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Homenagem aos homens de uma vez


Adriana Tanese Nogueira

Duvido que meu avô tenha terminado a quinta série. Ontem, 30 de Junho, ele teria feito 97 anos. Nasceu em Polignano a Mare, um vilarejo na costa leste da bota italiana, foi ao Brasil pequeno onde trabalhou desde cedo, tendo uma vida duríssima. Voltou à Itália para o serviço militar, casou-se e montou família, até emigrar novamente para o Brasil em 1950.


          Traiu minha avó uma vez, durante o tempo em que estavam afastados, ela com os filhos na Itália, ele no Brasil trabalhando para juntar o dinheiro da passagem para eles. Evidentemente, a relação extraconjugal continuou após a chegada de minha avó, e se protraiu até o dia em que ela desconfiou dele saindo aos domingos à tarde bem vestido e perfumado (afinal era italiano!), pegou as duas filhas pela mão, minha mãe e minha tia, e as três mulheres da casa seguiram-no. Quando a amante abriu a porta para fazê-lo entrar, minha avó - a qual também não completou o ensino primário mas não era boba - gritou, do outro lado da rua: “Seu sem vergonha! Como pode, um homem casado, com filhos! Vergonha!” E vários outros adjetivos em dialeto que eu não poderia repetir.
          A amante assustada fechou a porta e meu avô voltou para casa, de orelhas baixas, com minha avó atrás dele gritando sua semvergonhice. Isso com as filhas ao lado, talvez para que elas tivessem uma referência no futuro, quem sabe. Afinal, é da mulher educar um homem. E deixo aqui a dica para aquelas que precisarem…
          Esse foi o único desvio do meu nonno. Ele não mentiu para minha avó, simplesmente não contou e ficou por isso mesmo até ser descoberto. Mentir descaradamente, isso ele nunca fez. Penso não na mentira ideológica, mas naquela “afetiva”, o “mentir” como ato psicológico de criar artimanhas para esconder e esconder-se da verdade. Aquela desagradável ambiguidade que descamba facilmente na falsidade e manipulação; aquele jeitinho de dar uma de coitadinho para manobrar os sentimentos de uma mulher, jogar verde para colher maduro, ter duas ou várias caras e sempre tentar se safar. Precisa ter índole para isso, não era do meu vô uma coisa dessas.
          Lembro dele quando reflito sobre os muitos homens cujas artimanhas afetivas são dignas de uma perigosa e esperta cortesã. Homens, orgulhosos de sua masculinidade, que mentem, enganam e são impudentemente falsos. Homens que colocam na boca da esposa o que elas nunca falaram, que deturpam palavras e gestos, que vivem naquele mundo de meias verdades e meias mentiras, rolos e molequices. Homens aos quais falta a primária honestidade para assumir que 2 mais 2 dá invariavelmente 4, sem tirar nem pôr, ponto.
          Surpreendente. São estudados, têm bons empregos, sabem falar, e aparentemente pensar. Entretanto, por trás da fachada racional e “correta”, seu mundo psicológico é edulcorado e cheio de golpes como novelas melodramáticas de baixa qualidade. Nada em sua vivência sentimental é linear, direto, simples e verdadeiro; tudo dá muitas voltas. A afetividade contorta polui inevitavelmente seu pensamento também que como um labirinto tem mil curvas, ângulos e becos sem saída.
          Esses homens são cativos de uma Anima megera e mesquinha. Encontram-se num imbroglio psicológico do qual não podem ter noção, pois sua visão está  desvirtuada pela manipulação interna da Anima. Homens assim perdem os valores mais nobres da masculinidade e se achatam num dos aspectos mais deprimentes do feminino, aquela pequenez de espírito manipuladora e corrupta. Infelizmente, esta é uma realidade da psique masculina mais comum do que gostaríamos.
          Aí penso no meu amado nonno: simples e reto, pão é pão e vinho é vinho. Quebrou a cara uma vez e nunca mais. Trabalhou, criou sua família, foi responsável e consistente até o fim. Viveu sua vida com decência e coerência. Ponto.
          Será coisa dos homens de uma vez?




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