Adriana Tanese Nogueira
Já observaram o quanto encaixotados estamos em modelos pré-confeccionados? Há moldes para tudo. Escolha o seu, retire-o da prateleira do supermercado, vá ao caixa e pague. Agora, tem a felicidade (porque ela naturalmente se compra).
É verdade que alguma transação econômica faz parte da felicidade. Mas se o dinheiro for necessário, ele certamente não é suficiente. Além do dinheiro há de haver condições psicológicas e sociais. Gostamos de estar com certas pessoas e queremos estar de bem com elas, além do mais. Mas não suficiente tê-las por perto para a felicidade magicamente aparecer e sobretudo permanecer. A saúde, com certeza, é outro ingrediente importante, mas também não basta ter saúde para ser feliz. Na ausência de qualquer uma dessas dimensões, imagina-se que ter o que faz falta vai dar a felicidade. Engano.
Conseguir aquilo de que precisamos propocia as condições para a felicidade, não a garante. É o que todo mundo acaba descobrindo mais cedo ou mais tarde. As condições abrem o caminho, ainda falta “chegar lá”.
Os animais no zoológico não são felizes. Lentos nos movimentos, imóveis ou agitados, olhos apagados, expressão passiva: são os sinais de quem está deprimido. Um leão numa jaula não pode ser feliz, um urso entre paredes de cimento de um espaço artificial também não assim como uma abelha impedida de produzir mel, uma águia tolhida de voar alto e um jacaré obrigado a ficar na areia seca. Eles não podem ser felizes porque são impossibilitados de seguir sua natureza. Vivem em condições que violam aquilo que são, reprimindo suas necessidades essenciais. Recebem comida e abrigo: e daí? É evidente que não são suficientes para um animal ser feliz, o que dirá para nós humanos.
Uma criança trancada em casa vai entrar em depressão porque crianças precisam se movimentar e explorar o território a fim de conhecer e se conhecer. Lembro de um caso a respeito de um bebê de poucos meses que vivia chorando. A mãe era uma jovem do nordeste, pobre e ignorante. A vizinha havia notado que o bebê parava de chorar durante o único passeio diário que a mãe fazia com ele no carrinho. O resto do tempo esse recém-nascido o transcorria num quarto pequeno, dentro do berço e sem nenhuma outra diversão além de si mesmo…
Um ser humano de poucos meses rejeita instintivamente uma vida circunscrita, desinteressante e isolada. Já tão pequeno e incapacitado, ele é entretanto intolerante à imobilidade e à ausência de aprendizado visual, auditivo, emocional, táctil e cognitivo.
Esse desenvolvimento necessário no sentido de apreensão do mundo e auto-descoberta, expansão e conquista é felicidade. Ter dinheiro, cultura, informação, companhia são maravilhosos instrumentos para promover o crescimento, mas o coração da felicidade está nesse intercâmbio entre experiência e conhecimento que leva a novas e mais sofisticadas experiências e conhecimentos, o que constitui a raiz do processo de evolução da consciência.
A essência humana está em sua consciência, em tudo o resto os animais são superiores a nós. Somente o conhecimento e a experiência acendem a faísca da consciência.
Qual tipo de experiência e de conhecimento cada pessoa necessita para expressar sua essência humana isso é da conta do indivíduo. Esta é a parte única e subjetiva à qual cada um tem direito a seu espaço. Todos nós somos faces do mesma humanidade, temos a mesma raíz e a mesma vocação humana. Nos diferenciamos porque cada qual tem suas peculiaridades, escolhas, qualidades, idiosincrasias, maluquices. Somos flores diferentes do mesmo jardim. O objetivo é florescer. Florescendo vem a felicidade. Florescer é felicidade. No que cada um vai florescer é a surpresa. Mas o que importa ser um carvalho ou um pinheiro? Uma maceira ou uma mangueira? Uma rosa ou uma tulipa?
Tudo é bom. A questão é não fixar-se que só sendo uma rosa é que vamos ser felizes, pois quando se carrega dentro a semente de um girassol a infelicidade será a inevitável sina. Logo, felicidade é 1) liberdade dos estereótipos para em seguida ser 2) liberdade para fazer qualquer semente trazemos dentro florescer em alegria e legitimidade, guardada e protegida pela consciência ousada do indivíduo que se assume.

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