18/06/2010

Quanto vale uma terapia

Adriana Tanese Nogueira


O valor material de uma terapia, ou seja quanto se está dispostos a pagar por ela, é diretamente proporcional aos valores que norteiam a vida de uma pessoa. O uso do dinheiro é um símbolo poderoso daquilo que “vale”. Consequentemente, a lista das “necessidades” é o resultado das prioridades que uma pessoa tem, as quais, por sua vez, dependem de seus valores.

          Valores não são algo explícitos e claro, não creia você ter controle sobre seus valores. “Valor” é algo que toca o afetivo, não a mente abstrata. Valor é o que nos mexe, dá sentido ao que não faz sentido visto de fora, funcionando como parâmetro para a aceitação ou rejeição de pessoas e situações independentemente de seu “valor objetivo”. Frequentemente, os valores que norteiam a vida de um indivíduo são recebidos num pacote fechado via família e grupo mais próximo, e refletem as orientações da sociedade de massa, suas idealizações, modelos e doenças.
          Para descobrir quais são seus valores não procure, portanto, entre suas idéias, mas vá para sua contabilidade. Observe onde e para quê gasta seu dinheiro: lá estão seus valores. Na simples matemática do final de mês é que vai saber o quanto é imediatista ou superficial, o quanto valoriza seus estudos e desenvolvimento intelectual, e o quanto investe em si mesmo como um todo.
          Investir em si mesmo não é o mesmo que fazer um curso, é bem mais do que isso. Quer dizer tomar-se como alguém a ser conhecido, decifrado e melhorado. É levar a sério as feridas, as dores e os sonhos, talvez para no final descobrir que o tal curso que queríamos fazer não é exatemente significativo para nós, apesar de popular. Investir em si mesmos é igual a apostar em si, é correr atrás das questões em aberto, e dar vez à voz do profundo.
          Quantas vezes se ouvem palavras como auto-consciência, evolução pessoal, individuação, auto-conhecimento no dia a dia? De quem e onde? No vocabulário de massa elas têm pouco espaço, basta prestar atenção, ver a televisão e ouvir as conversas por aí. O que é pouco falado é pouco considerado, logo, não há dinheiro para isso.
          Apesar de existirem pessoas com uma quantidade ilimitada de dinheiro, não há ninguém sobre a face da Terra que possui tempo e energias infinitos. Todos hão de fazer escolhas a respeito de como vão passar seu tempo neste planeta e o que fazer com as energias (mente, corpo e alma) disponíveis. É aí que entram os valores, ou os desvalores, ou a falta de consciência dos mesmos. Sem bússola avança-se tateando como cegos numa sala lotada.
          Toda escolha leva a renunciar a alguma coisa. Não se pode estar em dois lugares diferentes, fazer com afinco duas carreiras diferentes ao mesmo tempo ou ter dois maridos juntos (!), assim como é impossível passar o dia no shopping, sair com os amigos, transcorrer o próprios dias passeando e namorando e ganhar um prêmio Nobel no final do ano.
          Escolhas, baseadas em valores, levam a investir o próprio tempo e energias numa determinada direção e nela irá nosso dinheiro. Todos, consciente ou inconscientemente, fazem escolhas desse tipo, logo investir em si mesmos nada tem a ver com a quantidade de dinheiro que se possui mas com os valores que se prezam. Portanto, dando uma rápida olhada em volta, as idéias de consciência, reflexão, compreensão, e, eventualmente, reavaliação dar própria vida e mudança são pouco valorizadas. Logo, do ponto de vista da cultura de massa, o valor de uma terapia vale menos do que um lanche no McDonald’s.

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