06/06/2010

Terapia, análise… o quê?


Adriana Tanese Nogueira


Apesar de seus 110 anos de vida, há muito desconhecimento a respeito da psicanálise em si. Para que ela serve afinal? A pessoa que a procura faz terapia ou análise? E qual é a diferença entre as duas?


          Como escrevi em um artigo anterior, "Diferença entre Psicologia e Psicanálise", o termo psicanálise entrou na história graças a Sigmund Freud. A ele devemos a “descoberta” do inconsciente. Se, num sentido amplo, ambas são psicologia pois refere-se à psique, sem inconsciente não há psicanálise, há psicologia em senso estrito (para a qual existe um diploma universitário). Ter o inconsciente como referência da prática psicanalística torna o trabalho psicológico uma jornada de autodescoberta e conscientização.
          Por este motivo, quem vai a um psicanalista (alguém que trabalha a partir do pressuposto da existência do  inconsciente) faz uma análise. Esta pessoa vai analisar-se, conhecer-se, olhar de perto para si mesma, distinguir e reavaliar, denominar, demitologizar, elaborar, digerir e superar o que for que encontrar. Esta é uma análise: ela aposta no processo de conscientização como resolução do conflito (interior, exterior, existencial, etc.). Por sua própria natureza, a análise lida com questões profundas ligadas à identidade pessoal, mas também àquela humana, ao destino individual e ao coletivo, ao sentido da vida minha, tua, nossa, ao mistério da espiritualidade e das religiões. O espírito da psicanálise ocupa-se do fundamento abissal da existência humana e como essa magia ou esse terror se refletem na vida de todos os dias.
          Fazer psicanálise pressupõe uma bagagem de conhecimentos que vão além dos estritamente “técnicos”. É preciso adentrar o âmbito cultural mais vasto onde o ser humano se expressou: filosofia e teologia em primeiro lugar, mas também antropologia e sociologia, não últimas mitologia, literatura e contos de fada. Psicanálise é tudo menos receitas psicológicas para consertar problemas, pois o investimento psicanalítico é no despertar do indivíduo em quanto tal como via de “salvação”.
          O termo terapia foi usado muitas vezes para referir-se
indiscriminadamente ao trabalho no setting psicanalítico e não. De fato, o efeito colateral da análise é a “cura”, ou seja a terapia, mas o foco é diferente. Há muitas terapias: fisioterapia, massoterapia, acupuntura e etc. Todos os tratamentos voltadas para o ajuste de algo errado são terapias. Nesse sentido, análise é terapia.
          Há uma fácil confusão porém. Por hábito cultural, uma terapia leva a pensar por exemplo que um médico, ou outro profissional dará a cura, providenciando o que for necessário (remédios, exercícios, exames, etc.) para que esta aconteça. O enfoque está posto em quem administra tratamentos e “encantamentos” que vão resolver o problema. Esta postura frente ao problema psicológico nega o sentido intrinseco da psicanálise que não busca e não dá receitas, sobretudo não coloca a pessoa na posição passiva de quem recebe o tratamento. Muito pelo contrário, psicanálise é autonomizar o sujeito. Por isso mesmo ela é menos “popular” do que outras formas de terapias, pois autonomia anda junto à responsabilidade e consciência, coisas das quais tende-se a fugir.
          Contra a visão que inseria a psicanálise na perspectiva das terapias médico-científicas alertava o próprio Freud em sua primeira viagem aos EUA: a psicanálise, disse ele, não podia ser engolida no campo da medicina, mas devia manter sua abrangência cultural. Ou seja, a psicanálise não é uma “ciência” no sentido tradicional; seu território se situa na fronteira entre elas (e incluimos aí a Filosofia da Ciência) e os saberes humanas. De fato, a psicanálise não trata de uma disfunção psíquica como fosse um órgão isolado, mas do sujeito humano, seus conflitos e desejos, nos quais se refletem as perguntas eternas que como humanos nos colocamos. Dúvidas e desafios que moldam nossas vidas, sofrimentos, busca, perda, fixações, medo e etc., tudo é matéria humana valiosa para o auto-conhecimento e o aprofundamento.
          Pode-se dizer que a psicanálise é um pouco a filosofia aplicada à vida humana. “Aplicada” no sentido do processo de inferência e dedução, de síntese e análise, enfim, dialético, que caracteriza a filosofia. É como se a esta tivesse descido do mundo das ideas e aterrizado na conturbada realidade humana, olhado para ela e se posto as imutáveis perguntas: o que?, por quê? e para quê? Silvia Montefoschi diz que não é um acaso que após a filosofia alcançar seu apogeu (com Hegel 1770-1831) surgiu a psicanálise (Freud, 1856-1939, publicou seu livro “Interpretação dos Sonhos” em 1899, na mesma época em que acontecia a revolução na física com a teoria da relatividade e a física quântica).
A mudança de paradigma que se observa em filosofia, psicanálise e física gera um movimento que vai do grande ao pequeno, do fixo ao mutável, do universal ao particular, do objetivo em sentido estático ao objetivo relacionado ao sujeito observador.
          Cada um de nós é um laboratório ambulante de transformação de energias, uma poderosa máquina para resolver problemas, transmutar a matéria (o pensamento dado, velho e mofado), reinventar a vida, abrir caminhos, descobrir e criar. A psicanálise nasce com essa vocação: acompanhar, traduzir e conhecer o processo evolutivo da consciência humana.

