30/06/2010

O tio Nino ama Abraham Lincoln? Sério?

Adriana Tanese Nogueira

Uncle Nino, filme de 2003, nasce de uma boa idéia, a de fazer encontrar o antigo com o moderno, a fim de produzir uma reação em cadeia que leva para o reequilíbrio final. Infelizmente, o filme pisa em alguns lugares comuns banalizadores ao tentar trazer ternura e sentimento para dentro do dia-a-dia de uma família disfuncional.


          Após décadas, o tio Nino reaparece para visitar o túmulo do irmão em cujo funeral não pôde estar presente. Ele aterriza na “América”, encantado pelas diversidades com relação ao seu vilarejo natal, presumivelmente um canto da Toscana, com casa de pedra, jardim, sol, flores e cachorros. A paz de origem é substituída pela frieza e distância dos habitantes da casa de seu sobrinho, Robert. A vida familiar está extinta, o marido só trabalha, a esposa, paciênte Penélope, espera pelas coisas melhorarem, os filhos buscam consolo cada um de sua maneira, a menina ansiando por um cachorro, o menino tocando numa banda (para variar).
          A família perdeu seu centro. Não se come junto, não se conversa, não há relação. Neste típico cenário de sociedade “avançada” entra o tio Nino, cheio do sentimento italiano que rege as instituições da hospitalidade e da família. Sua idade lhe permite aquela sabedoria que sem nem perceber atravessa e faz desmoronar tabús e hábitos. Graças à sua presença, a família irá retornando a ter um centro vital e a unir-se.
          O conto de fada despertou-me duas observações. Em primeiro lugar, que o conforto se paga. Um homem que anda de limousine deve dar algo em troca pelo luxo do qual goza. O sistema econômico capitalista “avançado” oferece chances para quem quer fazer carreira, mas ao preço de ter sua vida tomada pelo trabalho. Isso significa estar à disposição 24horas por dia. A disfunção familiar é consequência inevitável. Todas as escolhas que se fazem têm um preço, só restando decidir qual se quer pagar.
          A segunda, e mais espantosa supresa, foi encontrar o personagem central do filme, o tio Nino, idoso simpático que viveu nos campos italianos sua vida inteira, tendo Abraham Lincoln como seu ídolo pessoal. Talvez o escritor e diretor do filme, Robert Shallcross, tenha tido a infeliz intenção de criar uma troca: assim  como o tio Nino presenteou a família americana de sua reunificação, o país dessa família, os EUA, contribuem com o exemplo de um de seus personagens mais famosos, tomado como modelo pessoal pelo tio Nino.
          Com todo respeito, os italianos não dão a mínima para Abraham Lincoln. Um povo com 2.500 anos de civilização, não precisa pegar emprestado dos EUA seus heróis. Não faltam nomes na biografia nacional italiana, tem políticos, artistas, escritores e poetas para todos os gostos.
          Um velhinho do interior da Toscana tem Giuseppe Garibaldi, não precisa de Lincoln. Acho importante respeitar a cultura alheia. Vivemos num mundo que tende para a união; apesar dos patriotismos e preconceitos internos, está sempre mais evidente que estamos todos interligados. O capitalismo moderno engendrou a globalização e com ela veio a mescla entre povos, línguas e costumes. Manter a própria identidade pessoal e nacional é indispensável para não se perder no anonimato da massa, porém isso não significa desvalorizar as demais culturas. O patriotismo americano faz sentido para os americanos mas é um absurdo usá-lo como referência para outros povos, ainda mais os italianos, tão orgulhosos de sua história e cultura, pelo menos tanto quanto os americanos.
          Além disso, o diretor volta a bater nessa mesma tecla, como se fosse uma pílula milagrosa, quando oferece ao público a idéia de que uma foto do Lincoln no quarto do garoto insatisfeito representa o reencontro com o verdadeiro sentido da vida. Se o patriotismo pode ser um valor em matéria de política, ele com certeza não serve para tratar a disfunção de uma família moderna. É cultura de massa barata.

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