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Intersubjetividade: a terra prometida


Adriana Tanese Nogueira

          “Amo você e não quero que nos separemos nunca”, disseram os amantes uma para o outro.
          Anos depois, uma argola de aço prende as ações dos dois, uma série de “não pode” faz parte do cotidiano de ambos. Eles ainda se amam, mas permaneceram juntos graças à muita concessão e meio termos. Passam mais anos e os dois ainda estão juntos, sua alma tão grisalha quanto seus cabelos. Sua vida é monotona, a gama das opções e vivências possíveis, com o passar do tempo, restringiu-se sempre mais. Eles estão cansados, seus emoções e pensamentos parcialmente anestesiados. Enxergam da vida somente uma pequena fatia. Ainda dizem amar-se, dentro do que é possível para uma alma em liberdade vigiada.
          A relação desses amantes funda-se na fidelidade a um dogma, não questionável por princípio: a promessa/obrigação de não mudar. Suas  almas devem manter inalterada a configuração que está na base do encaixe original, até o final dos tempos. Esta é a conditio sine qua non para a relação continuar. É como tirar uma radiografia psíquica de um determinado momento da história de um casal: esta é a relação. Para mantê-la é preciso que qualquer movimento subsequente dos indivíduos que formam o casal não altere a foto original. Evidentemente, este dogma leva ao enrijecimento psicológico dos indivíduos. Em pouco tempo, o piloto automático tomou o controle e o sujeito consciente foi posto para dormir.
          Em seu sono forçado, a psique à qual foi negada consciência e ação se manifestará numa série variada de sintomas e problemáticas. Mas, se o dogma inicial não for questionado, não há solução.
          O pressuposto deste modelo de relação é arcaico. Supõe indivíduos estáticos que não evolvem. Também conta com o fato de que um vive em função do preenchimento das carências do outro, o que impede que seja um como o outro possam desenvolver novas aptidões e perspectivas sobre si mesmos e a vida. Ser “bons” dentro desta relação é então ser o que outro quer/precisa que sejamos.
          Mas um dia a água do inconsciente racha o cimento e estilhaça as opressões. A vida flui no movimento que sintetiza sua íntima dinâmica. A exigência psiquica de liberdade, expansão e conhecimento até quando pode ser recalcada?
          Os dois ainda se amam, mas a situação mudou radicalmente e seu amor é posto em discussão: amavam-se porque cada um preenchia a necessidade do outro, assim como pode-se “amar” a padaria por providenciar o pão de cada dia? Amo você porque nos encaixamos bem na cama? Ou porque você é a mãe dos meus filhos? Amo você porque você representa um papel ao qual estou acostumada e que "preciso"? Ou por quem e aquilo que você é?
          Muitos casais evitam esse questionamento radical; temem que sua relação não sobreviveria à revelação de suas bases. Eles assim se condenam a viver pregados na cruz, entre a fidelidade a um modelo de ser e a urgência evolutiva para superar o mesmo.
          A crise que resulta leva algumas pessoas à embarcar na jornada do auto-conhecimento. Elas perceberão que da identidade de pecinha de Lego em busca de outra que se encaixe nelas, navigarão para uma nova visão de si, a sujeitos reflexivos e conscientes em perpétua evolução. Não mais o molde fixo e estático promete a felicidade, mas a companhia dinâmica e viva de outro sujeito reflexivo consciente engajado em sua jornada existencial.
          Esta nova dimensão da relação carrega somente duas necessidades básicas: que o outro exista e que o outro seja livre. Este modelo, que resulta da evolução do anterior, chama-se intersubjetividade e foi elaborado pela psicanalista italiana Silvia Montefoschi em seu livro “L’Uno e l’Altro” (“Um e o Outro”), em 1977. O propósito central da psicanálise é, ela afirma, orientar, promover e ajudar os indivíduos na transição da relação interdependente para a intersubjetiva. Experiência esta que ocorre pela primeira vez no setting psicanalístico.
          Esta passagem de “modelos” pode ser comparada ao trabalho de desobstrução das toxinas que atravancam a circulação sanguínea, impedindo ao organismo de funcionar conforme seu desenho original. É por causa desse amontoado de “lixo psicológico”, na forma de persistência do que é velho e não serve mais, que ocorrem tantas neuróses e problemáticas na relação consigo e com os outros.
          Na relação intersubjetiva, uma verdade é assumida como baluarte: que amor inala liberdade e que liberdade exala amor.

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