Pular para o conteúdo principal

Mentir em terapia


Adriana Tanese Nogueira

          Não são muitas, mas há pessoas que mentem em terapia. Mentem para quem? Para si mesmas, com certeza. Mas quem o terapeuta representa exatamente que é “preciso” mentir para ele?
          Na melhor das hipóteses, o terapeuta representa a consciência do paciente. Na pior, a mãe (ou o pai). Como a figura parental sempre foi uma referência de bom comportamento para a criança, revelar a verdade ao pai ou à mãe é como assumir e conscientizar-se do que se tem feito. Logo, a terapeuta é a vicária da mãe e o terapeuta do pai.

          Há terapeutas que de fato  se colocam como mãezonas e paizões orientando seus analisandos no que é “certo” e “errado”. Desta forma esses profissionais ocupam um lugar que já está pronto, só esperando por alguém que o preencha. Todo mundo teve pai e mãe na vida, portanto a dinâmica pais-filho já vem posta na psicologia do analisando. É fácil e rápida a identificação deste com o papel do filho delegando ao terapeuta uma das figuras parentais.
          Mas esta posição de ambos é precária, pois ela se sustenta somente graças à manutenção dos papeis complementares: um de filho/a e o outro de mãe/pai. Grande parte das problemáticas psicológicas advém justamente desses papeis, ou seja existem porque esses papeis impedem ou perturbam o percurso de individuação e, portanto, de crescimento do indivíduo que procura a terapia.
          Se podemos dizer que toda relação analítica começa referindo-se aos papeis tradicionais, com certeza essa não é sua função. O papel do psicoterapeuta é o de promover a consciência do analisando sobre os papeis que desempenha na vida, inclusive aquele de filho ou de filha. A função da psicoterapia é a de estimular o nascimento de sujeitos reflexivos, pessoas conscientes que não só sabem olhar para fora de si de forma crítica e dentro do possível objetiva, mas sabem “dobram-se” sobre sua própria psíque e refletir sobre si mesmos.
          Inevitavelmente, isso só é possível se houver um mínimo de honestidade da pessoa consigo mesma (e isso vale para analista e analisando). Mentir em terapia tem a função de exorcizar o pavor da conscientização. A pessoa mente para evitar encontrar-se cara a cara com a própria realidade. Mentir em terapia é diferente de não ter consciência de algo que se faz e se sente, esta é uma situação comum que é superada com o tempo. Mas há pessoas que mentem em terapia com total lucidez. Elas têm noção de que estão mentindo (se não tivessem seriam material psiquiátrico). Nesse caso é tempo e dinheiro jogado fora.
          Como se descobrem as mentiras? Se o terapeuta for honesto consigo próprio e não estiver representando um papel para garantir seu salário no final do mês, ele irá sentir a mentira e irá confirmá-la pelos sonhos e pelos sinais involuntários que escapam ao controle da consciência do ego.
          Psicoterapia é primeiramente relação e o psicoterapeuta é (ou deveria ser) um instrumento altamente afinado de percepção da realidade da relação, percepção intelectual, afetiva, intuitiva e sentimental. Psicoterapia não é somente “relação”, mas uma relação de amor, porque só amando a outra pessoa é que podemos ajudá-la (vide Silvia Montefoschi). O que o terapeuta ama é o sujeito reflexivo desabrochando, a pessoa se emancipando, o ser evoluindo. Se o terapeuta estiver nesta perspectiva perceberá que o outro está andando numa direção diferente, assim como num casal a traição de um é percebida pelo outro, a menos que não haja conivência.
          Mentiras traem a essência do sentido da relação psicoterapeutica e a colocam num patamar que necessariamente não há de durar. Mentir em terapia constitui um cheque mate do analisando contra si mesmo. Aceitar mentiras sabendo que são conscientes formas de manipulação do paciente, é, da parte do psicoterapeuta, uma forma de sabotar seu próprio trabalho, porque apesar da compulsividade das mentiras, o analisando está lá supostamente para superá-las. Logo, cabe ao psicterapeuta oferecer-lhe esta opção. Ou vai ou racha, mas esta é a vida, não é?

