30/07/2010

Mentir em terapia


Adriana Tanese Nogueira

          Não são muitas, mas há pessoas que mentem em terapia. Mentem para quem? Para si mesmas, com certeza. Mas quem o terapeuta representa exatamente que é “preciso” mentir para ele?
          Na melhor das hipóteses, o terapeuta representa a consciência do paciente. Na pior, a mãe (ou o pai). Como a figura parental sempre foi uma referência de bom comportamento para a criança, revelar a verdade ao pai ou à mãe é como assumir e conscientizar-se do que se tem feito. Logo, a terapeuta é a vicária da mãe e o terapeuta do pai.

          Há terapeutas que de fato  se colocam como mãezonas e paizões orientando seus analisandos no que é “certo” e “errado”. Desta forma esses profissionais ocupam um lugar que já está pronto, só esperando por alguém que o preencha. Todo mundo teve pai e mãe na vida, portanto a dinâmica pais-filho já vem posta na psicologia do analisando. É fácil e rápida a identificação deste com o papel do filho delegando ao terapeuta uma das figuras parentais.
          Mas esta posição de ambos é precária, pois ela se sustenta somente graças à manutenção dos papeis complementares: um de filho/a e o outro de mãe/pai. Grande parte das problemáticas psicológicas advém justamente desses papeis, ou seja existem porque esses papeis impedem ou perturbam o percurso de individuação e, portanto, de crescimento do indivíduo que procura a terapia.
          Se podemos dizer que toda relação analítica começa referindo-se aos papeis tradicionais, com certeza essa não é sua função. O papel do psicoterapeuta é o de promover a consciência do analisando sobre os papeis que desempenha na vida, inclusive aquele de filho ou de filha. A função da psicoterapia é a de estimular o nascimento de sujeitos reflexivos, pessoas conscientes que não só sabem olhar para fora de si de forma crítica e dentro do possível objetiva, mas sabem “dobram-se” sobre sua própria psíque e refletir sobre si mesmos.
          Inevitavelmente, isso só é possível se houver um mínimo de honestidade da pessoa consigo mesma (e isso vale para analista e analisando). Mentir em terapia tem a função de exorcizar o pavor da conscientização. A pessoa mente para evitar encontrar-se cara a cara com a própria realidade. Mentir em terapia é diferente de não ter consciência de algo que se faz e se sente, esta é uma situação comum que é superada com o tempo. Mas há pessoas que mentem em terapia com total lucidez. Elas têm noção de que estão mentindo (se não tivessem seriam material psiquiátrico). Nesse caso é tempo e dinheiro jogado fora.
          Como se descobrem as mentiras? Se o terapeuta for honesto consigo próprio e não estiver representando um papel para garantir seu salário no final do mês, ele irá sentir a mentira e irá confirmá-la pelos sonhos e pelos sinais involuntários que escapam ao controle da consciência do ego.
          Psicoterapia é primeiramente relação e o psicoterapeuta é (ou deveria ser) um instrumento altamente afinado de percepção da realidade da relação, percepção intelectual, afetiva, intuitiva e sentimental. Psicoterapia não é somente “relação”, mas uma relação de amor, porque só amando a outra pessoa é que podemos ajudá-la (vide Silvia Montefoschi). O que o terapeuta ama é o sujeito reflexivo desabrochando, a pessoa se emancipando, o ser evoluindo. Se o terapeuta estiver nesta perspectiva perceberá que o outro está andando numa direção diferente, assim como num casal a traição de um é percebida pelo outro, a menos que não haja conivência.
          Mentiras traem a essência do sentido da relação psicoterapeutica e a colocam num patamar que necessariamente não há de durar. Mentir em terapia constitui um cheque mate do analisando contra si mesmo. Aceitar mentiras sabendo que são conscientes formas de manipulação do paciente, é, da parte do psicoterapeuta, uma forma de sabotar seu próprio trabalho, porque apesar da compulsividade das mentiras, o analisando está lá supostamente para superá-las. Logo, cabe ao psicterapeuta oferecer-lhe esta opção. Ou vai ou racha, mas esta é a vida, não é?

6 comentários:

  1. Adriana, achei muito esclarecedor e extremamente pertinente seu texto. Gostaria de ter sua permissão de incluí-lo em meu blog http://psipalavra.blogspot.com/, com os seus créditos, logicamente.
    Esse é um expediente mais comum do que se imagina em psicoterapia, e realmente o tempo e o dinheiro são jogados pela janela.
    Acompanho e gosto do q escreve.
    Um abraço
    Célia

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  2. Olá Célia, pode incluir o artigo no seu blog.
    Pois é, é um tema importante.
    Abraço
    Adriana

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  3. Obrigada Adriana!
    Estou cursando psicanálise, e esse é um tema recorrente.
    Qd puder, visite meu blog!
    Abraços
    Célia

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  4. Muito esclarecedor Adriana, gostaria muito de saber como aplicar na prática confrontando o mínimo o paciente para não "rachar" e perder a aliança terapêutica que já é frágil nesses casos.

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    1. Olá Juliana, para isso precisaríamos fazer umas sessões de supervisão.

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  5. Adriana o seu texto foi muito útil pra mim. Gratidão!

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