19/06/2010

Saber prestar atenção

Adriana Tanese Nogueira


Diferentemente do que se costuma dizer, “religião” não se resume à etimologia tradicional que a associa a “re-ligar” (juntar, unir, de modo que religião é tudo o que une), mas de “atenção, observação escrupulosa”. É esta a acepção que Jung prefere e o accompanho nisso, pois se prestarem atenção (!), aquilo ao qual se dedica “observação escrupulosa” se torna de alguma forma precioso, passa a constituir um centro de referência de nossa vida,
um atrator de escolhas e preferências. Ou seja, se torna “sagrado”, é protegido e não se pode colocar em questão impunemente.
          Dar atenção a algo é dar nossa presença, energia e poder. O livro “A Profecia Celestina” de James Redfield trata exaustivamente desse assunto, vale a pena aproveitar-se dessa leitura agradável e profunda. Se tudo é energia, o olhar atento é uma forma de transmissão de energia. E se ele também for amoroso estará transmitindo uma energia que dá suporte, nutre e potencializa. O mesmo vale para o contrário, não se fala de “olho gordo”? De pessoas assim é melhor manter a distância física, não só psicológica.
          Fazer atenção permite discriminar e discernir aquilo que ao olhar distraído parece um bolo informe de problemas, sensações ou idéias. Muitos dos pensamentos que se levam adiante, como crença ou lógica são, ao exame atento, um emaranhado confuso de meias verdades, estereótipos, senso comum e simples fantasias. Uma pessoa preconceituosa se submetida a uma conversa atenta e precisa (“escrupulosa”) não vai poder sustentar suas razões. De fato, toda vez que se olha bem de perto uma idéia, sentimento ou atitude se descobre muito mais (e muito menos) daquilo que se imaginava.
          Particularmente, no que diz respeito às crenças de uma pessoa, que motivam suas escolhas e comportamentos, a visão de longe, aproximada e borrada leva a uma série de mal entendidos e confusões que impedem que ela mude, inclusive para seu bem. Por falta de atenção escrupulosa, suas idéias lhes parecem claras, quando a observação de perto revelaria confusão e sobreposição de meias-idéias. Com base em conceitos indefinidos essas pessoas constróem raciocínios lógicos que fazem sentido em abstrato, como lógica do discurso, mas cujo tijolos constitutivos estão corrompidos. É como ter uma frase com sintaxe correta mas sem significado. Para algumas pessoas é preferível continuar dando murro em ponta de faca porque parar para pensar, ou seja, observar com atenção sua forma de pensar, levaria a uma revisão geral e ao auto-questionamento. Nem por isso chegam a algum resultado.
          Sem prestar atenção escrupulosa, paciente e presente, não é possível encontrar o fio da meada. Tentar resolver um problema “na marra” é o mesmo que querer desenrolar um novelo puxando vigorosamente um de seus fios, somente as crianças fazem isso. O ato violento da convicção racional não é suficiente para endireitar o bolo interior, nem próprio nem alheio.
          Como no mito de Eros e Psique, de Ovidio, a primeira prova de Psique (a alma) em sua jornada de rendeção para se tornar uma deusa, é a de separar um montão de sementes, cada uma conforme seu tipo. Quem a ajuda são as formigas, animais pequenos, humildes, disciplinados, trabalhadores incansáveis e fortes. E é isso mesmo: somente o trabalho de formiguinha, consciente e atento, permite enxergar e distinguir, e aí sim saber do que se está falando. É por este esforço que uma pessoa pode compreender-se, fazer justiça a si mesma, aprender a amar-se, entender de fato quem é e o que está acontecendo com ela.

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