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Lutando com monstros: sonhos de uma aprendiz guerreira


Adriana Tanese Nogueira


Há fases na vida em que tomamos consciência de que a realidade não é exatamente a que queríamos e, sobretudo, que é preciso decidir quem queremos ser.
          O processo de individuação, como Jung o apresenta, é um caminho de libertação dos estereótipos externos e daqueles internos que carregamos como tendências “impulsivas”, herdadas ou

de matriz arquetípica. O movimento espiralado da individuação permite o florescimento da personalidade. Agora, é preciso saber lutar. Nada chega de bandeja, muito menos a realização de si mesmos.
           Vou relatar dois sonhos de uma adolescente em pleno processo de tomada de consciência e atitude. Eles refletem o que foi conquistado após um ano de pouco de trabalho terapêutico sobre alguns aspectos importantes de seu desenvolvimento psico-social. Deve-se relatar que a pessoa em questão sempre teve como ideal a doçura da menina bem comportada, que não faz mal a ninguém, não é grosseira nem fofoqueira. Tem  medo do escuro e tem frequentes pesadêlos.
          Eis o primeiro sonho:
          “Pela janela entre Drácula. Eu sou a princesa Tamina (do filme O Príncipe da Pérsia), estou de pé perto da porta e por isso ele não pode me morder ao pescoço, pois eu posso gritar por ajuda. Percebendo a situação, ele tenta ser ‘simpático’ e me fala que quer me apresentar uma amiga dele, tal de Lídia. Muda a cena, estou andando pela rua com Lídia na coleira, é uma cachorra preta e bonita. Conversamos descontraídas em língua humana. De repente a cachorra se abre ao meio, longitudinalmente. As duas metades do animal caem no chão e do interior vazio surge Drácula. Ele cresce, cresce, cresce e pula para cima de mim. Fico com medo e grito não, não… Mas então penso: “Eu sou a Princesa Tamina, eu posso lutar!” Chuto, golpeio e bato. Arrancando a cabeça do Drácula. Ele se torna uma fumaça preta que se esvai no ar e uma máscara cai no chão.”
          Na noite seguinte, ela sonha:
          “Estou numa cidade cinzenta, é o Rio de Janeiro, mas poderia ser também outra cidade grande. Vejo pessoas andando como robôs, cinzentas e apagadas, o olhar fixo na frente. Há uma bomba no chão, o pavio aceso. Ela explode. As pessoas se transformam pedaço por pedaço do corpo em palhaços. As bocas vermelhas, largas, num sorriso grotesco, mostravam dentes afiados, e cambaleando vêm na minha direção. Querem comer minha cabeça. Eu pego uma barra de ferro que tinha no chão e começa a bater neles, afastando-as de mim. Acordo.”
          Drácula é o sedutor que tira a energia vital (o sangue) de outra pessoa. O vampirismo é uma das formas mais comum de relação: nela há dependência e poder. Dependência, porque Drácula precisa da outra pessoa para sobreviver como vampiro (não há morte e renascimento nessa história); poder, porque para obter o que ele precisa, ele controla a outra pessoa e, finalmente, a reduz ao que ele é.
          Os vampiros são as pessoas sem energia própria que se grudam nos outros, agradando ou perturbando-os, para preencher o vazio que sente. Que irritem ou seduzam, há sempre uma forma de manipulação. O sentido de seu comportamento consiste nisso: manipulação e dominação. A energia psíquica e espiritual se consegue somente por estes meios: pode ser com presentes ou ameaças, o resultado é o mesmo.
          Ao ver-se impossibilitado a sugar a sonhadora porque esta tem ajuda próxima, Drácula utiliza o subterfúgio do cachorro. O cão é, por excelência, o animal amigo. No caso é uma cachorra, agregando as qualidades de doçura que inclusive combina com o ideal da sonhadora. Ainda por cima, Lídia quer dizer “alegria de viver”. A perfídia de Drácula se evidencia aqui ao escolher os elementos que sabe podem seduzir sua potencial presa.
          A sonhadora porém descobre o imbroglio, empodera-se e luta. A cachorra nada mais era que um engodo. Não há alegria, não há amizade, não há doçura: é tudo de mentira. Arrancar a cabeça de Drácula é revelar a verdade e fazer cair a máscara.
          Na noite seguinte, a problemática continua. Agora não o personagem não é um indivíduo mais o coletivo, ou seja, a mentalidade. Pessoas andando como autômatos são os que vivem sua vida sem pensar, trilham um caminho dado, que eles não moldaram para si. Apagou-se neles a chama interna da vida criativa. Restou o cinza da falta de graça e de sentido. Ações e obrigações se repetem diariamente porque assim há de ser. O oposto disso é o palhaço. A bomba explode, a massa de autômatos se tranforma em um bando de palhaços. Mais uma vez, há a referência à alegria e ao riso, mas o sonho revela quem são: ridículas e malévolas figuras. Seu objetivo é destruir a cabeça de quem não é como eles, aquela mesma cabeça à qual eles renunciaram. De fato, quem é um autômato não usa sua cabeça mas os estereótipos do grupo; quem é palhaço se faz ridículo para os outros rirem.
          A sabedoria do sonho mostra que a risada forçada e fazer do grupo o modelo para a própria personalidade não são a solução quando se busca um sentido na vida ou se sente falta dele. Mergulhar no grupo ou na diversão forçada é uma forma de esconder-se, de fugir de si mesmos e boicotar-se. Enfim, é uma palhaçada, e pior que é mortífera.
 

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