Comentários

  1. Adriana, achei muito esclarecedor e extremamente pertinente seu texto. Gostaria de ter sua permissão de incluí-lo em meu blog http://psipalavra.blogspot.com/, com os seus créditos, logicamente.
    Esse é um expediente mais comum do que se imagina em psicoterapia, e realmente o tempo e o dinheiro são jogados pela janela.
    Acompanho e gosto do q escreve.
    Um abraço
    Célia

    ResponderExcluir
  2. Olá Célia, pode incluir o artigo no seu blog.
    Pois é, é um tema importante.
    Abraço
    Adriana

    ResponderExcluir
  3. Obrigada Adriana!
    Estou cursando psicanálise, e esse é um tema recorrente.
    Qd puder, visite meu blog!
    Abraços
    Célia

    ResponderExcluir
  4. Muito esclarecedor Adriana, gostaria muito de saber como aplicar na prática confrontando o mínimo o paciente para não "rachar" e perder a aliança terapêutica que já é frágil nesses casos.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá Juliana, para isso precisaríamos fazer umas sessões de supervisão.

      Excluir
  5. Adriana o seu texto foi muito útil pra mim. Gratidão!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

O que fazer com um marido alcóolatra?

NOTA: Pessoal, estou com dificuldade em responder às suas perguntas porque a página está ficando "longa" demais, por isso criei esta outra página (O que fazer com um marido alcoólatra 2) para conversarmos por lá, ok? O Blogger está "em crise": comentários demais! O problema é graaaande, certo? Abraço, A.


"Bom dia Adriana,
Gostaria muito de um conselho, se é que isso é possível.
Em uma das minhas inúmeras buscas na internet por uma luz, um consolo para essa minha vida miserável de esposa de alcoólatra, estava lendo um texto seu "O que fazer com um pai alcoólatra" e resolvi lhe escrever.
Acho que eu e meus filhos é que estamos no fundo do poço. Meu casamento de 19 anos, um casal de filhos e a cada dia que passa fico mais perdida e desiludida. Já perdi a esperança de um dia viver em paz com meus filhos. Tenho aguentado tudo isso por eles. Meu filho mais novo (12 anos) gosta muito do pai e acho que não suportaria se eu o abandonasse. Fico nesse dilema: será q…

O que fazer com um pai alcóolatra

Adriana Tanese Nogueira 
Um leitor, após ler meu texto "Obsessores: quem como e por quê" me escreveu pedindo aconselhamento a respeito de seu pai. Infelizmente, o email acabou sendo deletado pelo sistema e respondarei a S.L. por aqui.
Em primeiro lugar, alcoolismo é alcoolismo mesmo quando a crise, resultado da bebida, acontece uma vez por ano. Que a pessoa beba todos os dias ou de vez em quando (como muitos gostam de chamar com um eufemismo, "socialmente") não importa. Deve-se atentar para o desfecho. O não-alcoólatra quando bebe muito passa mal, o alcoólatra tem uma crise violenta, exagerada, "possessa".

Alcoólatras agridem verbalmente as pessoas que mais amam, quanto mais próxima for a pessoa mais esta sofrerá. A agressão pode ser física ou verbal, mas é sempre de nível extremamente baixo. Parece que o objetivo do alcoólatra é acabar com o outro, frantumar sua auto-estima, afogá-lo na culpa, rasgar-lhe qualquer dignidade. Após ter vomitado violentemente t…

Manipuladores

Adriana Tanese Nogueira
Há dois tipos de manipuladores: os maquiavélicos e os “bonzinhos”. Os primeiros sabem o que estão fazendo, os segundos “não sabem que sabem”. em ambas as categorias há uma gradação de consciência que vai da nível mais consciente (a pessoa está perfeitamente desperta) para aquele parcialmente ou totalmente “distraído”, que é de quem faz “sem perceber”.
O maquiavélico em sentido estreito é aquele indivíduo que, determinado em alcançar sua meta, toma as medidas necessárias mesmo que tenha que enganar o outro, porque, como ensinou Machiavel, “o fim justifica os meios”. O manipulador maquiavélico é esperto,  oportunista, calculador e rápido no agir. Como, porém, nem todo mundo é dotado da inteligência afiada de um Maquiavel, mas não deixa de ser oportunista, há muitas pessoas que manipulam os outros e as situações tentando, ao mesmo tempo, se escondendo de si mesmos. Se trata de uma complicada acrobacia mental que leva à neurose. É como se uma mão “não soubesse” o que …