16/06/2010

Namorando suas próprias palavras


Adriana Tanese Nogueira

Uma das maiores dificuldade de comunicação acontece com aquelas pessoas que falam demais. Jogar palavras ao vento é uma forma de se tornar impermeáveis aos outros e às circunstâncias da vida.


          Palavras como escudo que ricocheteia o ouvinte.
          Palavras para disfarçar, omitir e esconder.
          Palavra para afogar a relação.
          Palavras para anular o outro como um Diferente que possui outras palavras.
          Palavras como uma capa de invisibilidade que desnorteia o ouvinte, o confunde, o despista e o engana.
          Palavras rebuscadas que são como palavrões e o falador compulsivo como um mágico que puxa mais uma palavra da manga e começa um novo truque.
          Palavras que dão a majestosa sensação de ter razão.

          O falatório do falante compulsivo necessariamente nutre raciocínios doentios, porque quem fala demais não pode ouvir nada além de si mesmo, portanto seus pensamentos são desenvolvidos no ar pesado de uma mente fechada. Sua lógica será restrita a quatro idéias expressas em quatro milhões de palavras, as quais ecoam inebriadas dando ao falador compulsivo a ilusão de dominar.
          A busca do controle do outro via palavras pode ser facilmente contrabandeada por “dialogo”. Entretanto, numa tal “conversa” logo se percebe que falta espaço para a troca. O falador compulsivo mitralha seu ouvinte/adversário ao som de palavras, mas não se abre. Palavras funcionam como ataque e tomada de governo, via golpe.
          Camuflado em suas vocalizações, o sujeito que fala demais canta seu mantra enfeitiçado. A tempestade de areia que ele levanta tem a fin alidade de impedir a visão clara do que está em jogo. Tão poderoso é seu artifício, que o próprio falador compulsivo termina por acreditar em suas próprias palavras. Enamorado ele perde o fio da meada, e segue como um desvairado raciocínios sempre mais distantes da realidade.
          Este estilo é masculino e do ego. É masculino, porque tudo fica no cérebro e no abstrato. Sentimentos aqui não são levados em conta. A vivência real e suas consequências são desrespeitadas, incluindo o outro e tudo o que for concreto e externo à cabeça do falador compulsivo.
          Essa atitude é do ego porque representa um mecanismo de defesa e de fechamento para com o externo, e, nesse sentido, é encontrado entre as mulheres também. Ao mesmo tempo em que a verbalização exagerada produz o efeito de inflação que fornece um ar de poder, ela é o resultado de insegurança. Bastaria um toque (real) para fazer desabar a verborragia. É por este motivo que o falatório é persistente, devendo garantir a invulnerabilidade do falante.
          O falador compulsivo tem atitude fálica. Falar muito é uma forma de não viver, não sentir, não estar de verdade presente. Suas palavras parecem ter significado mas na verdade escondem o vazio interno. Essa questão psicológica foi resolvida no plano filosófico na Idade Média, quando o monge e filósofo francês Roscellino (1050-1120) introduziu a idéia de palavras como “flatus vocis”: mera emissão de ar.
          É por isso que hoje, se quisermos enfrentar qualquer problema é preciso ir direto aos fatos externos (eventos) e internos (emoções, sensações, sonhos, vivências, etc.). Ficar na cabeça emitindo palavras genéricas é pura enrolação. Lorotas para a consciência continuar dormindo.

10 comentários:

  1. Perfeito seu texto, adorei. Nunca tinha pensado nessa questão por essa perspectiva que você trouxe. Infelizmente está cada vez mais frequente encontar emissores de "flatus vocis"por aí. Gostaria que você voltasse ao tema e desse algumas dicas de como lidar com essas pessoas. Eu, na minha ignorância, até hoje só aprendi me afastar de gente assim, porque me irrita tanta ansiedade, tanto egoísmo. Prefiro ficar próximo dos meus cachorros, que nada falam, mas se comunicam melhor comigo.Abraços, muito bom o seu blog. Silvia Dutra.

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  2. Oi Silvia!
    Tudo bem? Vou pensar num texto complementar a esse, de fato é importante.
    Abraços
    Adriana

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  3. Olá, sou uma jovem médica que desde criança sofro com minha verborragia. Seu texto me ajudou muito a entender a perspectiva psicologica deste problema. Estou buscando ajuda para resolver meu caso, já que tudo o que nos dizem é simplesmente "falem menos, pensem mais" e não entendem que este é, na verdade, um problema mais profundo, não só de atitude. Obrigada!

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    1. "Jovem médica", a superficialidade é um mal comum. Se percebeu que seu problema é mais profundo, então deveria buscar entendê-lo de verdade. Se quiser marcar uma sessão comigo é só entrar em contato: adrianatnogueira@uol.com.br.
      Abraço

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  4. Olá Adriana,Parabéns você é super...! Adorei todas as tuas postagens,e quanto a este texto: conheço muita gente que é assim mesmo, fala pelos cotovelos eu tbm falo um pouquinho mas qdo encontro alguém que não dá pausa eu apenas escuto e a deixo falar, falar e falar e sempre concordo com tudo para não prolongar ainda mais o assunto. Será que estou errada em agir assim!? Enfim quando não aguento mais ouvir peço um pouquinho de licença mais volto...
    Obrigada e um super abraço!

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  5. Obrigada, "mar". O importante é seguir o que sente, lá de dentro. Se concordar vai fazer vc sair do sufoco mais rapidamente, então... que assim seja!

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  6. Olá,

    Gostaria de saber o nome do psicologo ou psiquiatra que fala sobre como empregamos as palavras, e que todas as palavras são empregadas com algum sentido.

    Obrigada.

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  7. Rani, não estou entendendo de quem está falando... Eu não tinha lido livro algum de psicólogo ou psiquiatra antes de escrever esse artigo.

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  8. Bom dia Adriana, meu nome é Kleber e estou muito preocupado com minha irmã.

    Obs. Ela já tentou o suicídio por duas vezes com ingestão de remédios.

    "A Mulher fala demais mesmo", ano passado discutimos na casa de nossos Pais por conta disso, que pra mim é um enorme problema, me irrito muito, porque quando ela começa a falar parece um caminhão sem freios, e se isso não bastasse, o tom de voz é muito agudo e alto. Venho pedir um conselho como ajuda, porque não sabemos mais o que fazer, e já estamos ouvindo comentários de pessoas reclamando porque também observaram esse comportamento.
    Meu e-mail é kleberleandro71@gmail.com
    Sem mais, agradeço pela atenção dispensada.

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  9. Kleber, se quiser marcar comigo uma sessão, entre em contato pelo meu email.

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