
    A semelhança que vi, foi o fato do texto do Laing falar de uma maneira de se manter como boba para ser aceita e desempenhar esse papel é uma forma inteligente de não por em risco as relações.
    Abraço.

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  4. Ah, agora entendi, Jacqueline!

    Verdade, mas não é inteligência verdadeira essa, mas a estratégia necessária dos oprimidos frente aos opressores, os que têm o poder. Se você observar, todas as "minorias" fazem isso: os da favela como a mulher do Leblon. É uma questão de quem tem faca e queixo na mão.

    Veja, a idealização do masculino. O Laing percebeu que a mulher que se faz de boba não é realmente boba, mas nào conseguiu ler a realidade inteira. A mulher faz isso porque está no lugar de vulnerabilidade, que ele, Laing, como homem não enxerga...

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