Pular para o conteúdo principal

Casa de Areia (2005), uma metáfora da vida


Adriana Tanese Nogueira

Casa de Areia é um filme espetacular girado inteiramente nos Lençóis Maranhenses entre céu, areia e um punhado de atores. Fernanda Montenegro e Fernanda Torres, mãe e filha na vida real e no filme, atuaram esplendidamente nessa história que captura um dos aspectos mais cruciais da vida: as circunstâncias.

          No mar infinito de areia, as duas Fernandas, logo em seguida a neta também pois uma delas está grávida, estão presas. Não há televisão (ainda não havia sido inventada) nem telefone, não livros, não música, rádio ou instrumento que seja. Só a areia  branca nas três direções, e o mar na quarta. A filha, Fernanda Torres, tenta escapar de todas as formas até render-se ao inevitável. Sua filha conseguirá três décadas depois libertar-se da areia e voltar à “civilização”.
          Acontece, até mais do que desejaríamos, de nos encontramos  em circunstâncias que mais parecem armadilhas da vida e que não podemos mudar assim tão facilmente. Como no filme, podemos-nos sentir perdidos em algum lugar que é para nós um “fim de mundo”. "Caimos" na situação, não a escolhemos. Coisas acontecem.
          Você pode se apaixonar pelo cara errado, ou enrolado ou que mora em outro país. E o que pode fazer? Desapaixonar-se? Pode acabar grávida de um homem que não vai assumir o filho ou que é até melhor que não assuma mesmo. Pode casar com a pessoa que parece a certa e descobrir tarde demais que não era nada daquilo, quando já mudou de cidade ou deixou seu trabalhou… Pode perder o emprego porque entrou na firma um novo amigo do chefe. Pode ter que mudar de departamento e descobrir que está rodeado por colegas nem um pouco colaborativos e alias francamente venenosos. Pode querer estudar determinada matéria e quando finalmente consegue entrar no curso um professor ruim lhe tira ttodo o prazer. Circunstâncias, que por mais atenção se faça, ocorrem nos encontros e desencontros da vida.
          Fazer o quê? Nos fazem mudar de caminho, nos obrigam a uma vida que não queríamos, nos dão um monte de trabalhou para tentar endireitar as coisas após termos sido jogados fora da nossa estrada. Se é que conseguimos voltar, se é que é para voltar…
          O filme tem o poder de mostrar com a clareza do sol cegante do nordeste os casos aos quais estamos sujeitos na vida. Na história há três mulheres que entre 1910 e 1942 têm de viver nas dunas brancas de areia sem contato com o mundo que conheciam. A primeira dela morre, após ter-se acostumado com o lugar, onde “nenhum homem mandava nela”, a segundo briga com as circunstâncias até resignar-se; a terceira, consegue ir embora.
          Será a vida “lá fora” melhor? O filme termina com esta dúvida pairando no ar. Mas, para quem vive a aflição que agarra o peito ansioso por libertação, o movimento para frente e para além é uma obrigação existencial.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O que fazer com um marido alcóolatra?

NOTA: Pessoal, estou com dificuldade em responder às suas perguntas porque a página está ficando "longa" demais, por isso criei esta outra página (O que fazer com um marido alcoólatra 2) para conversarmos por lá, ok? O Blogger está "em crise": comentários demais! O problema é graaaande, certo? Abraço, A.


"Bom dia Adriana,
Gostaria muito de um conselho, se é que isso é possível.
Em uma das minhas inúmeras buscas na internet por uma luz, um consolo para essa minha vida miserável de esposa de alcoólatra, estava lendo um texto seu "O que fazer com um pai alcoólatra" e resolvi lhe escrever.
Acho que eu e meus filhos é que estamos no fundo do poço. Meu casamento de 19 anos, um casal de filhos e a cada dia que passa fico mais perdida e desiludida. Já perdi a esperança de um dia viver em paz com meus filhos. Tenho aguentado tudo isso por eles. Meu filho mais novo (12 anos) gosta muito do pai e acho que não suportaria se eu o abandonasse. Fico nesse dilema: será q…

O que fazer com um pai alcóolatra

Adriana Tanese Nogueira 
Um leitor, após ler meu texto "Obsessores: quem como e por quê" me escreveu pedindo aconselhamento a respeito de seu pai. Infelizmente, o email acabou sendo deletado pelo sistema e respondarei a S.L. por aqui.
Em primeiro lugar, alcoolismo é alcoolismo mesmo quando a crise, resultado da bebida, acontece uma vez por ano. Que a pessoa beba todos os dias ou de vez em quando (como muitos gostam de chamar com um eufemismo, "socialmente") não importa. Deve-se atentar para o desfecho. O não-alcoólatra quando bebe muito passa mal, o alcoólatra tem uma crise violenta, exagerada, "possessa".

Alcoólatras agridem verbalmente as pessoas que mais amam, quanto mais próxima for a pessoa mais esta sofrerá. A agressão pode ser física ou verbal, mas é sempre de nível extremamente baixo. Parece que o objetivo do alcoólatra é acabar com o outro, frantumar sua auto-estima, afogá-lo na culpa, rasgar-lhe qualquer dignidade. Após ter vomitado violentemente t…

POR QUE ESQUECEMOS DA INFÂNCIA

Adriana Tanese Nogueira

Em minha opinião, aceitamos com demasiada indiferença o fato da amnésia infantil - isto é, a perda das lembranças dos primeiros anos de vida - e deixamos de encará-lo como um estranho enigma. S. Freud, Sobre a psicopatologia da vida cotidiana

Um dos motivos que, com certeza, provocam o apagamento de grandes partes da infância é o estresse vivido naquela época. No conto de fada que os adultos gostam de tecer a respeito das crianças consta que a delas seria uma época dourada, sem preocupações, contas para pagar, tensões, trânsito e relacionamentos difíceis. Balufas. As crianças sofrem e podem sofrer muito, e muitas delas têm uma vida do cão (estou falando de crianças "normais" vindas de famílias “normais”).
O fato delas não terem a consciência e o conhecimento de um adulto só piora as coisas, porque elas não podem dar nome ao que as machuca. Isto as confunde, as deixando ainda mais assustadas. Para pior as coisas e aumentar a perplexidade e confusão da crianç…