03/07/2010

Casa de Areia (2005), uma metáfora da vida


Adriana Tanese Nogueira

Casa de Areia é um filme espetacular girado inteiramente nos Lençóis Maranhenses entre céu, areia e um punhado de atores. Fernanda Montenegro e Fernanda Torres, mãe e filha na vida real e no filme, atuaram esplendidamente nessa história que captura um dos aspectos mais cruciais da vida: as circunstâncias.

          No mar infinito de areia, as duas Fernandas, logo em seguida a neta também pois uma delas está grávida, estão presas. Não há televisão (ainda não havia sido inventada) nem telefone, não livros, não música, rádio ou instrumento que seja. Só a areia  branca nas três direções, e o mar na quarta. A filha, Fernanda Torres, tenta escapar de todas as formas até render-se ao inevitável. Sua filha conseguirá três décadas depois libertar-se da areia e voltar à “civilização”.
          Acontece, até mais do que desejaríamos, de nos encontramos  em circunstâncias que mais parecem armadilhas da vida e que não podemos mudar assim tão facilmente. Como no filme, podemos-nos sentir perdidos em algum lugar que é para nós um “fim de mundo”. "Caimos" na situação, não a escolhemos. Coisas acontecem.
          Você pode se apaixonar pelo cara errado, ou enrolado ou que mora em outro país. E o que pode fazer? Desapaixonar-se? Pode acabar grávida de um homem que não vai assumir o filho ou que é até melhor que não assuma mesmo. Pode casar com a pessoa que parece a certa e descobrir tarde demais que não era nada daquilo, quando já mudou de cidade ou deixou seu trabalhou… Pode perder o emprego porque entrou na firma um novo amigo do chefe. Pode ter que mudar de departamento e descobrir que está rodeado por colegas nem um pouco colaborativos e alias francamente venenosos. Pode querer estudar determinada matéria e quando finalmente consegue entrar no curso um professor ruim lhe tira ttodo o prazer. Circunstâncias, que por mais atenção se faça, ocorrem nos encontros e desencontros da vida.
          Fazer o quê? Nos fazem mudar de caminho, nos obrigam a uma vida que não queríamos, nos dão um monte de trabalhou para tentar endireitar as coisas após termos sido jogados fora da nossa estrada. Se é que conseguimos voltar, se é que é para voltar…
          O filme tem o poder de mostrar com a clareza do sol cegante do nordeste os casos aos quais estamos sujeitos na vida. Na história há três mulheres que entre 1910 e 1942 têm de viver nas dunas brancas de areia sem contato com o mundo que conheciam. A primeira dela morre, após ter-se acostumado com o lugar, onde “nenhum homem mandava nela”, a segundo briga com as circunstâncias até resignar-se; a terceira, consegue ir embora.
          Será a vida “lá fora” melhor? O filme termina com esta dúvida pairando no ar. Mas, para quem vive a aflição que agarra o peito ansioso por libertação, o movimento para frente e para além é uma obrigação existencial.

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