12/06/2010

AMOR ALÉM DA VIDA: Saber dizer a-Deus


Adriana Tanese Nogueira


Sempre me intrigou uma cena do filme “What Dreams May Come”  (1998) que em português foi chamado “Amor além da vida” com Robin Williams. Nessa história muito tocante um casal perde num acidente de carro seus dois filhos. Superar o luto é dificílimo para a mãe que, após a perda repentina do marido, não aguenta mais e se suicida.


          Muda a cena, estamos no paraíso. O marido, alegre e simpatico, o Robin Williams de sempre, explora as redondezas, as dimensões e possibilidades de seu novo mundo. Sua esposa, entretanto, não está lá, por ter tirado sua própria vida, ela pertence a outra realidade, algo che no imaginário cristão chamaríamos de “inferno”, um espaço  sombrio, abandonado e cinza. Esquecida e largada à maré, esta parece ser a maior das punições: perder a consciência de si, viver sem saber, estando à mercê do vazio. O homem, que a ama, resolve tentar resgatá-la, apesar do risco da empreitada. As chances dele acabar como ela são altíssimas, ser arrastado para a inconsciência é fácil.
          Ao encontrar sua esposa, assombrado o marido assiste à decadência dela. Abobada, ela vagueia no tempo sem tempo daquela terra sem sentido. Ele tenta acordá-la, recordar-lhe quem ela é, mas ela sequer o reconhece. Tudo parece ter sido apagado de sua mente e ela soltado as rédeas de si mesma. Dando-se conta de que não há esperança, o marido resolve que não irá abandoná-la. Entrega-se e ele mesmo começa a perder a memória e a esquecer-se de si. Eis que ela, de repente, acorda. Parece que o amor a desperta, como se não podesse aceitar que ele também se perca no mar da inconsciência e da falta de sentido, ela se resgata e consigo salva ele também.
          Meu sentimento diante dessa cena estava dividido entre o encantamento pelo milagre acontecendo e a dúvida perturbadora: será isso possível? De verdade?
          Como psicoterapeuta devo ser realista. Por querer resultados e não fantasias, precisamos ser objetivos. Milagres acontecem: repentinas e inesperadas soluções vindas de onde menos esperamos, existem. Mas quantas vezes, resumir-se aos valores do outro, afogar a consciência que nos faz diferentes (e incômodos), desistir de nós por amor ao outro leva a pessoa a despertar? Quantas vezes aquele clic, que tanto esperamos e que vai finalmente iluminar nossa vida, acontece?
          O filme nutre uma idéia errônea. Não é ficando juntinho do outro, dividindo o mesmo panelão de problemáticas, acompanhando-o em sua vida e enganos, que vamos ajudá-lo.
          É, ao contrário, fazendo o esforço individual e heróico de sair do buraco que podemos aí sim esticar a mão para que outro também saia, ou pelo menos tenha noção de um “além”. Prodígios podem acontecer, mas por serem exatamente isso, eles não constituem a norma. A regra é que ser conscientes é como subir um rio contra corrente, enquanto que abandonar-se à inércia é fácil como deixar a água nos levar para o grande mar e lá mergulhar.
          Somente ao sairmos do abismo no qual o outro está é que podemos tentar ajudá-lo. Friso a palavra “tentar”. Quem disse que vamos conseguir? E se ele não quiser agarrar nossa mão? Se ele estiver por demais acostumado àquela vida? Tenta-se uma, duas, mil vezes, mas ao final é preciso dizer reconhecer nosso limite.
          Chega a hora de dizer “adeus”. Lamentável momento que jamais quisemos que acontecesse, mas aconteceu.
          Adeus no sentido de a-Deus, de entregar a Deus. Dar as costas com o coração pesado mas não culpa do pois faz-se o que se pode. Afastar-se com a consciência aflita de que não temos o controle sobre o outro, nem mesmo sobre o que seria melhor para ele. Ir adiante na vida dando-se conta que “amor” é uma palavra ambígua, cheia de facetas e surpresas, uma delas sendo que o nível de consciência pode fazer o amor florescer ou castrá-lo.
          Não resta que assumir o fardo desse conhecimento e sem rancor devolver ao universo o que não nos pertence: o outro e seu destino. A -Deus e fique com Deus.

4 comentários:

  1. ADRIANA, como vai? achei seu blog através do post sobre o filme alice, E ESSE BLOG É MUITO BOM!

    Sabe, considero essa verdade pelo menos no primeiro momento realmente um fardo,só quando interiorizamos verdadeiramente que não podemos ser responsáveis pela vida do outro, é que realmente somos "responsáveis", e desconfio que Deus faz isso!(ando pensando muito sobre esse tema, rsrs).
    abraço!

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  2. Adriana, muito oportuno o post desta data, dia em que no Brasil se celebra o dia dos namorados. Alguém disse que amar é um ato de liberdade. Não nosso, do outro. Decidindo amá-lo, colocamos em sua mão o direito de aceitar esse amor. E é por essa razão que quando as mudanças são mecessárias, porque tudo está em movimento, é o outro que, também precisa decidir a mudar. A tendência é que tentemos arduamente tirar esse alguém do limbo: o lugar que Dante descreveu como o lugar que fica entre o céu e o inferno. NA verdade, como você bem anota, é o estado entre a consciência e a inconsciência. O antes e o depois... No exercício de sua liberdade, o outro é quem decide se a mudança é oportuna ou não. Podemos esperar pelo prodígio ou milagre. Mas o clic acontece quando percebemos que o preço que se paga é alto demais. Resta-nos agir por nós mesmas. E esperar pelo melhor.
    Bela contribuição a sua!
    Um beijo da Cristina para você e suas meninas (mãe e filha!)

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  3. Oi Lizandra,

    verdade, num primeiro momento a verdade do texto é um fardo muito grande. Cada um demora o seu tempo para se dar conta e tomar atitude.

    Abraço!
    Adriana

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  4. Oi Cristina,

    não tinha me tocado que era o dia dos namorados no Brasil! Feliz sincronicidade.

    O Limbo é exatamente o lugar onde essas pessoas - que precisamos abandonar - estão. Se estivessem no Inferno não nos interessariam, ou estaríamos aconchegadas com elas; se no Paraíso, o mesmo. O problema é esse meio termo que pode durar uma vida inteiro e aí... cadê a responsabilidade para nós mesmas?


    Beijo
    Adriana

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