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Príncipe da Persia: O olhar que toda mulher consciente gostaria de receber

Adriana Tanese Nogueira


Entre os muitos efeitos especiais e as acrobacias do fascinante e incontrolável Príncipe da Persia, cujo coração vale um trono, o filme lança luz sobre um intrínseco desejo feminino.
Desta vez, a princesa não é simplesmente uma bela mulher que precisa ser salva. Ela há de ser acreditada, respeitada e homenageada. Na qualidade de um tipo de sacerdotisa, ela guarda o destino do mundo inteiro. O dom da vida que ela segura em suas mãos não vem do ventre, como fosse uma moderna Eva, mas do voto que ela fez em favor da potencial bondade do gênero humano. Como uma deusa, ela mediou com os deuses pedindo piedade e ofereceu sua vida como prova de confiança na bondade humana.
          (Quem conhece as muitas acrobacias emocionais e lógicas que as mulheres fazem para manter uma família unida, uma comunidade de pessoas funcionando, vidas que seguem adiante? Tem alguém idéia dos muitos segredos que uma mulher segura dentro para que as relações fluam?)
          O filme começa com a bárbara invasão de um espaço sagrado e termina com o retorno da justiça, mas num nível superior: justiça consciente. O meio da história conta o ponto de mutação que permite a reintrodução da ordem e do coração na vida. A ganância de poder, que no final nada mais é que um gigantesco e voraz Ego que quer tudo para si, encontra-se do lado opposto daquele cuja vida pessoal é uma promessa à Vida em si.
          O tratamento que o feminino recebe sob o governo do ganancioso masculino é desrespeito e descrença. O novo começo que termina o filme mostra a relação com o feminino levada à outro nível. O ultimo olhar que o herói dá à princesa condensa um inteiro mundo novo. Porque ele viveu duas vezes, pelo fato dele ter encarado a morte, a injustiça, a traição, a dúvida, a dor, o amor e a perda, o masculino está finalmente pronto para comprender. Ele está consciente e capaz de apreciar o que o feminino é. Ele confia nela, portanto, lhe dá de volta o poder que a ela pertence.
          (Será que isso significa que os homens têm de viver duas vezes por cada vida da mulher para abrir suas cabeças e corações?)
          Os olhos que fecham o filme definem o novo homem que o Príncipe se tornou. A Princesa indaga, cética, a respeito da mudança de consciência dele. Entretanto, a suspeita não pode resistir à sinceridade daqueles olhos, que não é a sinceridade do garotão ingênuo que se èntrega à charmosa mulherzona estilo mãe. É a genuinidade de um homem que evoluiu para o conhecimento do que está em jogo, que enxerga o mundo por dentro e, portanto, é merecedor de estar ao lado dela. 

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