7 comentários:

  1. Oi! Tô começando uma terapia,ou seria análise? Como é difícil encarar a gente de frente, bicho.
    Tenho a impressão que tô pior do q qdo comecei, mas dizem q é isso aí. Vou insistir, quem sabe a cabeça ainda tenha jeito, né?
    Olha, tô amarradona nos teus textos.
    Abraço!

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  2. Não sei o que está fazendo, Eliane, mas dá uma lida aqui: http://www.psicologiadialetica.com/2010/02/psicologias-e-psicologias-quando-o.html
    Bom trabalho!

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  3. faço analise 3x por seman ha 7 meses e tem dias q volto de lá acabada, sem vontade de voltar, mas pelo q leio isso é o efeito, qto mais nos conhecemos mais medo temos da analise, isso é real. Bjs

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  4. Dea, a menos que vc não esteja passando por uma crise muito forte que dura há 7 meses, 3x por semana é muito. Precisa tempo para digerir as coisas. Quanto mais vc se conhecer MENOS medo deveria ter da análise! É justamente o contrário.

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  5. Olá. sou estudante de Psicologia, irei para o segundo período agora no início de 2013.. Estive pensando, desde quando estive estudando, em fazer Terapia, no caso Psicologia. Para me conhecer melhor que consequentemente terei mais facilidade em compreender tudo que estou estudando. Primeiramente, o que devo procurar? Seria Psicologia que tem no Grupo de Saúde que tenho??

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  6. Oi Rafaela,
    "terapia" aqui é sempre "psicoterapia" e ela nasce da psicologia em geral. A psicanálise surigu de forma independente e foi meio que absorvida. Mas de qualquer forma, se vc quer fazer terapia precisa procurar alguém que seja um psicoterapeuta ou um psicólogo. Não sei o que tem no "Grupo de Saúde", mas onde encontrar um desses nomes, vc tem "terapia".
    Uma opção para vc fazer um trabalho de auto-conhecimento (que é indispensável se vc quer ser uma psicóloga) é fazer o meu curso A Tenda Vermelha que é uma introdução ao auto-conhecimento. Além disso, eu atendo online também como psicoterapeuta, se estiver interessada.
    É só me escrever (email aqui na coluna lateral).
    O curso A Tenda Vermelha o encontra aqui: www.cursosamigasdoparto.com

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  7. Faz 10 meses que tenho análise, 1 vez por semana. Percebo que não está ajudando em nada. A especialista fala pouco e, quando o faz, é pra expressar coisas óbvias ou redundar o que foi dito. Talvez eu saia pior do que entrei. Não pq passei a conhecer partes ruins de mim, mas pela repetição, que faz com que sinta que não tenha saída. Seria eu injusto em culpar o trabalho da analista?

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